Poa em Cena – A história do homem que ouve Mozart e da moça do lado que escuta o homem

escrito por vals em setembro 27, 2011

Adriana Zattar, da Companhia Espaço Cênico

Dois seres ilhados aos poucos se tocam em suas memórias e deslocamentos no tempo e no espaço. Cenas envoltas na penumbra reforçam uma experiência mais auditiva que visual, como dão fé os verbos no nome do espetáculo. A história do homem que ouve Mozart e da moça do lado que escuta o homem constrói um campo sensório em que o espectador está ao alcance da mão estendida do intérprete. O tato, porém, importa menos que a atenção consciente e clandestina diante de sentidos outros na cohabitação proposta pelos criadores da Companhia Espaço Cênico.

O ponto de partida, sincrônico ou ao acaso, é o encontro dos personagens que nunca se viram – assim como quando artistas e público se descobrem numa noite.

A imagem do gotejamento – há goteiras permanente em pontos distintos do tablado – é reveladora do processo paulatino de como a narrativa se instala. No início, a atmosfera e a dramaturgia são difusas. Aos poucos, o espectador percebe os códigos disponíveis para ler a seu modo. A obra aberta dá pistas de um homem e de uma mulher acuados pelos seus fantasmas. Eles são vizinhos de parede numa hospedaria. O homem ancora-se nas palavras para não sucumbir de todo à loucura. É escritor, dá aulas de literatura. Balbucia. A mulher, por sua vez, mete-se em sua casa de bonecas imaginária, seu hospital de brinquedos. Salvar vidas inanimadas é uma forma de prorrogar a sua.

Nesses ofícios de fabulação para enfrentar passados doloridos, ambos vão escudando-se da solidão. Tateiam saídas. Quer dizer, ele já atingiu seu limite, não parece mais disposto à sobrevida. Tem por volta de 40 anos e está acuado pelo espectro do pai morto aos 13, prefigurado num homem de preto, um maestro.

Há uma tempestade lá fora, o chão está cada vez mais encharcado. Num dos momentos, a luz se esvai. E a escuridão os iguala. Quando parecem desabar nessa realidade precária, vertiginosa, o caos os realinha e sublima certa espiritualidade após tanta expiação. “Às vezes as coisas parecem sem razão”, diz ele, entre assovios e saudações a Camus, Pirandello, Augusto dos Anjos, Cervantes e outros igualmente alados em seus atos criativos costurados às biografias.

O norte na dramaturgia de Francis Ivanovich, autor ou pseudônimo, é o pretexto, aquilo que está entre, borrado, em desequilíbrio, fora de ordem. A isso corresponde a encenação de Luiz Antonio Rocha, que faz uma imersão dos atores nesse não-lugar. As paredes invisíveis, a cama sem colchão, a boneca desmembrada. E quem vai reger efetivamente essa sinfonia do desassossego em cena são Adriana Zattar e Roberto Birindelli, mediadores no pântano do irracionalismo.

Em meio a sons guturais que emitem para ilustrar o vento (não há música mecânica) e o terreno movediço em que pisam descalços na instabilidade das tábuas escorregadias, eles relativizam o peso da representação e alcançam um registro mítico na interpretação. No vaivém aflitivo do homem e da mulher, compartilham o tempo todo o mesmo lugar, seja físico ou imaginário, até que, enfim, vão se falar, olhar, tocar na travessia da aflição existencial e dos estalos líricos.

Uma ressalva no texto é a gênese do escritor descortinada na reta final, como que conduzindo o espectador a um porto seguro para o papel o papel que, até então, tínhamos elaborado deixando-se levar pelo mar da subjetividade. Para uma obra que até então tinha se arriscado no contrato da invenção, vide a liberdade com que se intui a trajetória da mulher, tal concessão seria dispensável.

O jornalista viajou a convite da organização do festival.

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