Poa em Cena – Amar

escrito por vals em setembro 18, 2011

Atrizes de Amar, texto e direção do argentino CatalánO título é Amar, mas os sentidos que o verbo revela o autor e diretor Alejandro Catalán prefere ocultar. Mergulhado o tempo todo em penumbra, o espetáculo escapa desesperadamente à armadilha dos códigos sentimentais para sustentar-se nas tramas da linguagem. O ator é veículo absoluto na operação de luz rarefeita, na presença oculta jogada às claras com o espectador, na manipulação artesanal ainda dos objetos, adereços e do som. Expor os procedimentos confere uma noção totalizadora ao encontro ao vivo, sublima distanciamento ao público.

Três homens, três mulheres, três casais. Seus históricos afetivos são fragmentados durante o encontro noturno, jornada de uma festa num balneário com direito a pista de dança, jardim, praia logo adiante.

Há o casal mais maduro, ele e ela na faixa dos 40 anos, juntos há oito. Há o casal intermediário que atravessa aquela fase decisiva de saber se a relação vinga (ter filhos) ou não. E os namorados que se conhecem faz apenas dois meses, vertendo a inseguranças dele e a maturidade dela. Esta moça é tratada com desdém, o preconceito pelos vinte e poucos anos, e no fundo tem mais consciência dos desejos e frustrações manifestados naquelas poucas horas de convivência.

Os seres excitantes e hesitantes de Catalán são submetidos a uma concisão espacial, a feixes de luz tremeluzentes ao ritmo das lanternas que seguram em suas mãos. A luz ganha função narrativa em primeiro plano, como na cena em que um dos homens varre os olhos sobre o corpo da mulher do colega enquanto a iluminação também faz às vezes de um escâner.

As imagens em Amar estão banhadas pelo cinema, apesar de ignorar as projeções. Rostos crescem à boca de cena como se num close de câmara, dada a proximidade do público no espaço não-convencional e o vaivém do sexteto. O cenário é percebido como um estúdio de filmagem com direito a galhos e folhagens de plástico. O aparato rústico das ribaltas usa garrafas PET como suporte.

No teatro de formas do argentino Catalán, caminho igualmente tão caro aos compatriotas Daniel Veronese e Emilio García Wehbi, com os quais já trabalhou, o texto e o silêncio são complementares na ambientação do discurso ficcional. Na obra de 2010 não há espaço para moral ou nuanças psicológicas no naufrágio das relações. As almas resultam diagnosticadas e os órgãos, não necessariamente dilacerados.


>>Alejandro Catalán

>> 18º Porto Alegre em Cena


O jornalista viajou a convite da organização do festival.

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