Poa em cena – Dentro da noite

escrito por vals em setembro 21, 2011

Alvisi no primeiro conto de João do Rio que dá título ao espetáculo

Na adaptação teatral de dois textos do cronista João do Rio (1881-1921), a assinatura de Ney Matogrosso na direção e na cocriação do desenho de luz não é protocolar. A experiência como ator no início da carreira, seu extraordinário desempenho de palco como cantor, há mais de 40 décadas, são credenciais para a parceria com Marcus Alvisi em Dentro da noite.

O projeto que Alvisi iniciou anos atrás com leituras dramatizadas em livrarias do Rio evoluiu para a cena e o reconduziu à função de ator da qual estava afastado havia pelo menos três décadas. O acompanho como encenador desde os anos 1990, como em dois monólogos com Diogo Vilela, Solidão, a comédia e Diário de um louco.

Da mesma forma, Matogrosso, que já era espectador daquelas tertúlias, foi convencido a conceber uma montagem com os signos que refletissem o estilo e a atualidade da obra do cronista colocada à margem da história literária dita oficial, e em grande parte por razões de preconceito, homossexual, gordo e negro que era, como resume o diretor/cantor.

O espetáculo conjuga dois contos de João do Rio que remetem ao início do século XX. Dentro da noite, que lhe dá título, e O bebê de Tarlatana rosa são emendados com suas respectivas tonalidades na composição física do ator e na atmosfera sugerida pela iluminação de Matogrosso e Carlos Lafert. O primeiro conto se passa no interior de um trem de subúrbio e o segundo, nas ruas, em pleno Carnaval.

A palavra é valorizada à altura. “O trem rasgara a treva num silvo alanhante”, diz um narrador. “E à frente, no alto da locomotiva, como o rebate do desespero, o enorme sino reboava, acordando a noite, enchendo a treva de um clamor de desgraça e de delírio”, afirma um segundo, dando conta de um João do Rio inspirado. Valorizar a enunciação não significa deixar em ponto morto desejos e desvarios latentes. Cabe ao intérprete trazê-los à superfície.

Alvisi é muito bem sucedido na primeira narrativa, de tom impressionista nos gestos e na ambientação soturna do espaço cênico de poucos objetos. Já na segunda história, a opção por intencionalidades mais expansivas, no limite da caricatura, desequilibra a força simbólica da máscara sugerida por um tecido vermelho e sobrepuja as tentações da carne em detrimento da sutileza que tanto nos disse minutos antes, mesmo quando os instintos estavam à flor da pele.


PS: Toda a obra de João do Rio, inclusive os contos citados, está disponível no site Domínio Público, do MEC.


O jornalista viajou a convite da organização do festival.

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