Poa em Cena – Agreste Malvarosa
escrito por vals em outubro 31, 2011Idealizadora da produção carioca, a atriz Millene Ramalho compõe com Rosana Barros uma dupla convincente, técnica e poeticamente, no trânsito por Etevaldo e Maria – o amor incondicional desses seres “tímidos como caramujo” – e aqueles que gravitam ao redor do casal e vão se espantar justo após a morte do “marido”, fixados no órgão genital dele ou, melhor, na sua ausência. A sexualidade é o pomo da discórdia. Tanto Aurelio quanto Teixeira e Brodt relativizam essa questão de gênero ao lançar mão de intérpretes masculinos e femininos e conferir dimensão humanista aos protagonistas.
Despontam o delegado, o padre e as velhas vizinhas cantadoras e suas incelenças sem que a tipificação sertaneja transborde; ela é pontual, jamais a serviço da caricatura de personagens e narradores. Não se incorre em desmedidas como o faz a “natureza cruel” em relação ao sol, ao corpo e ao amor, vide a estrofe sentenciosa que abre e fecha o espetáculo, num apêndice do pernambucano Moreno à própria obra.
O que se encaminhava como rito fúnebre logo dá margem a um ritualismo de outra ordem, aquele em que Maria sacramenta seu amor contra todo tipo de preconceito e agressão despachados pela falsa moral comunitária. A encenação equaliza a sequência trágica e o humor atávico desse universo mítico nordestino por meio das partituras física, vocal e literalmente musical. Beto Lemos é o criador e intérprete que surge em cena tocando acordeão, violão, violino, zabumba e inclusive uma baqueta que, a certa altura, marca o tempo introspectivo da ação.
A limpeza formal dos gestos e movimentos das atrizes também se dá no plano do espaço cênico. Os objetos cenográficos são mínimos. O elemento mais evidente é a cerca rústica que envolve e demarca o território não convencional e atemporal desse relato de memória tornado presente aos olhos e ouvidos do espectador.
Etevaldo e Maria não queriam conhecer os outros. Não lhes interessava a vida alheia. Terminaram isolados naturalmente porque se bastavam, ainda que a todos cumprimentassem e respeitassem quando encontravam pelo caminho empoeirado. Eles, definitivamente, não eram ignorantes, como o analfabetismo pode dar a entender naqueles rincões áridos. Ao contrário, tinham a percepção mais aguçada que as autoridades do povoado. Não possuíam conhecimento e, no entanto, não lhes faltava autoconhecimento para tocar a vida conformada no companheirismo.
E mesmo quando a intolerância tenta reduzir essa bela história às cinzas sobressai uma pungente cerimônia de adeus.
O jornalista viajou a convite da organização do festival.

