Poa em Cena – Agreste Malvarosa

escrito por vals em outubro 31, 2011

Millene Ramalho (esq.) e Rosana Barros

O espetáculo Agreste malvarosa não só recupera o subtítulo que Newton Moreno guardava entre parênteses na peça original, de 2001, como traz duas atrizes no papel do casal que está no olho da narrativa. Eis os exemplos, para começar, de contraposição e dialogismo em relação à premiada montagem de Marcio Aurelio para o mesmo texto, em 2004, com atuações de Joca Andreazza e Paulo Marcello, trio da Companhia Razões Inversas. A recente concepção de Ana Teixeira e Stephane Brodt, em projeto paralelo à Companhia Amok Teatro, também sublinha a linguagem como suporte absoluto da cena, em todos os sentidos, sem ceder a tentações que chapariam o texto no registro da cultura popular, o escapismo regionalista do qual essa dramaturgia bebe, mas não se embriaga.


Idealizadora da produção carioca, a atriz Millene Ramalho compõe com Rosana Barros uma dupla convincente, técnica e poeticamente, no trânsito por Etevaldo e Maria – o amor incondicional desses seres “tímidos como caramujo” – e aqueles que gravitam ao redor do casal e vão se espantar justo após a morte do “marido”, fixados no órgão genital dele ou, melhor, na sua ausência. A sexualidade é o pomo da discórdia. Tanto Aurelio quanto Teixeira e Brodt relativizam essa questão de gênero ao lançar mão de intérpretes masculinos e femininos e conferir dimensão humanista aos protagonistas.

Despontam o delegado, o padre e as velhas vizinhas cantadoras e suas incelenças sem que a tipificação sertaneja transborde; ela é pontual, jamais a serviço da caricatura de personagens e narradores. Não se incorre em desmedidas como o faz a “natureza cruel” em relação ao sol, ao corpo e ao amor, vide a estrofe sentenciosa que abre e fecha o espetáculo, num apêndice do pernambucano Moreno à própria obra.


O que se encaminhava como rito fúnebre logo dá margem a um ritualismo de outra ordem, aquele em que Maria sacramenta seu amor contra todo tipo de preconceito e agressão despachados pela falsa moral comunitária. A encenação equaliza a sequência trágica e o humor atávico desse universo mítico nordestino por meio das partituras física, vocal e literalmente musical. Beto Lemos é o criador e intérprete que surge em cena tocando acordeão, violão, violino, zabumba e inclusive uma baqueta que, a certa altura, marca o tempo introspectivo da ação.


A limpeza formal dos gestos e movimentos das atrizes também se dá no plano do espaço cênico. Os objetos cenográficos são mínimos. O elemento mais evidente é a cerca rústica que envolve e demarca o território não convencional e atemporal desse relato de memória tornado presente aos olhos e ouvidos do espectador.


Etevaldo e Maria não queriam conhecer os outros. Não lhes interessava a vida alheia. Terminaram isolados naturalmente porque se bastavam, ainda que a todos cumprimentassem e respeitassem quando encontravam pelo caminho empoeirado. Eles, definitivamente, não eram ignorantes, como o analfabetismo pode dar a entender naqueles rincões áridos. Ao contrário, tinham a percepção mais aguçada que as autoridades do povoado. Não possuíam conhecimento e, no entanto, não lhes faltava autoconhecimento para tocar a vida conformada no companheirismo.


E mesmo quando a intolerância tenta reduzir essa bela história às cinzas sobressai uma pungente cerimônia de adeus.


O jornalista viajou a convite da organização do festival.

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