A demissão de Mariangela Alves de Lima, 40 anos de crítica
escrito por vals em dezembro 11, 2011A crítica Mariangela Alves de Lima, 40 anos de ofício em O Estado de S.Paulo, foi demitida na última sexta-feira. Choca a decisão administrativa do jornal: desligar a pensadora que inscreveu seu nome na história contemporânea do matutino e do teatro brasileiro sem que tal memória fosse ponderada.
Seguidora de Décio de Almeida Prado (1917-2000) e de Sábato Magaldi, ambos projetados no Grupo Estado, ela tem o mérito de elaborar sua própria linguagem na interlocução ensaística com os leitores/espectadores/criadores. Sua recepção é marcada pelo horizonte das ideias: é para lá que, intuímos, deseja ser transportada por meio do espetáculo, ou para além dele, e sempre que possível fazendo-se acompanhar depois em sua escrita com igual disponibilidade e rigor. Pois ela preferiu não submeter-se ao racionamento mensal de textos no Caderno 2, medida drástica que também alcança colaboradores das demais áreas, culminando a precarização do trabalho nos últimos tempos.
As entrelinhas da notícia gritam ainda a desimportância das artes cênicas no jornalismo cultural brasileiro. A dissociação do pensamento crítico é paradoxal. Os últimos dez anos viram crescer a produção do teatro de pesquisa, do teatro musical e da comédia stand-up em muitas capitais, apesar de quantidade não rimar com qualidade, relativizamos. Expandiu também o circuito de festivais nacionais e internacionais. Há demandas de público para a presença ao vivo, olho no olho, nas suas variadas manifestações.
Os professores e pesquisadores de teatro Edelcio Mostaço (UDESC) e Sílvia Fernandes (USP), entre outros, endossam o abaixo-assinado a seguir, pedindo explicações ao Estadão e sugerindo que todos os interessados também se manifestem junto ao centenário matutino cuja cobertura de teatro e de dança, pelo menos dos anos 1990 para cá, mantinha fôlego na reportagem e na crítica, inclusive com mais de um titular nesta função. Os emails institucionais são: portal@grupoestado.com.br, fórum@grupoestado.com.br e falecom.estado@grupoestado.com.br.
Dado o cenário, resulta sincrônico o título da crítica que Mariangela assina na edição de hoje, página D2, relativa a Hécuba, encenação de Gabriel Villela protagonizada por Walderez de Barros: As faces da dor.
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A crítica de teatro Mariangela Alves de Lima foi sumariamente demitida do jornal O Estado de S.Paulo. Alguém simplesmente lhe telefonou na última sexta-feira e lhe comunicou a decisão. Ela trabalhou por mais de 40 anos na casa e, ao longo desse período, consolidou uma carreira simplesmente inigualável – em tempo e qualidade – dentro de um órgão de comunicação.
O episódio é injustificável, visto por qualquer ângulo. Do ponto de vista da empresa, evidencia o menosprezo e o desrespeito para com o trabalho de seus funcionários. Há pouco mais de um ano outro nome de destaque conheceu situação assemelhada, deixando claro a norma trabalhista sumária da centenária instituição.
Mariangela ocupa posição singular no panorama teatral brasileiro na segunda metade do século XX, e também neste. Pautada por rigorosa formação estética e histórica, sempre conferiu a seus comentários a mais límpida expressão de uma recepção atenta, inteligente e iluminada sobre os rumos artísticos do país. Cumpriu, com zelo e atenção, sua função de testemunha participante nos rumos tomados pelo teatro nacional, dando-lhe não apenas destaque artístico como, em muitos casos, o sentido e a significação que ele não sabia ter alcançado. O teatro e a arte em geral necessitam serem pensados – e não apenas comercializados – como supõem as mentalidades que apenas enxergam o mundo através das grades financeiras.
Pode-se compreender que uma empresa queira fazer ajustes em seu quadro funcional, mas deve, em todos os casos, observar normas trabalhistas e éticas mínimas, uma vez que sua função social ultrapassa a mera prestação de serviços. Uma opinião estampada nessa mídia cria diálogo social, influi sobre decisões, ajuda a formar mentalidades, expõe ao debate público ângulos analíticos e vozes submersas que, de outro modo, permaneceriam invisíveis e inaudíveis. E o teatro brasileiro reclama uma voz atuante como a de Mariangela, singular e parcimoniosa, exigente e atenta, para crescer e se desenvolver.
Nós abaixo-assinados, leitores assíduos de Mariangela Aves de Lima ao longo de sua brilhante carreira, acreditamos que o jornal O Estado de S.Paulo, especialmente a editoria do Caderno 2, deve prestar esclarecimentos sobre a decisão autoritária e desrespeitosa não apenas com a crítica, mas com os artistas e os pesquisadores do teatro brasileiro.

dezembro 11th, 2011 at 23:36
vergonha.
dezembro 12th, 2011 at 14:26
Querido Valmiro,
As artes vão despencando. Na Folha, não acabaram com o Folhateen, transformaram a Ilustrada em Folhateen.
Abraços,
Rogério
dezembro 12th, 2011 at 20:42
Aonde vamos parar?!?! Absurdo!
dezembro 12th, 2011 at 21:06
Chato pensar no Estadão sem as críticas de Mariângela Alves de Lima ou chato pensar no teatro sem o seu olhar? Os dois!
dezembro 13th, 2011 at 11:18
poucas pessoas assistiram atuando como ela os espetáculos do Teatro Oficina. diálogo de alto nível, entre criadores e crítica. não sucumbemos ao entretenimento vazio e sem graça ! ! ! ! !
dezembro 14th, 2011 at 16:31
CHEGA DE AUTORITARISMO!!!
CHEGA DE ARBITRARIEDADE!!!
O TEATRO NÃO MERECE ESSE DESRESPEITO.