Balaio

escrito por vals em abril 4, 2012



O espetáculo Balaio é como um filme do leste europeu: cores gris para uma dança desesperada sobre a lápide fria do carinho, do amor e do reconhecimento.

Gestado no ventre do Centro de Pesquisa Teatral (CPT), em suas variantes do ator e da dramaturgia, carrega o DNA da série Prêt-à-Porter coordenada por Antunes Filho há 13 anos e atualmente na décima edição.


Fosse o Prêt-à-Porter 11, Balaio atenderia aos mesmos códigos dessa modalidade de criação na qual os atores despontam autorais no sentido mais amplo do termo – e até onde o crivo de Antunes alcança, diga-se.

Como nos trabalhos anteriores, ainda que em produção descolada do CPT, o septeto da vez assume a direção conjunta e ainda estrutura texto, cenografia, figurinos, luz, música, etc. Cada um desses elementos passa por subtrações na base do menos é mais.

A sequencia de três histórias autônomas, ao cabo, possibilita nexos não explícitos entre os temas e formas. Um traço significativo é o do abandono.

Em O pai, são os filhos que projetam essa figura ancestral através da memória e das sensações. Cristiano Salomão, Isabel Wilker e Mariana Delfini narram a seco pedaços delicados e amargos dessa relação, inclusive quando ela inexiste. Constroem paisagens sussurradas, trianguladas entre si e com o espectador. Na perspectiva das cenas que vêm depois, esta se assume despojada, transmitindo também impressão de acanhamento em certas passagens.

Num crescendo, a transição de cenas é exposta aos olhos do público. Luz sempre geral, branca. Atores fazendo a contrarregragem, movimentando os poucos objetos aqui e ali. Quem não está em cena no Espaço Beta do Sesc Consolação, no âmbito do projeto Primeiro Sinal, permanece nas laterais e espreita os colegas em ação. Todos, por sua vez, são observados pela audiência.


O tom lírico modifica-se completamente a partir da segunda cena da noite. A quadratura do círculo é a dramaturgia que mais instiga, com Stella Prata e Carolina Sudati. A máscara circense da primeira expõe a condição do artista na sociedade, os obstáculos do ofício, sua marginalidade, suas idiossincrasias e, principalmente, o seu duplo. Há um cadáver, por Sudati. Há um crime. Há o público como cúmplice. Há um terceiro interlocutor imaginário. E há o discurso dessa colombina, por Prata, de sonoridade rascante, voluptuosa e desassossegada diante do ato consumado.

O desfecho do espetáculo é ainda mais exasperante com Narizes bem preparados. A criação rompe radicalmente a austeridade naturalista do Prêt-a-porter e faz da desestabilização o seu norte. Camila Turim e Nathália Corrêa cumprem partituras simultâneas e contrastantes nas dimensões poética e épica.

A passionalidade transborda na presença de Corrêa, magnetizante no descontrole que desenha, no olhar tempestivo. Ela costura corações de galinha feito um colar que põe em seu dorso ou os pisoteia às dezenas. Ao esmagar a metáfora sentimental, esta se torna ainda mais incômoda, ápice da montagem.

Tão independente quanto contíguo a Antunes, Balaio alimenta a percepção colateral de que os últimos experimentos no âmbito do Prêt-à-Porter produzem sínteses cada vez mais bem urdidas em suas ideias e expressões.

O espetáculo concretiza a carnalidade da dramaturgia que também é da cena. Conjunção da qual a terceira parte do Prêt-à-Porter 10, Cruzamentos, de 2011, já dava notícias com as atuações de Geraldo Mário e Marcelo Szpektor.

Em suma, as dores do mundo são íntimas, expõe esse Balaio árido, úmido, visceral.


>> Blog do espetáculo Balaio


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