Bogotá – Teatro Varasanta

escrito por vals em abril 9, 2012



Após banhar-se do tema do bicentenário da independência colombiana em Fragmentos de libertad – 200 anos (2010), o Teatro Varasanta – Centro para la Transformación del Actor persevera pensar o seu país em cena com perspectiva histórica. Agora, é Shakespeare quem lhe dá as senhas em La tempestad, sob as mãos do diretor polonês convidado Piotr Borowski (do Studium Teatralne, de Varsóvia), discípulo do compatriota Jerzy Grotowski.

O grupo fundado em 1994, entre outros, pelo ator e diretor Fernando Montes toma o drama elisabetano, adaptado por Borowski, para refletir sobre perdão e esquecimento à luz da sociedade colombiana contemporânea. O desfecho no qual os personagens estão reconciliados com seus ideais e lugares, perdas e danos, passada a tormenta furiosa, é o que parece nortear a leitura do Varasanta. Ao trauma coletivo da violência é preciso responder com um arranjo igualmente conjunto das partes envolvidas.

Não se trata de uma visão romântica da paz para uma realidade fraturada na vida comum dos seus cidadãos, de certo modo ilhados dentro da própria casa. A alegoria encenada assume o conflito como motor autocrítico a partir da consciência de Próspero (por Montes), o soberano de poderes mágicos que leva a mão à consciência e recua após vingar-se dos inimigos e traiçoeiros que o destronaram do título de duque. Ele provoca o naufrágio do navio em que viajam, obrigando-os – ou as leis da natureza – a aportar no território onde se exilou.

A concepção cênica evita sublinhar as ações e aventuras do drama e concentra-se na moralidade por trás de cada indivíduo, o espaço íntimo das relações que determinam as posturas públicas. O acercamento dos tempos atuais implica figurinos urbanos, tailleurs e ternos que tiram a camada corporal que costuma ser enfática nas obras do Varasanta. Próspero vestindo traje social ou convalescendo num leito hospitalar permitem leituras caras aos conflitos sociais e políticos da Colômbia. Uma mesa de bilhar que avança em outro momento ilustra o que está em jogo.

Cabe à sedução de Miranda e à leveza alada de Ariel os encantamentos da ordem do anima e da arte. São esses instantes que religam o projeto à simbologia ritual do grupo que dedicada boa parte de sua investigação teatral ao campo da antropologia.

O espaço multiuso de sua sede é apropriado de modo essencial pelo encenador Borowski, corresponsável pela cenografia. O vazio é valorizado como o vento vital ou destruidor. As intervenções visuais mais evidentes surgem no painel de fundo, ao sabor dos desenhos abstratos e da variação de luz.

A intromissão do real na parte derradeira de La tempestad, quando uma jornalista e uma camponesa pisam o espaço cênico para relatar suas dores reais, vítimas da repressão, é um gesto abrupto e digno desses artistas. A coragem de abrir uma janela para o documento trazido pelo outro em meio às exigências da verticalização da pesquisa na qual um coletivo pode se converter numa bolha.

Em sua segunda sessão na semana de estreia, a coprodução do Festival Iberoamericano de Teatro de Bogotá ainda se aproximava do esboço. Nâo estava pronta. Evidenciava a fragilidade na combinação desses encontros com a estética do diretor polonês, com o corpo “encoberto”, com as vozes do real incorporadas. Os dados estão todos reconhecíveis na cena, resta equalizá-los em termos de dramaturgia e atuação. É no ator que está o ponto xis. A experiência a que assistimos pressupõe registro dramático em silêncios e diálogos enquanto o corpo apenas sussurra para deixar vir outros canais de expressão ora em dissintonia.


>> Trecho de La tempestad



>>O blog do grupo Teatro Varasanta



>>O site do Varasanta


>> O jornalista viajou a convite da organização do festival e do Instituto Distrital de Turismo de Bogotá.

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