Fenart – Algo de triste no porto seguro da alegria

escrito por vals em 31 de maio de 2010 – 18:52 -

O artista popular enseja um pouco daqueles versos de Vinicius de Moraes: plasma alguma coisa de triste no porto seguro da sua alegria. Na embolada ou no cordel, por exemplo, cabem dolências. No circo, a figura do palhaço costuma ser o fiel da balança. Quando não está lá, ao intérprete de rosto lavado resta não cair no maniqueísmo fácil. O ator Chico Oliveira assume esse desafio em Incelência, o espetáculo solo no qual atua sem maquiagem ou nariz-vermelho, imerso em referências da cultura e da crença populares. Margem também para o universo do picadeiro sem lona, a banca que o artista monta em praças para compartir suas histórias desde os tempos medievais da humanidade. Read more »

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Fenart – Medéia torturada

escrito por vals em 30 de maio de 2010 – 0:29 -

Panorama da apresentação de Medéia sacrificada pelo barulho, com Núcleo de Teatro da Universidade Estadual da Paraíba >> Foto: Anderson Silva

O texto a seguir foi produzido em parceria com o jornalista e pesquisador do teatro Kil Abreu, com quem divido as críticas durante a semana do Fenart em João Pessoa, encerrado na noite de sábado, 29. Optamos pela coautoria dada a excepcionalidade dos acontecimentos que cercaram a apresentação da tragédia Medéia por artistas da vizinha Campina Grande, conforme narramos nestas linhas.
Foi o espetáculo mais deprimente a que assistimos na vida: não no plano artístico, mas no descaso, na afronta, no desrespeito, na insensibilidade com que os responsáveis por essa maçaroca de eventos chamada Festival Nacional de Artes trata as artes cênicas nestes sete dias em João Pessoa. O encontro está em sua 13ª edição e ainda não aprendeu sobre convivência dos diferentes, planejamento, bom senso, sincronia de horários. Na noite de sexta-feira, foi a vez do Núcleo de Teatro da Universidade Estadual da Paraíba, com sua montagem de Medéia levada à arena aberta, e a Companhia Mário Nascimento, de Minas Gerais, com a coreografia Faladores, no teatro Paulo Pontes, padecerem com a tortura sonora. Read more »

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Fenart – O poder impiedoso do riso

escrito por vals em 29 de maio de 2010 – 23:46 -

Elenco do espetáculo A farsa do poder, com recém-criado grupo paraibano OsFodiDario, adaptação da obra de Racine Santos >> Foto: Guto Zafalan

Um bom texto, bons atores, boa direção e um ano eleitoral de prato cheio fazem de A farsa do poder uma experiência deliciosa. Uma celebração à picardia, ao domínio técnico, à consciência crítica, ao sotaque teatral do lugar que fala e à ousadia do recém-nascido grupo OsFodiDario em terras paraibanas.
Os matizes da Commedia Dell’Arte são evocados com desenvoltura, suas máscaras de meia face, seus personagens arquetípicos: a autoridade, a casadoira, o astucioso, e por aí vai. Uma ressalva é investir mais no rito de pôr e tirar as máscaras, um detalhe precioso que se insinua, mas perde a constância, o que redimensionaria mais essa passagem de mundos. Já o figurino neutro (base preta) impõe aos atores o desafio de transitar pelos tipos e por eles mesmos, sujeitos fora de cena no acompanhamento percussivo com instrumentos tocados pelos próprios ao vivo. Outra boa sacada é a iluminação: a pequena ribalta que amplia as sombras dos tipos ao fundo esculpe a própria marca ensandecida do poder. Read more »

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Fenart – O espaço da escuta na arte do teatro

escrito por vals em 29 de maio de 2010 – 23:28 -

Cena do espetáculo Malazarte, Cancão e Trupizupe, com o Grupo Quem Tem Boca é Pra Gritar, de João Pessoa >> Foto: Guto Zafalan

Todas as apresentações teatrais do Festival Nacional de Arte, o Fenart, ocorrem tradicionalmente no Espaço Cultural José Lins do Rego, no centro de João Pessoa. Existem pelo menos outras seis salas convencionais ou não na cidade, inclusive um teatro municipal, o Santa Rosa, para não falar das praças, mas os sete dias do evento multicultural do Estado, organizado pela Fundação Espaço Cultural (Funesc), circunscrevem-se a esse pólo. São 53,5 mil metros quadrados dominados pelo concreto, um vasto pavilhão com rampas, praça de eventos (leia-se de shows e concertos), teatro, cinema, museu, biblioteca, uma arena, auditórios improvisados, etc. Uma das suas principais virtudes é abrigar os estudantes e profissionais da Orquestra Sinfônica da Paraíba, a menina dos olhos da cena local. Em cinco dias de festival, porém, vimos que o teatro apanha à beça para se fazer ouvir nesse lugar. Read more »

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Fenart – Carta aberta ao palhaço Pirulito

escrito por vals em 29 de maio de 2010 – 8:13 -

O palhaço Pirulito por Ismar Pompeu, da Trupe de Teatro e Circo Pirulito >> Foto: Divulgação

Prezado Pirulito, saudações cênicas,
Foi bom ver o circo contemplado na programação do Fenart. Essas artes têm muito em comum, palco e picadeiro se emendam. E sua Trupe de Teatro e Circo Pirulito indica beber dessa tradição. Pena que o espetáculo Um, dois, três… conto outra vez não faz jus ao conceito de pesquisa que vocês anunciam no final. Pesquisa, com “P”, não daria em apresentação tão mediana e gratuita em algumas soluções, como a de cuspir água sobre mãe com criança no colo. À figura do palhaço não cabe regras, esse homem-bomba do riso, como diria Hugo Possolo, o Tililingo dos Parlapatões, Patifes & Paspalhões. Mas bom senso na relação com o público mirim é o mínimo que se espera do artista. Read more »

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Fenart – Tudo fora do lugar

escrito por vals em 28 de maio de 2010 – 12:47 -

Ator do Grupo Experimental Cena Aberta, o GECA, de João Pessoa, em cena do espetáculo Cordel em retalhos >> Foto: Guto Zafalan

Qual o sentido de escalar um espetáculo de rua com três anos de estrada para se apresentar numa sala, sequer um teatro, como atração do assim chamado Projeto Ensaio?

O anacronismo estende-se à fragilidade do espetáculo do Grupo Experimental Cena Aberta, o GECA, que faz de Cordel em retalhos uma colagem das histórias de Lourdes Ramalho voltadas á literatura popular. Read more »

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Fenart – Elogio do devaneio

escrito por vals em 28 de maio de 2010 – 12:29 -

Fernando Teixeira, fundador do Grupo de Teatro Bigorna no solo Esparrela, em que também assina dramaturgia e direção >> Foto: Guto Zafalan

Os olhos e as mãos de Fernando Teixeira crescem e voam diante do público. Ele, o ator, dramaturgo e diretor do Grupo de Teatro Bigorna, pisa forte o tablado circular de madeira. O dorso nu e veterano carrega na pele a memória pessoal e as asas dos personagens aos quais dá vida como narrador.
Esparrela provoca uma experiência de alteridade na recepção que tem a ver com o processo de criação que desbasta a técnica. Come as fronteiras entre a dança, o teatro e a arte performativa. E proporciona uma viagem genuína por meio da oralidade, da fala prima do cordel sem rima, fala que ginga em seu despojamento no limite da não ação, do não movimento, da não palavra. E, no entanto, lança mão deles para transcendê-los. Read more »

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Fenart – O labirinto existencial pesa sobre o lirismo da cena

escrito por vals em 27 de maio de 2010 – 12:22 -

Cena de Entre quatro paredes, adaptação do Grupo Graxa, de João Pessoa, para a peça que Sartre escreveu em 1945 >> Foto: Guto Zafalan

Se o inferno são os outros, estamos condenados a eles. Jean Paul-Sartre encerra essa condição humana de maneira cirúrgica na peça que escreveu em 1945. Em sua versão para Entre quatro paredes, o Grupo Graxa de Teatro tenta desbastar a aura existencial das palavras do filósofo para investir mais na interação física das figuras, que surgem mais assim do que como personagens. É um modo de trazê-las mais próximas do tempo que corre, do ator que é seu veículo em cena, do espectador em limite táctil, sensorial. Read more »

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