Jornada de uma anti-heroína

escrito por vals em 26 de abril de 2010 – 17:15 -

Atores da Companhia Harém Teatro (Pellé à direita) na peça que encerrou a V Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo >> Foto: Tainá Azeredo

Quando suas colegas, desvalidas como ela, dizem que vão à luta, sim, com a cara e a coragem, a protagonista da peça pondera que, no seu caso, só lhe sobra muita coragem, porque a cara…
Não bastasse a condição de pobre, mulher e nordestina, Raimunda carrega a pecha de feia, segundos os padrões de beleza, e leporina, de fala fanhosa. Do início ao fim, ela tem consciência de sua diferença. A autocrítica dessa personagem e a perseverança em suplantar sua condição parecem corresponder à própria história da Companhia Harém de Teatro, em atividade há quase 25 anos em Teresina, Piauí, e com a qual me encontro pela primeira vez em 18 anos de jornalismo de teatro na capital paulista, distantes 2.792 quilômetros. Read more »

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Paisagem rarefeita

escrito por vals em 25 de abril de 2010 – 18:11 -

Atores da Companhia Teatro Avante, de Miami, em cena de Aire frío, uma livre versão para a peça do cubano Virgilio Piñera >> Foto: Tainá Azeredo

Cego, óculos escuros. Falta de dinheiro, mão no bolso da calça para revirá-lo vazio. Beber um chá, mímica da xícara no pires levada à boca. Calor, mão abanando próximo ao rosto. Afinal, é preciso esmiuçar ao público que estamos na Havana dos anos 1940 e 1950, que o calor é infernal, que falta um ventilador na casa dos Romaguera e que tudo que se diz ou se vê em cena é ilustrado nos mínimos detalhes, sobretudo com as mãos, inquietas, a reger o verbo enunciado. Em quase tudo que tenta comunicar o espetáculo da Companhia Teatro Avante está contido o seu contrário, o passo atrás que rejeita a teatralidade de seu tempo. Read more »

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Inspiração profunda

escrito por vals em 24 de abril de 2010 – 17:55 -

Miguel de Zela (fundo) e Manuel Luna em Arguedas - los ríos profundos, espetáculo do grupo peruano Cuatrotablas >> Foto: Tainá Azeredo

As profundezas não são para quem está plantado na superfície dos dias. O teatro leva a lugares insólitos quando artistas e público se deixam ir. Lá onde transparece a solidez do ar. Onde as sombras caminham feito manchas. Onde três atores e um diretor se reinventam em meio a pedras, livros, velas, o vazio. Seus corpos compõem pássaros, montanhas, o panorama de um povoado silencioso visto de cima. Sobrevoar a cidadela que o Grupo Cuatrotablas dispõe em sua viagem sinérgica pelos escritos de José María Arguedas (1911-1969) é experiência transformadora de sentidos. Read more »

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Contar, mostrar, sonhar

escrito por vals em 23 de abril de 2010 – 11:38 -

Cena de Teruel y la continuidad del sueño, do grupo argentino El Bachín >> Foto: Tainá Azeredo

O teatro tem suas bandeiras à escolha de cada artista. Ao cidadão, do teatro e do mundo, conviria exercer igual liberdade.  Argumentar sobre si e o seu entorno. Consciência esta que o El Bachín Teatro finca no tule que toma a boca de cena de cima a baixo. A tela transparente se interpõe como quarta parede, uma ironia para aquilo que se quer velado: a opção ideológica, as razões que movem o sujeito ao pisar o chão ao sair da cama ou deitar a cabeça no travesseiro ao final do dia. Os criadores da Argentina riscam o giz caucasiano de sua visão de mundo e a preenche com efeitos de estranhamento. Saúda a sua estrela-guia, Bertolt Brecht, sem que esse poeta da palavra e da cena seja levado ao altar com suas estratégias mais bem-sucedidas, passíveis de revisões na curva de cerca de um século dessas práticas. Read more »

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Qual o limite do precário?

escrito por vals em 23 de abril de 2010 – 10:37 -

Cena de Hotel Komarka, com atores do Grupo Henrique Artes, Angola >> Foto: Tainá Azeredo

É a pergunta diante da absoluta precariedade com que esse espetáculo transcorre diante de nossos olhos. Precariedade no fiapo de gênese que sobra desses sete homens que alegam pagar ao mundo com a mesma moeda que receberam: o desprezo, gritado desde a primeira cena contra a fome enganada a pão e água. Precariedade na apelação demagógica do discurso da miséria como pretexto para a vida bandida. Nessa ruptura antiteatral o realismo é rei escancarado no andaime de construção civil convertido em cela cenográfica. Não falta o andar de cima para a chefia da ralé da vez. Read more »

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Transcriação cênica ilumina o rumor da língua em Leminski

escrito por vals em 14 de abril de 2010 – 12:17 -

Nadja Naira apóia-se na ação performativa em Descartes com lentes, que a Companhia Brasileira de Teatro levou a Bogotá >> Fotos: Andrea Villarraga

Foi uma grata surpresa encontrar a Companhia Brasileira de Teatro, de Curitiba, entre as atrações do Festival Alternativo em Bogotá, na semana passada. Naqueles dias, lá, li sobre a recepção no Festival de Teatro de Curitiba do novo espetáculo dirigido por Marcio Abreu, VIDA. Na mostra colombiana gravitada em torno da sede do Grupo Teatro La Candelaria, os artistas brasileiros apresentaram o experimento cênico Descartes com lentes, solo da atriz Nadja Naira e fruto da investigação sobre a obra do escritor paranaense Paulo Leminski, morto em 1989, aos 43 anos, também o motor de VIDA, montagem a que ainda não assisti. Read more »

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La Candelaria leva crise da representação ao espelho

escrito por vals em 13 de abril de 2010 – 17:24 -

O ator Cesar Badillo contracena com sua imagem projetada em A título personal, do Grupo Teatro La Candelaria >> Foto: Andrea Villarraga

“Dinossauros”. É das primeiras pechas lançadas aos grupos com mais de 30, 40 anos. O Teatro La Candelaria já cansou de entreouvir isso em muitas filas de teatro em festivais. Aos 43 anos, o conjunto colombiano lança-se à ironia em frente ao próprio espelho, A título personal, seu espetáculo de 2008. O mais recente, mas não o novo, como se diz em cena para fazer troça da qual a dramaturgia também se apropria nessa criação coletiva dirigida por Santiago García.
Aconteceram três apresentações lotadas – uma extra – no Festival Alternativo que acabou no sábado, dia 10, contraponto ao Festival Iberoamericano de Teatro (encerrado no domingo, 4) e organizado pela Corporación Colombiana de Teatro. O Alternativo foi gerado há quatro décadas no ventre do conjunto do bairro bogotano de mesmo nome, La Candelaria, na região central da cidade. Read more »

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Peter Brook semeia perguntas na forma de manifesto cênico

escrito por vals em 7 de abril de 2010 – 18:51 -

A atriz alemã Miriam Goldschmidt em Por quê, por quê?, no qual Peter Brook se indaga sobre essa arte e a vida >> Foto: Leonard Zubler

Desde que assisti a uma obra de Peter Brook, Le costume (O terno), em 2000, em Porto Alegre, alimento a percepção de que o diretor inglês despe-se cada vez mais do teatro. Um esvaziamento para radicar sua crença nessa arte, uma contradição mística, mágica ou sagrada assumida em A tragédia de Hamlet, em Tierno Bokar, em Sizwe Banzi está morto e agora em Por quê, por quê? (Warum, warum, em alemão), estreada na Suíça em abril de 2008 e apresentada em Bogotá no desfecho da década para este espectador em companhia dos trabalhos do encenador radicado em Paris, à frente do Centro Internacional de Criação Teatral, no Théâtre des Bouffes du Nord. Read more »

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Medéia japonesa investiga questão de gênero

escrito por vals em 6 de abril de 2010 – 0:13 -

A atriz Micari emerge da imensidão vermelha do tablado em sua Medéia mimetizada pela técnica do bunraku >> Foto: Takuma Uchida

Foram três Medéias no Festival Iberoamericano de Bogotà: uma coprodução da França e Burkina Faso, pelo Teatro Nanterre Amandiers, com direção de Jean-Louis Martinelli; a montagem do grupo alemão Volksbühne, por Frank Castorff; e a versão da companhia japonesa Shizuoka Performing Arts Center, dirigida por Satoshi Miyagi. Assisti às duas últimas. Tanto Castorff como Miyagi visitam o clássico grego sem medo de inscrever suas fortes assinaturas como encenadores contemporâneos críticos em relação à época e o lugar em que pisam. Na Medéia de Castorff, uma fusão de fragmentos da obra de Sêneca com um romance recente sobre Heidegger, entre outras citações, como se lê em post anterior. Na Medéia de Miyagi, o texto de Eurípides, anterior a Sêneca, é apropriado em essência para contrapor pensamentos e formas orientais e ocidentais do teatro e das respectivas sociedades. Read more »

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Companhia belga Needcompany toca o cerne da dor e da beleza

escrito por vals em 4 de abril de 2010 – 23:44 -

Artistas da Needcompany, corpos sobrepostos entre objetos e adereços como em cena de A casa dos Veados >> Foto: Maarten Vanden Abeele

Minha primeira vez com a companhia belga Needcompany foi em outubro de 2006. Éramos umas cem pessoas para um teatro onde cabiam pelo menos seis vezes mais, o do Sesc Vila Mariana, em São Paulo. O vazio de público do lado de cá não condizia com a grata surpresa diante do espetáculo, então um exemplo dos mais bem acabados sobre as feições que a dramaturgia contemporânea assumia ao contar uma boa história sem a cega obsessão à palavra. O quarto de Isabella (Isabella’s room) conjugava música, dança, performance e artes visuais sem ostentá-las e sem deixar de ser, em seu âmago, um teatro da palavra. Não perdia tempo em antagonizar verbo e imagem. Aquela criação acabou tornando-se a primeira parte de uma trilogia, Sad face/happy face, que depois ganhou pernas nas mãos, na cabeça e no coração do artista plástico, ator, dramaturgo e diretor Jan Lauwers, e cuja terceira parte é apresentada no Festival Iberoamericano que termina neste domingo em Bogotá. Naquela ocasião, sai encantado – e o termo não é piegas. Não foi diferente aqui, com a terceira peça, A casa dos veados (The deer house). Read more »

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