Das potências

escrito por vals em 1 de dezembro de 2010 – 11:47 -

Miriam Freeland interpreta Olga em Tomo suas mãos na minha, em que contracena com Roberto Bontempo no papel de Tchekhov - foto: Val Lima

No ano em que se completa um século e meio do nascimento de Anton Tchekhov ele provavelmente desconfiaria das boas intenções das efemérides. A ironia lhe foi companheira. E mesmo quando enamorado, segundo confessa no derramamento sentimental e demasiado humano assumido nas cartas que trocou com a mulher Olga Knipper nos últimos seis anos de vida. O tom intimista daquela correspondência serve à americana Carol Rocamara em Tomo suas mãos nas minhas, uma dramaturgia centrada nos diálogos escritos entre o final do século XIX e início do XX. As linhas lidas e ouvidas hoje compõem por si um drama que dá notícias do autor genial e do sistema teatral que gravitava à sua volta. Vida e arte são entretecidas em Tchekhov e Olga, como na relação deles com Constantin Stanislavski e Nemirovitch-Dantchenko, os criadores pilares do Teatro de Arte de Moscou citados com recorrência na peça interpretada por Roberto Bontempo e Miriam Freeland. Read more »

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Garapa

escrito por vals em 29 de novembro de 2010 – 10:32 -

A atriz Luciana Lyra é Senhorinha na confluência de Nelson Rodrigues e Gilberto Freyre em Memória da cana, de Os Fofos - foto: Val Lima

Para todos os sinais machistas aos olhos de quem lê Nelson Rodrigues de chofre, não faltam entrelinhas para relativizá-los. Ao cotejar Álbum de família com os estudos sociológicos de Gilberto Freyre, o Grupo Os Fofos Encenam, de São Paulo, beija a mão da figura do patriarca, o coronelismo arraigado na história do Brasil, ao mesmo tempo em que o põe a nu. Valoriza o poder de negociação da mulher por meio de Senhorinha, a esposa que serve ao marido canalha em Memória da cana. É a personagem de Luciana Lyra quem vai puxar o cordão dessa travessia por cômodos e corredores da casa grande. Os óculos escuros com os quais ela passa boa parte do espetáculo, evitando ver o que lhe sabe nas entranhas, revelam subterrâneos da natureza humana, o plano primitivo não só no tabu do incesto, mas da imoralidade nas relações de exploração de classe que ainda pautam a contemporaneidade. Read more »

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Beliscar a ternura

escrito por vals em 29 de novembro de 2010 – 10:19 -

Atores de A Outra Companhia de Teatro, de Salvador, na adaptação de Mar me quer, narrativa do moçambicano Mia Couto - foto: Val Lima

A escrita de Mia Couto prima pela organicidade com que cria espaços simbólicos e neles assenta o leitor. Em Moçambique, ele é um interlocutor recorrente do teatro. Seus contos e romances têm boa acolhida nos palcos de outros países de língua portuguesa, sejam africanos ou ibero-americanos. O Festival Recife recebe A Outra Companhia de Teatro, um dos grupos residentes do Teatro Vila Velha, de Salvador, que transpõe para a cena a narrativa breve de mesmo nome: Mar me quer. A adaptação e direção de Luiz Antônio Jr. consagram a musicalidade das palavras do autor ao duplicar as vozes dos personagens, Zeca Perpétuo e Luarmina, abrir transversais para cantigas populares e brincar com os gêneros, tempos e relatos da fábula. Read more »

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Presença líquida

escrito por vals em 29 de novembro de 2010 – 10:09 -

Camila Gama em cena de Savana glacial, do núcleo Físico de Teatro, do Rio, sob direção de Renato Carrera e texto de Jô Bilac - foto: Val Lima

Uma das portas de entrada para Savana glacial é a do escritor diante de seu processo criativo. Jô Bilac, que passou pelo Festival Recife com Rebú (Companhia Teatro Independente), deleita-se agora com a metalinguagem. Há um narrador insinuado, o intelectual enredado por personagens desbotados, inclinados mais a figuras tateando um roteiro, situações cumulativas que permitem ao espectador também palmilhar o seu caminho. Um labirinto simbolizado pela perda de memória recente de que padece a mulher central. O contexto estilhaça as noções de realidade e ficção: o ponto de vista dela inquire aqueles que a cercam, e estes tanto procuram guiá-la pelo imediato como são transformados em seres imaginários. Read more »

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Montanha-russa

escrito por vals em 24 de novembro de 2010 – 9:40 -

Moscovis e Messina em Corto seco, da Companhia Vértice de Teatro, no Festival Recife do Teatro Nacional - foto: Val Lima

Quanto mais o teatro contemporâneo foge do drama, mais se aproxima dele (de outras formas). O discurso da cena pós-dramática, quando bem urdido, não deixa o espectador voltar para casa sem ser afetado por uma história. Não linear, estilhaçada, multiplicada, mas uma boa história. Caso das micronarrativas de Corte seco, da Companhia Vértice de Teatro, do Rio de Janeiro. Em outras mãos, uma experiência como esta poderia se perder facilmente nas próprias encruzilhadas que propõe, tamanho os radicalismos envolvidos, a acumulação de metalinguagem, os desvios de toda ordem a que o público é cooptado. Sob direção de Christiane Jatahy e a pesquisa continuada que desenvolve há duas décadas, o espetáculo resulta bem fundamentado ao refutar a representação e conceber uma dramaturgia que fragmenta e expande sua territorialidade, conversa com o fluxo de consciência da literatura, o documentário do cinema e a vigilância ostensiva das câmeras de segurança. Delimitações do cotidiano, estímulos do imaginário. Read more »

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Orquestra de espasmos e espantos

escrito por vals em 23 de novembro de 2010 – 12:28 -

A partir da esquerda, Pismel, Marini, Verlings e Becker, integrantes da Companhia Teatro Independente em Rebú - foto: Fernando Filho

No país que cultua a telenovela como poucos, a Companhia Teatro Independente, do Rio, esmera-se na pesquisa empenhada do melodrama. Rebú descortina todos os elementos constitutivos daquela expressão esparramada do popular, a toada sentimental e patética, o elogio do artifício escancarado diante de um espectador tangido pela contenda do bem contra o mal. Para começo de conversa, uma pergunta tão longa como aqueles gestos dos atores afins: como expor os mecanismos tipificados da interpretação e do texto, no limite do didatismo, sem macular a fruição do espectador que está ali para se deixar enredar, emocional e poeticamente, se assim os artistas o permitirem? A encenação e a dramaturgia respondem à empreitada com inteireza. Surpreende a segurança com que o núcleo de jovens artistas experimenta e atualiza esses recursos longevos estando apenas na sua segunda montagem – não por acaso, sucessora da verve rodriguiana que nutriu Cachorro!. Read more »

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Musicômicos

escrito por vals em 23 de novembro de 2010 – 12:17 -

O quinteto da cearense Dona Zefinha, responsável pelo agito sonoro e cômico de O circo sem teto... - foto: Divulgação

Em sua experiência com teatro para criança, a banda Dona Zefinha, de Fortaleza, une a vocação performática que lhe deu reconhecimento no palco à máscara universal do palhaço. A música rouba a cena, naturalmente, e libera os atores/cantores/tocadores para conciliar instrumento e voz com o espírito mambembe do artista popular centrado na expressão física – mínima que seja, no caso. O título enuncia uma imagem tão improvável quanto atraente: O circo sem teto da lona furada dos bufões. Piada pronta ao quadrado quando a sessão do espetáculo é agendada para uma casa de 150 anos, de feições neoclássicas, caso do Teatro de Santa Isabel. E o quinteto, no entanto, supera a distância do palco frontal, encolhe a vastidão das frisas nas alturas e ganha sua plateia para uma relação mais entrosada do que a arquitetura supunha. Read more »

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Migrações da escrita, da fala e da escuta na Clarice de Goulart

escrito por vals em 18 de novembro de 2010 – 20:12 -

Beth Goulart dirige e atua no monólogo inspirado na vida e obra da escritora, e que abriu Festival Recife do Teatro Nacional - foto: Divulgação

Falar diretamente ao outro é sina na obra clariceana. Daí a frequência de monólogos no teatro que dão voz a personagens, narradores, relatos biográficos e autobiográficos sempre na esperança de construir a ponte até o espectador com o conhecido esmero com que a autora alcança o leitor no silêncio e nas turbulências da leitura. A atriz Beth Goulart conjuga a primeira pessoa em meio às tramas de “Simplesmente Eu, Clarice Lispector”. Não basta transpor a palavra da página para a cena. É preciso mimetizar a carne e o verbo – para tocar à espiritualidade sublinhada nesse espetáculo autoral em seu sentido mais amplo, quando a escrita de cena corresponde às ambições estéticas e à visão de vida da intérprete e diretora. Read more »

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