A odisséia antropológica do Teatro de Los Andes

escrito por vals em 14 de setembro de 2010 – 11:10 -

Atores do Grupo Teatro de Los Andes em A odisséia, sobre poema épico de Homero - foto: Divulgação

Precurssor da Antropologia Teatral nos anos 1970, junto ao núcleo artístico Odin Teatret, Eugenio Barba diz que uma das especificidades dessa corrente é dialogar com a tradição cênica e o seu contexto histórico-cultural. O grupo boliviano Teatro de Los Andes faz jus a ela em sua visita ao poema épico de Homero, A odisséia (La odisea, 2008), espetáculo apresentado em Santos no Mirada. A apropriação do poema épico da Grécia Antiga é radical no conteúdo. A dramaturgia e a direção assinadas por César Brie, de ascendência argentina, seguem a narrativa em sua essência e comete fortes intervenções. Põe Ítaca e a voragem de seus pretendentes na ordem do dia. Correlaciona às raízes andinas a resistência de Ulisses e do filho dele com Penélope, Telêmaco, que sai em sua busca. Estabelece analogia da jornada do herói com a condição do imigrante no mundo contemporâneo coalhado por nacionalismo xenófobo. Read more »

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Antifesta

escrito por vals em 11 de setembro de 2010 – 19:55 -

O sexteto no autocrítico Fiesta, espetáculo do Chile criado em colaboração com a diretora Trinidad González - foto: Daniel Olivares

Um saco plástico vazio vaga pelo espaço cênico na mão de um ator. O movimento lento é finalizado ao estatelar o rosto de uma atriz. Fiesta, o espetáculo representante do Chile no Mirada, é sobre o sufoco da boca para fora. Destina ao texto dramático um papel diminuto para falar do excesso com que tanto se recorre às palavras, nas interrelações presenciais e virtuais, para não dizer nada. O ocaso. A direção de Trinidad González, em criação colaborativa com os atores, apóia-se na estridência gestual, nos grunhidos vocais para gritar a urgência com que deseja chamar a atenção para a sociedade chilena e global dos dias que correm – a peça estreou em Santiago em 2009 despertando autocrítica. Read more »

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Jerusalém vai à escuridão e não abre janelas

escrito por vals em 10 de setembro de 2010 – 17:21 -

Atores do português Teatro o Bando em Jerusalém, adaptação e direção de João Brites para o romance de Gonçalo M. Tavares - foto: André Fonseca

É muito difícil atravessar os cerca de 90 minutos do espetáculo Jerusalém, que o Teatro o Bando, de Portugal, volta a apresentar hoje no Mirada. A narrativa elíptica do romance de Gonçalo M. Tavares, autor que o grupo já adaptara em outras ocasiões, fala do horror e da loucura em períodos ficcionais de guerras ou de regimes autocráticos. Parece tangenciar o 1984, de George Orwell, em que a condição humana é dilacerada. A dramaturgia e a direção de João Brites transmitem ao pé da letra as clausuras física e de consciência dos personagens sob os ditames da ciência e da razão em meio a estilhaços de sentimento amoroso. Pois o sistema de linguagem cênica e de interpretação transfere a mesma aflição ao espectador, perdido no emaranhado de códigos turvos desde que pisa o espaço cênico recriado sobre o tablado na imensidão do Teatro Coliseu, em Santos. Read more »

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Mi Muñequita, um equívoco

escrito por vals em 10 de setembro de 2010 – 1:17 -

Elenco da montagem uruguaia escrita e dirigida por Gabriel Calderón, apresentada em Montevidéu desde 2004 - foto: Divulgação

A farsa anunciada de Mi Muñequita não disfarça seu efeito bumerangue. Ao tocar o difícil, mas corajoso tema tabu do abuso de criança, o espetáculo do Uruguai derrapa na banalização da vítima, dos algozes e dos cúmplices que geralmente dividem o mesmo tempo. O texto de Gabriel Calderón, ele também diretor e, no Miranda, substituindo um dos atores, insinua equilibrar-se na linha tênue entre a irresponsabilidade afeita ao gênero e o contraponto crítico mínimo. Descamba para a primeira opção com muito cinismo e louvor.

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Os esquisitos “exquisitos” Grumildos

escrito por vals em 9 de setembro de 2010 – 18:43 -

A figura da Tia na instalação Los grumildos, criação da artista peruana Ety Fefer que já circulou pela Europa - foto: Diego Alvarado

Em criança, Ety Fefer observava seu pai criando garatujas ou desenhos nas toalhas de papel que forravam as mesas em restaurantes. Aqueles traços soltos esboçavam rostos, troncos, membros disformes, seres que o imaginário da filha judia logo batizou de Los grumildos. Mais de três décadas depois, a artista peruana olha para trás e vê como sublimou seus monstros interiores – e fez espelhar os nossos – em bonecos moldados em plasticina (matéria plástica constituída principalmente por argila), movimentados por fios de nylon acoplados a engenhocas mecânicas tão rústicas e artesanais como a fisionomia e a aura singulares desses habitantes de um mundo em miniatura, uma cenografia barroca sob penumbra, neon e luzinhas coloridas. Read more »

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Cosmogonia peruana

escrito por vals em 7 de setembro de 2010 – 13:15 -

A vitrine que aborda o homem andino em Hecho en el Perú, do Grupo Cultural Yuyachkani - foto: Diana Taylor

Aos 40 anos, a serem completados em 2011, o Grupo Cultural Yuyachkani prima por desbravar novos suportes e formas nutrindo-se de sua memória, ou seja, do próprio eixo constitutivo de sua linguagem e de sua convicção ideológica que o distingue profundamente na paisagem teatral da América do Sul. Assistir aos seus espetáculos é, a um só tempo, percorrer a biografia do núcleo e do país. Os seis nichos da instalação Hecho en Perú – vitrinas para un museo de la memória alinham a certidão de nascimento aos sulcos da palma das mãos nas quais se lê os calos do passado e se espreita o futuro. Read more »

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Colhões e o coração

escrito por vals em 4 de setembro de 2010 – 17:28 -

O ator Roberto Álamo, carregado, protagoniza Urtaín, espetáculo da Compañía de Teatro Animalario, fundada em Madri em 1996 - foto: Divulgação

A Compañía de Teatro Animalario traz para o Mirada, em última sessão hoje, um espetáculo que toca o coração e o colhão de um país, sua Espanha natal. Urtaín centra na vida do boxeador-título ovacionado e nocauteado pelo mesmo sistema que se nutriu de sua fama enquanto ela durou, os anos 1960 e 1970 sob ditadura franquista. O resultado é acachapante, um adjetivo suspeitoso, mas pertinente ao conjunto da obra: a dramaturgia densa de Juan Cavestany, cujo embrião foi um roteiro cinematográfico do próprio, a encenação inventiva de Andrés Lima e as atuações precisas, a começar por Roberto Álamo, o dínamo no centro do ringue, um cenário realista para tantos golpes verbais, físicos, ideológicos, hipócritas, bregas, passionais, humorados e doloridos. Uma autocrítica impiedosa do país da corrida de touros e do apelo às vezes artificioso do flamenco.

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Colhões e a voz

escrito por vals em 4 de setembro de 2010 – 15:19 -

Javier Medina (dir.) em De monstruos y prodigios: la historia de los castrati, montagem do mexicano Teatro de Ciertos Habitantes - foto: Divulgação

Não é pouca a ambição dos mexicanos do grupo Teatro de Ciertos Habitantes em De monstruos y prodígios: la historia de los castrati. O espetáculo de abertura do Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos toma o fenômeno da castração de meninos imberbes na Europa do século XVI, sob o álibi da excelência no canto soprano, e costura-o por cerca de 250 anos num painel histórico, social, político e cultural que antepõe o erudito e o popular, barbárie e civilização, ciência e religião, razão e emoção, França dominadora e Itália insurgente. O dualismo é pano de fundo na direção de Claudio Valdés Kuri, que valoriza o espírito e o materialismo barrocos traduzindo-os na acumulação de gêneros e linguagens (o melodrama, a farsa, o grotesco, a ópera, o teatro de animação) e na desmesura da arena que forra o palco de areia e, em duas passagens, é ocupada pelos galopes de um cavalo branco. Read more »

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