Menu

Reportagem

A tirania amorosa em Fassbinder

20.11.2014  |  por Michele Rolim

Foto de capa: Diane Sbardelotto

Vida e obra de Rainer Werner Fassbinder (1945-1982) se unem no palco na peça Fassbinder – o pior tirano é o amor, que estreia amanhã (13/11) na Sala Álvaro Moreyra, em Porto Alegre. Fassbinder, conhecido como um dos mais importantes representantes do Novo Cinema Alemão, tem peças e filmes, pode-se dizer, autobiográficos. “Para ele, era quase como se houvesse um borrão no que é arte e no que é vida, uma bebia muito da outra”, comenta o diretor e professor do Instituto de Artes da Ufrgs Clóvis Massa.

A ideia da montagem surgiu quando Massa tomou conhecimento de um texto inacabado do autor, Gotas d’água sobre pedras escaldantes. Ele se tornou mais conhecido quando o diretor de cinema François Ozon adaptou para o cinema, em 1999. Escrita aos 19 anos pelo diretor alemão e deixada de lado por ele, a peça mostra as relações amorosas como jogo de poder entre quatro personagens.

Esse é o texto, segundo o dramaturgo Diones Camargo, que costura os três atos da montagem, que também se vale das biografias O amor é mais frio do que a morte, de Robert Katz, e A vida sufocante de Fassbinder, de Harry Baer, além de diversas entrevistas compiladas na publicação A anarquia da fantasia. Também estão em evidência cenas e diálogos dos filmes As lágrimas amargas de Petra Von Kant e Precauções diante de uma prostituta santa. “Pode-se dizer que a montagem é sobre alguém que vai perdendo as ilusões românticas e se vale disso como arma de controle”, esclarece Camargo.

A peça mostra três momentos de Fassbinder interpretado por diferentes atores. Desde o adolescente ambicioso (interpretado por Luciano Pieper) que entra no grupo Teatro de Ação e depois cria o coletivo, o qual dirige, Anti-Teatro; ao jovem temperamental que começa a fazer cinema e recebe o reconhecimento nacional (vivido por Frederico Vittola) até culminar no adulto desencantado e com fama internacional (interpretado por Marcos Contreras).

Ainda que Fassbinder tenha vivido somente 37 anos, realizou 43 filmes ao longo de um período de 13 anos e participou como autor, adaptador ou diretor de pelo menos 10 montagens teatrais. Sonhava em ganhar os três mais importantes festivais de cinema do mundo – Berlim, Cannes e Veneza -, além do Oscar de melhor diretor, mas morreu antes. “Sempre foi muito ambicioso e, conforme este sentimento crescia, Fassbinder se tornou compulsivo pela fama a ponto de ligar para os amigos para saber se seria indicado ao Oscar. Aos poucos, tornou-se um ditador dentro do set e também nas relações”, conta Camargo, lembrando que, em apenas um ano, o cineasta lançou nove longas – período em que dormia somente quatro horas por dia.

Cena de ‘Fassbinder – o pior tirano é o amor’

Ainda estão na peça os amores de Fassbinder, como sua grande paixão Günther Kaufmann (interpretado por Rodrigo Shalako, que também assina a cenografia) e Armin (Frederico Vittola). Apesar de homossexual, ele teve relacionamentos com diversas mulheres; entre os personagens que marcaram suas relações, estão também as figuras de Irm (Martina Fröhlich), Juliane (Renata de Lélis) e Ingrid (Viviana Schames). “Era um tempo de liberdade sexual, havia muita ménage à trois, sexo grupal. As pessoas não eram possessivas, mas na hora do vamos ver se sentiam traídas”, conta Massa sobre a época em que vivia o cineasta na Alemanha pós-guerra.

O diretor explica que, desde o início, desejava um espetáculo em camadas, no qual coabitassem narrativas da biografia, da peça e de filmes. Por exemplo, há falas de As lágrimas amargas de Petra Von Kant em um diálogo entre Fassbinder e Günther. “A ideia nunca foi imitar o que ele fez, utilizamos o conceito de transcriação: não estamos transpondo apenas, por isso permitimos que situações sejam deslocadas do tempo, para o melhor desenvolvimento de uma narrativa, dentro da nossa visão”, conclui. A direção musical e a trilha sonora são assinadas por Cláudio Levitan e Carina Levitan.

Serviço:
Onde: Sala Álvaro Moreyra (Avenida Érico Veríssimo, 307, Menino Deus, Porto Alegre, tel. 51 3289-8066).
Quando: Sexta-feira a domingo, às 20h. Até 30/11.
Quanto: R$ 20,00.

http://www.youtube.com/watch?v=93rJFaTj6EI

Ficha técnica
Direção: Clovis Massa
Dramaturgia: Diones Camargo
Atuação: Frederico Vittola, Luciano Pieper, Martina Fröhlich, Marcos Contreras, Renata De Lélis, Rodrigo Shalako e Viviana Schames
Trilha sonora: Claudio Levitan e Carina Levitan
Apoio: Edital do Concurso Desenvolvimento da Economia da Cultura – Pró-cultura RS (Fundo de Apoio à Cultura).

Jornalista e mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Desenvolve pesquisa em torno do tema curadoria em festivais de artes cênicas. É a repórter responsável pelo setor de artes cênicas do Jornal do Comércio, em Porto Alegre (desde 2010). Participou dos júris do Prêmio Açorianos de Teatro, do Troféu Tibicuera de Teatro Infantil (ambos da Prefeitura de Porto Alegre) e do Prêmio Braskem em Cena no festival internacional Porto Alegre Em Cena. É crítica e coeditora do site nacional Agora Crítica Teatral e membro da Associação Internacional de Críticos de Teatro, AICT-IACT (www.aict-iatc.org), filiada à Unesco). Por seu trabalho profissional e sua atuação jornalística, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Dança (2015), categoria mídia, da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Porto Alegre (2014), e Prêmio Ari de Jornalismo, categoria reportagem cultural, da Associação Rio Grandense de Imprensa (2010, 2011, 2014).

Relacionados

‘De mãos dadas com minha irmã’, direção de Aysha Nascimento e direção artística e dramaturgia de Lucelia Sergio [em cena, Lucelia Sergio ao lado de dançarinas Jazu Weda e Brenda Regio]