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Crítica

A guerra das palavras

7.11.2015  |  por Beth Néspoli

Foto de capa: Jennifer Glass

A ação da peça Fidel-Fidel! Conflicto en la prensa, com a qual o grupo argentino El Bachín Teatro comemora seus 15 anos de existência, transcorre dentro da redação do fictício jornal A República, no dia 31 de dezembro do ano de 1958. Trata-se de uma escolha estratégica para tratar da estreita conexão entre o poder das armas e o das palavras: enquanto em Cuba a guerrilha avançava sobre o território – no dia 1º de janeiro de 1959 o comandante Fidel Castro entrará finalmente em Havana e o ditador Fulgêncio Batista, que assumira o poder em 1950, será deposto –, é possível imaginar que nas redações de jornais do mundo inteiro era travada uma luta paralela e simultânea envolvendo o relato, análise e debate sobre tal movimento. É neste campo de tensão, naquela noite em especial, que o grupo cria dramaturgia e encenação.

A cenografia de uma bancada de trabalho é composta por algumas mesas, pesados aparelhos telefônicos pretos e máquinas de escrever que, na abertura do espetáculo, ganham batidas ritmadas anunciando a opção do grupo pelo humor lúdico na sua abordagem do tema. Nos objetos de cena e nos figurinos, todos em tons de cinza, até mesmo a roupa de um Papai Noel, a ausência de cores contribui para criar uma visualidade de fotografia em preto e branco, já meio desbotada, procedimento que não só serve para marcar o tempo histórico, como também acentua o contraste com o vermelho brilhante de uma lata de Coca-Cola que surgirá em cena mais adiante

Os personagens anunciam serem homens e mulheres convocados a brindar o leitor com notícias; as certas, a menos certas e as outras, as que ali mesmo se fabricam.

Brincar livremente comas temporalidades é outra escolha do grupo, o que produz alguns bons efeitos cômicos. Assim, mesmo que a ação se passe em 1958, quando um jornalista levanta uma antena para captar o sinal da “Rádio Rebelde” em busca de notícias da Sierra Maestra ouvirá sons de diferentes épocas, entre eles, a voz do ex-presidente da Venezuela Hugo Chaves dizendo “Vayanse al carajo. Yanquis de mierda”.

Na abertura do espetáculo, feita na forma coral e em uma espécie de jogral irônico, os personagens anunciam serem “homens e mulheres convocados a brindar o leitor com notícias; as certas, a menos certas e as outras, as que ali mesmo se fabricam”. O brasileiro Oswaldo Mendes, jornalista de larga experiência, também dramaturgo e ator, costuma citar a frase ouvida do patrão Samuel Weiner, diretor do jornal Última Hora: “A pena é livre, mas o papel tem dono”.

Na redação de A República os jornalistas parecem querer colocar fim à distorção dos fatos em uma mobilização para “parar de mentir”. E o espetáculo sugere que talvez o façam pelas armas. “Señoras y señores, en 40 minutos vuela todo” – é a primeira fala da peça dirigida diretamente ao público, iniciando uma contagem regressiva informada. Armas e explosivos irão surgir concretamente ou na conversa ao longo da encenação.

Argentinos do El Bachín em 'Fidel-Fidel'Jennifer Glass

Os argentinos do El Bachín Teatro em ‘Fidel-Fidel’

“Desde 26 de julho de 1955 só escrevo ‘notas de color’” – reclama o personagem Emilio, expressão que na legenda projetada na exibição do dia 5 de novembro na X Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo podia ser lida como “notas de cor”, mas que talvez fosse mais bem traduzida por “escrever nas entrelinhas” (na História, o dia 26 de julho de 1953 marca a primeira tentativa de derrubada de Fulgêncio Batista, quando Fidel e mais uma centena de homens invade o Quartel de Moncada. Preso, Fidel sai da cadeia dois anos depois e, exilado no México, organiza com outros companheiros o chamado Movimento 26 de Julho).

Sabe-se que a alteração da ordem há muito estabelecida é sempre fruto de longo processo ainda que haja um momento em que a ruptura se torna visível e incontestável – como ocorrerá no dia posterior ao vivido pelos personagens da peça. Ora um movimento fora da ordem capaz de alterar a ordem, o ato verdadeiramente revolucionário, tem como principal efeito abrir um novo campo de possibilidades na cultura.

A dramaturgia de Fidel-Fidel! parece estar construída fundamentalmente sobre a memória de ondas de desestabilizações provocadas pela revolução cubana na sociedade argentina e, mais especificamente, no jornalismo portenho. Trata-se de uma tessitura intrincada, uma costura de muitas referências, a grande maioria por demais localizada, configuração que causa um evidente problema de recepção ao espetáculo fora do território de origem (algo que o próprio ator reconheceu em cena ao comentar, em aparte, que determinada piada não podia ser entendida no Brasil). Decodificar as numerosas remissões a figuras e fatos históricos é exercício que se pode fazer com a leitura do texto, mas teatro não é (só) literatura, o espectador não pode fazer pausas durante a fruição. Sendo arte presencial e territorial, nem todas as montagens resistem ao trânsito entre países, e Fidel-Fidel! parece estar entre as que perdem potência nesse deslocamento.

Evidentemente nem tudo se torna opaco. Permanece significativa, por exemplo, a fricção entre as ideias de um recém-chegado astrólogo tolo e conservador e o grupo de jornalistas experientes que aguarda ansiosamente notícias da guerrilha. O atrito entre esse peixe fora d’água e o resto da equipe rende alguns dos melhores momentos, em especial quando a dramaturgia explora o contraponto entre a ignorância dos personagens imersos em seu tempo histórico, e o que sabem os espectadores.

Cena da peça que expõe outras formas de revoluçãoJennifer Glass

Cena da peça que aborda disputa no campo simbólico das ideias

Bom exemplo desse recurso é a cena em que o astrólogo, desprezando o valor da guerrilha cubana como notícia, prevê na sua bola de cristal – sim, ele possui tal objeto que se ilumina em plena redação de jornal – que a guerrilha cubana vai fracassar, com argumentos do tipo “quem chamado de Fidel poderia fazer algo medianamente relevante para a história da humanidade? Ninguém! E numa pequena ilha? Ninguém!”. Ao colocar em cena um personagem, mais precisamente um tipo, fazendo tal afirmação o grupo pode levar o espectador a interrogar-se sobre os valores com os quais julga o seu tempo histórico e os possíveis equívocos desses juízos. Alcançar tal tento é um dos objetivos da arte.

Mais adiante, esse personagem, não por acaso o mesmo que traz para a cena a Coca-Cola com design atual, comenta sobre o seu poder de tornar infeliz um ser que não possui determinado item de vestimenta, necessidade imposta por meio dos artigos sobre moda que ele, astrólogo, escreve. Impossível não pensar que na guerra da informação, tipos como ele vêm ganhando as últimas batalhas.

Exagerar é procedimento da linguagem farsesca. A caricatura revela ou desvela traços ao acentuar aquilo que fica despercebido ao olhar habituado. Porém, sem o conhecimento compartilhado da forma original a distorção não produz sentido. Fidel-Fidel! insere na dramaturgia alguns procedimentos líricos e apartes com claro objetivo de distanciamento. Mas o que predomina é a linguagem saturada da farsa, o que, talvez, acarrete problemas até mesmo para um público que possa identificar de modo imediato todas as citações, porque o excesso quase sempre incorre no risco da diluição.

A favor da escolha do grupo é preciso dizer que poucas temáticas são tão relevantes na era digital quanto a disputa no campo simbólico das ideias. Curiosamente, o próprio Fidel Castro, numa entrevista dada em outubro de 2010 ao repórter canadense Michel Chossudovsky, publicada no site CubaDebate, Contra El terrorismo en la Prensa, observou que, atualmente, só uma batalha de ideias poderia mudar o curso da história mundial. Ele usou como exemplo a repercussão mundial do resgate dos 33 trabalhadores soterrados em uma mina de carvão no Chile para argumentar: “Foi uma grande operação humanitária, mas a verdade é que a humanidade está ameaçada e isso deveria aparecer na primeira página de todos os jornais do mundo”.

Ao optar por uma linguagem saturada, talvez o grupo tenha deixado escorrer entre as muitas palavras a força do mote inicial para provocar interrogações sobre as estratégias de luta pelas ideias no tempo presente. Mesmo para o público portenho. Porém, as dificuldades impostas pelo trânsito cultural não permitem afirmar com convicção se tal diluição é mesmo um problema intrínseco ao espetáculo, se é de estética (recepção) ou de poética (criação). Provavelmente uma mescla deles. A leitura de alguns textos críticos (bem argumentados) sobre o trabalho do El Bachín aponta para a existência de um coletivo de reconhecida trajetória fundada em pesquisa vertical e bem-sucedida na vertente do teatro épico-brechtiano. É torcer para que outras peças do repertório venham até nós num futuro próximo.

.:. Escrito no âmbito da 10ª Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em ação da DocumentaCena – Plataforma de Crítica.

Ficha técnica:
Texto e direção: Manuel Santos Iñurrieta
Com: Manuel Santos Iñurrieta, Carolina Guevara, Jerónimo García, Julieta Grinspan, Marcos Peruyero e Alfredo Aguirre
Música original: Julieta Grinspan e Pablo Grinspan
Arranjos e interpretação: Pablo Grinspan
Cenografia: Marcos Peruyero – El Bachín Teatro
Figurinos: Agustina Filipini
Perucas: Alejandra e María Alonzo
Iluminação: El Bachín Teatro
Som e vídeo: Jerónimo García
Assistência técnica: Marina García e Diego Scandroli
Fotografia: Nicolás F. Blanco
Imprensa: Débora Lachter

Jornalista, crítica e doutora em artes cênicas pela USP. Edita o site Teatrojornal - Leituras de Cena. Tem artigos publicados nas revistas Cult, Sala Preta e no livro O ato do espectador (Hucitec, 2017). Durante 15 anos, de 1995 a 2010, atuou como repórter e crítica no jornal O Estado de S.Paulo. Entre 2003 e 2008, foi comentarista de teatro na Rádio Eldorado. Realizou a cobertura de mostras nacionais e internacionais, como a Quadrienal de Praga: Espaço e Design Cênico (2007) e o Festival Internacional A. P. Tchéchov (Moscou, 2005). Foi jurada dos prêmios Governador do Estado de São Paulo, Shell, Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e Prêmio Itaú Cultural 30 anos.

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