Menu

Assine nossa newsletter

Biocritica - Uma questão de conta...

BiocríticaTribuna do Cretino conta...

Diálogo Cretino 

29.1.2021  |  por Edson Fernando

Foto de capa: Arquivo pessoal

Prólogo

Diálogo autoficcional livremente baseado na trajetória do Tribuna do Cretino, projeto de crítica teatral desenvolvido na cidade de Belém do Pará, criado numa plataforma digital em 2013 como iniciativa pessoal do criador e que se transformou num projeto de extensão universitária da Universidade Federal do Pará (UFPA). Oliveira e Cretino são personagens autoficcionais que retratam uma participante ativa do projeto e o seu criador/coordenador, respectivamente. Embora a linguagem se desenvolva na coloquialidade própria da unidade de espaço definida – isto é, um boteco na periferia da cidade – e preserve, com isso, o ambiente informal e descontraído, alguns termos virão em itálico e grafados em substitutivos moderados – é o caso dos palavrões e expressões populares, por exemplo.

(Jurunas, bairro periférico e um dos mais antigos de Belém do Pará, dezembro de 2019. Na placa de madeira, pregada na parede, se lê “Copo Sujo”, nome da baiuca localizada bem no canto da passagem Santo Antônio com Honório José dos Santos. Faz o estilo vendinha de bairro, local que comercializa da garrafa de buchudinha à Pipoca Pantera. Não há espaço para mesas no interior da baiuca e, por isso, Oliveira e Cretino ocupam uma pequena mesa de madeira na calçada de onde conseguem curtir os merengues e guitarradas que se alternam na música ambiente. O garçom, que também é o dono do estabelecimento, acabou de servir a primeira cerveja e retorna pra trás do balcão com cara de poucos amigos. Oliveira e Cretino erguem os copos e fazem o primeiro brinde).

OLIVEIRA: (Entorna o copo de cerveja inteirinho e o bate na mesa) Ahhh, deixa de papo furado. Não acredito. Isso é potoca tua…

CRETINO: Potoca!? (Dá uma golada e também bate o copo na mesa) Vou te mostrar a potoca aqui… (Pega o celular e procura a imagem na galeria de fotos) Aqui oh… Agora me diz se isso não é de uma cretinice atroz. (Mostrando a primeira imagem)

Reprodução Reportagem do Diário do Pará acerca da montagem de ‘O circo em família’, da Cia. de Teatro Tenetehara, de Belém, em 5/5/2002, na qual Edson Fernando atuava

OLIVEIRA: Mano, mas que fela da putice… que diabo de foto é essa que eles colocaram?

CRETINO: Sei lá! Eles pediram pra enviarmos três fotos do espetáculo. Nós enviamos por e-mail e ficamos na expectativa da publicação da matéria. (Mostrando novamente no celular) Olha aqui uma das fotos que enviamos:

Lourenço Bechara Cena de ‘O circo em família’ no anfiteatro da praça da República, em 2002

OLIVEIRA: Massa esse registro.

CRETINO: Compramos o jornal no domingo, um pouco antes das apresentações que fazíamos na praça Batista Campos e praça da República; e quando abrimos o jornal, demos de cara com essa presepada. Acho que pegaram a primeira foto que acharam no Google sobre circo e enfiaram na capa da matéria.

OLIVEIRA: Égua, mas isso é de uma preguiça… Um trabalho porco, duma leseira inacreditável… Se tu não tivesses mostrado a foto eu ainda taria duvidando…

CRETINO: Talvez as fotos que enviamos não estivessem com boa resolução… Sei lá… Mas esses Zé Ruela podiam ter entrado em contato, explicado a situação… Sei lá… Mas não ter feito essa lambança. Repara no detalhe da legenda da foto. (Ampliando a imagem no celular)

Reprodução Detalhe da legenda que diz: “Cena do espetáculo ‘O circo em família’”, no Diário do Pará de 5/5/2002

OLIVEIRA: Égua, é mesmo. Tão vendendo gato por lebre.

CRETINO: E olha bem o nome do circo ao fundo: “Circo Vostok”.

OLIVEIRA: Ébe!!! Não foi esse circo que teve a tragédia do garoto[1] que foi atacado e devorado pelos leões?

CRETINO: Esse mesmo. Acho que por conta dessa tragédia, as fotos desse circo foram as primeiras que apareceram na hora de pesquisar alguma imagem pra colocar na matéria sobre o nosso espetáculo.  

OLIVEIRA: Faz sentido. (Faz um sinal e chama o “garçom”) “Seu menino”, traz mais uma estupidamente gelada, porque depois dessa eu preciso esfriar a cabeça.

CRETINO: E tem mais: na página seguinte eles continuam a matéria e… (Passando pra foto seguinte no celular) Bingo… Olha a gente em outro registro abduzido de Vostok. (Mostrando outra imagem no celular)

Reprodução Página seguinte de reportagem na mesma edição do Diário do Pará com outra foto do Circo Vostok, em vez de imagem da obra da Cia. de Teatro Tenetehara

OLIVEIRA: Não dá nem pra defender esses filhos duma égua.

CRETINO: Pensa que acabou? O conteúdo da matéria é quase um “cópia e cola” do release que nós enviamos pra eles. Ou seja: nem se deram ao trabalho de escrever algo sobre o trabalho. E isso no Diário do Pará[2], jornal que se orgulhava de ser, na época, o de maior tiragem impressa[3] do Norte do Brasil.

(O “garçom” traz a segunda cerveja e retorna pra trás do balcão com a mesma cara amarrada)

OLIVEIRA: Resumo da ópera: tu ficaste puto e criaste o Tribuna do Cretino (Enche o copo de ambos e ergue o seu pra um novo brinde).

CRETINO: Sem dúvida foi uma das motivações (Brindando). Mas observa que essa matéria é de 2002 e o Tribuna só é criado em julho de 2013. Durante esse período de mais de dez anos antes do Cretino surgir, só fui colecionando casos semelhantes, principalmente de publicação de releases com datas e horários errados.

OLIVEIRA: Os felas da puta, não conseguem nem copiar direito as informações. Cacete! Por isso que eu bebo!

CRETINO: Nesse meio tempo, fui amadurecendo a ideia de criar um espaço pra pensar criticamente a cena produzida em Belém.

OLIVEIRA: Lembro que tu sempre brincavas dizendo que era um “ator e diretor teatral ainda não reconhecido pela crítica especializada” (Risos).

CRETINO: Era um sarcasmo dirigido principalmente aos poucos cadernos jornalísticos destinados à produção artística da cidade que se limitam à mera divulgação de informações e serviços. Alguns jornalistas mais cuidadosos, até hoje, se limitam a uma “entrevista” por telefone, onde procuram, desesperadamente, entender alguns conceitos-chave para o entendimento do espetáculo.

OLIVEIRA: Eles adoram fazer isso. Dizem que nunca têm tempo pra aparecer no teatro pra conversar com a gente.

CRETINO: E eu sempre achei dar entrevista por telefone. Porque eu penso o seguinte: não é o meu trabalho que deve se ajustar às demandas do jornal, é o jornal que tem que correr atrás da produção cultural da cidade, entender os processos de criação e circulação dos bens culturais. E pra isso tem que ter trabalho de campo. Sem isso, sobra apenas a divulgação.

OLIVEIRA: E eles acham que fazem um grande favor divulgado o nosso trabalho. Coitados. Hoje, com todas essas plataformas digitais, divulgação é a coisa mais fácil de circular.

CRETINO: A questão é: queremos um espaço pra divulgar ou pra pensar a cena local?

OLIVEIRA: Mas a Escola de Teatro da UFPA já não cumpria esse papel desde sempre, ou seja, desde que foi criada em 1962?

CRETINO: Acho que a ETDUFPA tem um papel decisivo na formação de artistas de teatro da cidade e do estado. Mas nunca desenvolveu uma ação específica voltada para a reflexão crítica de suas montagens teatrais ou das montagens teatrais dos grupos da cidade.

OLIVEIRA: Trocando em miúdos: a Escola forma atores e atrizes, mas não forma críticos teatrais.

CRETINO: Exatamente.

OLIVEIRA: Ora, mas então por que não criaste um curso de graduação… Sei lá… Um curso técnico ou um bacharelado em crítica teatral? Por que optou por um projeto de extensão?

CRETINO: O barato da extensão é exatamente conversar com a cidade para além dos muros da universidade. Eu sempre quis pensar a cena local dialogando diretamente com o que é produzido aqui na cidade, pelos grupos daqui da cidade, com os nossos problemas locais, com as políticas culturais elitistas que enfrentamos e com as soluções que construímos. Isso pra mim é fazer extensão: é criar diálogo direto com os fazedores de teatro, discutir estética e poética teatral a partir do palco, da cena, do experimento cênico e perceber, nas suas entranhas, as questões filosóficas, políticas e sociológicas.

OLIVEIRA: K-raleo. Falou e disse. Eu sinto falta mesmo disso. Na graduação em teatro o diálogo se passa em outro nível, não sei explicar por quê.

CRETINO: Um curso regular de graduação está atrelado a uma grade curricular e a todos os procedimentos acadêmicos de uma instituição universitária. Isso implica ter uma ementa, componentes curriculares, bibliografias, objetivos e metas muito bem demarcados e definidos…

OLIVEIRA: sacando agora. E ainda tem o papo de frequência e avaliação de conceitos…

CRETINO: E não esquece que a graduação em teatro da UFPA é uma licenciatura. O perfil do curso é voltado à formação de um docente.

OLIVEIRA: Mas achas que não cabe uma disciplina de crítica teatral na licenciatura em teatro?

CRETINO: Caber, até cabe. A questão pra mim são essas amarras institucionais e acadêmicas que me impediriam ou dificultariam esse diálogo direto com o pensar a cena local. Ou seja: eu quero sentar na plateia, conferir o trabalho dos grupos locais, voltar pra casa e escrever a partir da experiência que tive na montagem. Essa dinâmica sempre esteve presente na minha cabeça desde o começo e é ela que sempre coordenou as ações do projeto desde 2013, quando criei o blog do Cretino na plataforma do Blogspot.

OLIVEIRA: Égua, mas pera lá. Fiquei pensando numa coisa agora: o Tribuna do Cretino é um projeto de extensão, mas que oferece cursos, oficinas e minicursos sobre crítica teatral. Isso não é uma contradição com o que tu acabaste de dizer sobre as amarras institucionais?

CRETINO: Pelo contrário, cabeçuda. Vinculadas a um projeto de extensão, essas ações formativas devem se estabelecer de um modo diferente; afinal, a própria política de extensão da UFPA se coloca a missão de articular ensino, pesquisa acadêmica e sociedade. Logo, as oficinas, cursos e minicursos que o Tribuna oferta à comunidade estão sempre exercitando procedimentos metodológicos que articulam o conteúdo dos estudos da crítica teatral com a produção teatral da cidade.

OLIVEIRA: Saquei. Isso que chamas de “pensar a cena local”, ?

CRETINO: Exato.

OLIVEIRA: Mas tu não achas que o nome deveria ser, então, Tribuna Anti-Cretino ou Tribuna Contra-Cretino?
 
CRETINO: Faz sentido. Mas o meu lado socrático me levou a assumir minha própria cretinice e estampá-la no título do projeto. Então, se cheguei à conclusão de que ‘só sei que sou cretino’, luto pra superar esse estado de limitação cognitiva procurando exercitar meus miolos, raciocinar, refletir, pensar sobre o que acontece na cena local… E busco ajuda nos aportes teóricos e conceituais dos estudiosos de teatro. Quem sabe assim eu consiga ultrapassar a cretinice fundamental estabelecida
 
CRETINO: Assim que eu gosto!

OLIVEIRA: Massa!!! Daqui a algum tempo vamos ter vários críticos teatrais formados pelo Tribuna.

CRETINO: Claro que não, cabeçuda! Nunca tive a intenção de formar críticos teatrais. As ações do projeto não têm essa pretensão. Formar um crítico teatral demanda tempo, aprofundamento de conteúdo, sistematização de currículo, disponibilidade de professores…

OLIVEIRA: Então, cagou tudo de novo na minha cabeça. Um projeto que oferta ação formativa que não forma ninguém, isso sim é coisa de “cretino” (Risos).

CRETINO: Assim que eu gosto!

(Brindam e caem na gargalhada; chamam o “garçom” pedindo mais uma cerveja, mas ele custa um pouco a ouvir, pois está entretido com a TV sintonizada na novela)

OLIVEIRA: Tem uma coisa no Cretino que eu acho bacana: não é necessário ter participado de nenhuma ação formativa oferecida pelo projeto pra publicar uma crítica sobre alguma montagem teatral; basta o indivíduo escrever, enviar e pronto, tá publicado. Mas, então, por que ofereces essas ações? É pra justificar carga horária pra universidade?

CRETINO: Também (Risos). As instituições têm dificuldade de entender a natureza de qualquer ação de caráter um pouco anárquico ou livre dos formatos convencionais. Mas, sinceramente, NÃO, não é por isso não!

OLIVEIRA: Então, qual é o papo?

CRETINO: Como te falei antes, o lance dos jornais serem meros divulgadores da produção teatral da cidade me incomodava muito. Mas ali por meados de 2008 ou 2009 – não lembro exatamente –, no auge do Orkut, aparece um perfil anônimo intitulado “Oráculo – o olho que tudo vê”, que tecia comentários críticos e sarcásticos sobre as montagens teatrais da cidade.

OLIVEIRA: Rapá, eu lembro disso. Quer dizer que eras tu o filho duma égua do Oráculo?

CRETINO: Quem dera. Eu até curtia o estilo e me divertia com as coisas que o Oráculo escrevia, mas percebi, logo de cara, que o tom sarcástico, irônico e satírico adotado nos textos colocava a crítica numa linha tênue entre o pensamento que problematiza as questões para refletir intensamente sobre elas e o mero comentário descompromissado de qualquer contextualização com a conjuntura local…

OLIVEIRA: O famoso detonar por detonar. Lembro que muita gente odiava esse Oráculo porque ele vivia apontando os defeitos dos espetáculos… A galera era doida pra descobrir quem era esse desgraçado…

CRETINO: Embora eu curtisse o sarcasmo e o tom ácido dos textos, o que realmente aprendi com o Oráculo é que estavam surgindo plataformas digitais que permitiam discutir e pensar o nosso lugar.

OLIVEIRA: Ébe mano, tu descobriste isso um pouco atrasado, hein! Os blogs na internet se proliferaram desde o início dos anos 2000.

CRETINO: É verdade. Fui um analfabeto digital até 2005, ano que consegui comprar meu primeiro computador.

OLIVEIRA: E lembro de te conhecer usando ainda aqueles telefones celulares que só tinham o jogo da cobrinha.

(Os dois caem na gargalhada. O “garçom” finalmente chega e deposita a terceira cerveja sobre a mesa)

CRETINO: Então, em julho de 2013, eu crio a primeira plataforma do Tribuna do Cretino[4]. E usei o Blogspot que me pareceu a mais simples de usar.

(Os dois erguem os copos)

OLIVEIRA: Ao Cretino!

CRETINO: Ao Cretino!

(Brindam)

OLIVEIRA: E como foi a receptividade?

CRETINO: Um FRA – CAS – SO!

(Oliveira quase cospe a cerveja com a surpresa da notícia e cai na gargalhada)

OLIVEIRA: (Se recuperando do susto) Como assim?

CRETINO: Eu acreditei, ingenuamente, que bastava criar um blog destinado exclusivamente à produção de críticas, que imediatamente todo mundo ia colaborar, escrevendo suas próprias críticas teatrais. Conclusão: naquele primeiro ano, ninguém enviou P.N. pra publicar, nenhuma linha sequer…

OLIVEIRA: E o blog passou em branco?

CRETINO: Publiquei seis críticas, todas de minha autoria – cinco em teatro e uma em dança – fruto de meu esforço solitário, motivado pelo desejo de combater uma prática artística cretina.

OLIVEIRA: Eita! Parece o Oráculo falando (Risos).

CRETINO: Confesso que fiquei decepcionado e puto da vida e comecei a me perguntar o que tinha de errado: criei o espaço, estabeleci regras mínimas pra envio de textos, comecei a publicar minhas próprias críticas, mas ninguém comentava e nem enviava P.N.  pra publicar.  

OLIVEIRA: O que queres dizer com “regras mínimas”?

CRETINO: Escrever pelo menos uma lauda, assinar o texto, se responsabilizar por seu conteúdo e colocar a ficha técnica da montagem teatral. Égua, isso pra mim é o mínimo…

OLIVEIRA: Mano, ninguém curte fazer textão.

CRETINO: K-raleo, mas uma lauda? Cacete, em uma lauda mal dá pra desenvolver as ideias introdutórias.

OLIVEIRA: Leseira da tua cabeça. Nessas plataformas digitais, tudo é muito curto, tudo funciona na base do meme e de textos curtíssimos.

CRETINO: E era exatamente isso que eu queria evitar. Por isso fui sacando que era necessário ações de formação que incentivassem as pessoas a ultrapassar esse limite da mera opinião descompromissada com a realidade, que fatalmente recai no famigerado “gostei, não gostei”.

OLIVEIRA: E pra dizer se gostou ou não gostou as pessoas já têm o Facebook, Twitter, Instagram…

CRETINO: Claro. E o que tem de cretino vomitando estupidez nessas plataformas “não tá no gibi”…

OLIVEIRA: Sim. E tem também aquele povo que adora postar as “fofurices”: “Ah, seu lindo”, “arrasou”, “maravilhoso”, “lacrou”… E toma-te coraçãozinho e emoticons de tudo que é jeito… Já imaginou isso nas críticas publicadas no Cretino?  

CRETINO: Dionísio me defenda! Nem me fale. São jargões do internetez que só esvazia ou superficializa o debate. E pra mim, isso faz um estrago na própria produção teatral da cidade, porque aí “tudo é lindo e maravilhoso” e não se problematiza nada. Então, quando transformei o Cretino em projeto de extensão da UFPA meu ponto de partida sempre foi muito claro: desenvolver ações de fomento ao pensamento crítico.

OLIVEIRA: Saquei agora o motivo das ações formativas.

CRETINO: Porque, pensa comigo: se eu considero que uma montagem teatral é produção de conhecimento, esse conhecimento precisa ser investigado, debatido, problematizado, refutado, objetado… Seja por suas engrenagens de encenação, seja por suas escolhas estéticas, ideológicas, sociológicas, poéticas, políticas… E eu ficava puto quando participava daqueles “bate-papos” pós-apresentações e tentava discutir com os artistas e aprofundar alguma questão que me parecia um pouco desajustada ou fora de contexto da encenação e eles simplesmente respondiam: “Isso faz parte da proposta” ou “É performance”.

OLIVEIRA: Égua, já ouvi muito isso. Deu errado alguma coisa? É só dizer: “É performance”.

CRETINO: (Súbito) É isso que considero “prática artística cretina”! O sujeito se limita a misturar os elementos da encenação, ou mesmo das diversas linguagens artísticas, sem nenhum critério poético ou estético… E depois afirma, categoricamente: “É performance!”… O conceito da moda… Ou então, é uma obra “pós-dramática”… “Pós-artística”… “Pós-puta que pariu”…

OLIVEIRA: (Risos) Que tempos difíceis, hein amigo… Vivemos a era do “pós-puta que pariu!”.

Arquivo pessoal Participantes do minicurso Por Uma Crítica Menor, iniciativa do Tribuna do Cretino; a partir da esquerda, Edson Fernando, Arthur Ribeiro (do blog O Teatro Como Ele É), Ivana Matos, Taion Almeida, Suzi Lacerda e Marta Teixeira, em 2017

CRETINO: É a profecia do anjo Nelson se confirmando. Certa vez ele disse: “Ponha o cretino fundamental em cima […] de um caixote de Querosene Jacaré e você manda ele falar. Ele dá um berro e imediatamente milhares de cretinos fundamentais se organizam, se arregimentam, se aglutinam […] É a rebelião dos cretinos fundamentais. Antes o cretino fundamental raspava a parede da sua humildade e na consciência da sua inépcia (…) mas agora, conseguiram finalmente pela superioridade numérica… porque para um gênio, há dez milhões de imbecis”[5].

OLIVEIRA: (Erguendo o copo)Essa merece um brinde.

CRETINO: (Erguendo o copo) É por isso que eu concordo com Nelson e digo: “Ao cretino fundamental, nem água!”.

(Gargalham e fazem mais um brinde)

OLIVEIRA: (Sinaliza para o “garçom”) Seu menino, traga mais uma gelada!(Para o Cretino)Olha, eu concordo contigo e com o Nelson. Tem muito “cretino fundamental” fazendo teatro em Belém.

CRETINO: E por isso eles vêm sendo combatidos pelo Cretino desde 2014, quando se transforma em extensão universitária.

OLIVEIRA: Mas tu não achas que o nome deveria ser, então, Tribuna Anti-Cretino ou Tribuna Contra-Cretino?

CRETINO: Faz sentido. Mas o meu lado socrático me levou a assumir minha própria cretinice e estampá-la no título do projeto. Então, se cheguei à conclusão de que “só sei que sou cretino”, luto pra superar esse estado de limitação cognitiva procurando exercitar meus miolos, raciocinar, refletir, pensar sobre o que acontece na cena local… E busco ajuda nos aportes teóricos e conceituais dos estudiosos de teatro. Quem sabe assim eu consiga ultrapassar a cretinice fundamental estabelecida.

OLIVEIRA: Tu és um cretino de marca maior mesmo e não merece nem água…

(O “garçom” traz a quarta cerveja na morosidade de sempre, mas antes que ele a deposite sobre a mesa o Cretino lhe furta das mãos e diz…)

CRETINO: (Súbito) Mas mereço CERVEJA. Valeu “Seu menino”, bem na hora!

(Risos. O “garçom” torce a cara e regressa pro balcão calado)

OLIVEIRA: E como foi o primeiro ano do Cretino como extensão universitária?

CRETINO: Eu considero um sucesso. Ofertamos a primeira oficina de produção textual crítica… E tu estava nela, lembras?

OLIVEIRA: É verdade, agora lembrei. E era uma oficina sobre crítica de teatro e dança.

CRETINO: Leseira da minha cabeça tentar dar conta dessas duas linguagens. No ano seguinte (2015), percebi a galassequice [de gala seca, gíria para comportamento patético, estúpido] e delimitei o projeto pra trabalhar só com crítica teatral.

OLIVEIRA: Tinha uma galerinha bem legal naquela primeira oficina.

CRETINO: Com certeza. Lembro que o Arthur, que participou da oficina, criou ainda em abril de 2014 uma página pessoal de crítica teatral, o blog O Teatro Como Ele É[6], e se aliou à árdua tarefa de produzir reflexão crítica sobre a cena teatral paraense.

OLIVEIRA: É verdade. Nem lembrava disso. Aquela turma da oficina era bem descolada.

CRETINO: E de ocupações bem variadas: estudantes de teatro, dança, história, jornalismo, servidores técnicos, sociólogos, psicólogos, professores, produtores culturais, artistas…

OLIVEIRA: Naquele ano a oficina me deu coragem e escrevi minha primeira crítica teatral: “Vamos à feira”[7].   

CRETINO: Felizmente a oficina encorajou muita gente e inaugurou a publicação de pensamento crítico. Só naquele ano (2014) foram 19 críticas publicadas no blog, de nove autores diferentes, pensando e problematizando sobre 13 montagens teatrais, uma montagem de dança e uma performance. Foram quase mil visualizações de página, num blog que só publica texto, zero de imagem, zero de fotografias. Ou seja, quem chegou lá, chegou pra conferir a leitura do texto.

OLIVEIRA: Comparando com o ano anterior que só tu escreveste, foi uma bela virada de mesa.

CRETINO: Sem dúvida. E isso me deu estofo pra criar e lançar a primeira edição da revista impressa do projeto que hoje já está no número 6.

OLIVEIRA: Eu sempre encasquetei com isso: se as críticas são publicadas na plataforma virtual, por que criar uma revista impressa com as mesmas críticas?

CRETINO: A publicação na internet agiliza o processo: eu recebo a crítica por e-mail, faço uma revisão e imediatamente publico no blog. Ou seja, as reflexões e impressões críticas chegam rápido em quem produz e assiste teatro na cidade. Considerando que as temporadas de apresentações na cidade são curtíssimas – geralmente um final de semana –, isso oportuniza que a crítica chegue quando a montagem ainda está acontecendo nos palcos.

OLIVEIRA: E a revista impressa?

CRETINO: O Cretino impresso é registro documental. Tem numeração, catalogação acadêmica, periodicidade semestral e permite aos autores reconhecimento de produção intelectual.

OLIVEIRA: É verdade. O famigerado Lattes [plataforma com sistema de currículos virtual criado e mantido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq].

CRETINO: Mas tem uma coisa: eu queria uma revista que desse liberdade pros autores escreverem do jeito que lhes dessem na telha. E isso a revista oferece, sem nenhum tipo de amarra academicista…

OLIVEIRA:  Isso é massa.

CRETINO: É claro que a revista nunca vai ter pontuação no sistema Qualis Periódico da Capes, porque ela não atende a nenhum dos requisitos de pontuação exigidos… Mas quer saber: caguei pra esse sistema de pontuação de periódicos. Nunca quis ficar preso a essa lógica produtivista de publicação…

OLIVEIRA: Mas não é uma contradição, então, criar uma revista impressa?

CRETINO: Considero um modo de dizer que é possível ter periódicos alternativos, com produção regular de conhecimento refletindo criticamente sobre um determinado fenômeno de pesquisa. (Erguendo o copo) Há vida pra além da Capes! (Novo brinde) Inclusive, eu faço questão de sempre enviar um exemplar de cada número do Cretino pro endereço do Capes Periódicos, em Brasília.  

OLIVEIRA: Tu és um cretino!

CRETINO: “Só sei que sou cretino”.

(Risos)

Arquivo pessoal A crítica Geane Oliveira é graduada em teatro pela Universidade Federal do Pará e participante do projeto Tribuna do Cretino

OLIVEIRA: Eu contigo. Esse “modo Capes” de viver dentro da academia não me seduz. Por isso curto essa filosofia do Cretino. E espero que a revista continue publicando as críticas seguindo essa linha. Aliás, a venda da revista consegue bancar os custos?

CRETINO: A revista é distribuída gratuitamente. Mando dois exemplares para cada grupo que recebe uma crítica do seu trabalho, dois exemplares pra cada autor das críticas e um exemplar pra algumas instituições que têm trabalho com crítica teatral no Brasil.

OLIVEIRA: Mano, se tu não vendes a revista e distribui pra esse povo todo, da onde sai a grana pra bancar isso, do cu do Chico[8]?

(Gargalhadas)

CRETINO: Égua, depois dessa só pedindo mais uma gelada. (Pro garçom) Seu menino, mais uma… E rápido, pelamordi

(O “garçom” nem se mexe e só depois de alguns minutos resolve levar mais uma cerveja até a mesa)

OLIVEIRA: Falando sério, é a universidade que banca a impressão das revistas?

CRETINO: De alguma forma sim. Mas tem que passar pelo filtro dos editais. Todos os seis números da revista foram financiados com recursos de editais da própria universidade. O Cretino conseguiu aprovação em quatro editais – três prêmios PROEX de Arte e Cultura e o edital do Programa PROINT 2016/2017 – Programa Integrado de Apoio ao Ensino. E mesmo assim os recursos desses editais não foram suficientes pra garantir todo o valor das despesas da revista impressa.

OLIVEIRA: E tu completa o que falta do teu bolso?

CRETINO: Não. Sempre que precisei completar o valor das despesas da revista, a Escola de Teatro e Dança da UFPA entrou com recursos próprios e cobriu o que faltava.

OLIVEIRA: O phoda dos editais é a incerteza de saber se vai ser aprovado ou não.

CRETINO: Ah, sem dúvida! É uma política de distribuição de recursos absolutamente excludente… Sempre ficam projetos de fora…

OLIVEIRA: É um crivo muito cruel…

CRETINO: E infelizmente a universidade tem optado por esse tipo de política pública. Tenho conseguido, a duras penas, manter a revista com esses editais, mas também estou tentando dialogar com a Escola de Teatro e Dança pra garantir recursos dentro do próprio orçamento destinado às ações de extensão. São com essas opções que o Cretino tem se mantido.    

OLIVEIRA: Deve ser como se equilibrar em corda bamba…

CRETINO: Bem isso mesmo.

OLIVEIRA: Agora “mudando de pau pra cacete”: é impressão minha ou teu modo de abordar a crítica no projeto foi mudando ao longo desses quase sete anos de Cretino?

CRETINO: Ah, com certeza. E tem duas palavrinhas que me ajudaram muito a perceber as perspectivas de abordagem que o Cretino assume.  

OLIVEIRA: Quais?

(O garçom coloca mais uma cerveja sobre a mesa e ambos enchem o copo)

CRETINO: “Sobre” e “a partir”.

OLIVEIRA: Boiei. Acho que é falta de cevada na cachola (Vira o copo).  

CRETINO: Ou excesso (Risos).

OLIVEIRA: Te perguntei isso porque eu percebo que as tuas primeiras críticas tinham uma pegada mais acadêmica… Sei lá… Tinha um ar professoral, uma elaboração de escrita que usava até citações de autores e esses academicismos de que falavas há pouco.

CRETINO: Essa é a fase inicial dos primeiros anos do projeto; é a fase das críticas “sobre” as montagens teatrais. Quando se escreve “sobre” alguma coisa, se estabelece distância “de quem fala” sobre “o que se fala”. O “sobre”, neste caso, estabelece uma mediação entre dois lugares bem distintos: o lugar do crítico e seu olhar analítico sobre aquilo que pretende versar e o lugar da montagem teatral que oferece os elementos para serem analisados.        

OLIVEIRA: Saquei. É uma abordagem que não confunde sujeito e objeto.

CRETINO: Exatamente. Esse último copo de cerveja te fez bem (Risos).  

OLIVEIRA: É como se tu não te envolvesses subjetivamente com a montagem.

CRETINO: Envolvimento subjetivo sempre há, mesmo numa abordagem mais analítica. A questão é que àquela altura eu entendia que o mais importante era refletir sobre a linguagem teatral, sobre os gêneros, conceitos e teorias na sua relação direta com os espetáculos. E naquela primeira oficina, que tu participaste, meu objetivo era oferecer ferramentas conceituais e instrumentos analíticos que eu julgava necessários para pensar criticamente os espetáculos.   

OLIVEIRA: E isso se refletia nas tuas críticas também.

CRETINO: Sem dúvida. Lembro de ter analisado a montagem Zeca de uma cesta só[9], e como era um trabalho que se apresentava com uma pegada de crítica social, logo me arroguei no direito de usar a lente conceitual brechtiana pra interpretar o trabalho (Começa a mexer no celular).

OLIVEIRA: Eu lembro dessa montagem e da tua crítica. O povo do elenco não curtiu muito, não.

CRETINO: (Mostrando no celular) Olha aqui um pedacinho dela:

Em segundo lugar o uso das projeções dos textos no fundo do cenário da casa de Zeca. Recurso bastante utilizado por Brecht, a literalização da cena permite abrir um canal direto com o público que é solicitado a acompanhar as ideias dispostas em cartazes ou tabuletas. No caso da montagem o uso é de projeções ao fundo do cenário. Duas questões para refletirmos no uso deste elemento: os textos projetados beiram o didatismo acadêmico, preocupando-se em apresentar ao público o propósito da montagem, o pensamento do autor que fundamenta este propósito – Brecht – e o misticismo envolto no teatro burguês que pretendem subverter. Não utilizam o recurso como modo de comentar a cena, o que poderia nos possibilitar o distanciar dos acontecimentos já anteriormente apontados como familiares. E aqui surge a segunda questão: as projeções ocorrem no intervalo entre as cenas e não durante as cenas, o que poderia potencializar o mesmo efeito já mencionado, isto é, como comentário reflexivo da cena[10] (SILVA, 2015, p. 41-2).

Danielle Cascaes Cena de ‘Zeca de uma cesta só’, direção de Paulo César Jr e encenação de Leandro Ferreira; peça do Zecas Coletivo de Teatro é fruto do projeto de extensão Novos Encenadores, do Grupo de Teatro Universitário da Universidade Federal do Pará, de 2014

OLIVEIRA: Sinto como se tu estivesses dando uma aula sobre a montagem.

CRETINO: Tem esse ar professoral mesmo. E nesse primeiro ano do Cretino tomo como ponto de partida a função da crítica como mediadora entre leitor/espectador e os artistas. Então, é como se eu explicasse pros artistas como deveria ser feito para se alcançar os efeitos de uma encenação épico-brechtiana.

OLIVEIRA: É uma maneira pedante de fazer crítica.  

CRETINO: É um modo de fazer. E tem muito a ver com meu sentimento combativo frente à prática artística cretina.

OLIVEIRA: E quando ou o quê te faz mudar de abordagem?

CRETINO: Devo essa pro Kil Abreu[11] que, casualmente, me marcou numa postagem no Facebook recomendando a leitura de dois livros: O crítico ignorante, da Daniele Avila Small; e Soma e sub-tração, do Edélcio Mostaço. Os dois são muito bons, mas a abordagem da Daniele é que me fez repensar os rumos do Cretino.

OLIVEIRA: Toma-te! Daniele te fez perceber que és um “cretino ignorante” (Risos).

CRETINO: É verdade. A articulação que ela faz da crítica teatral com o pensamento do Jacques Rancière é muito massa. E isso me motivou repensar a abordagem do Cretino, quer dizer, pensar o papel do crítico teatral colocado numa moldura diferente daquela do crítico como especialista que deseja explicar a obra, como eu fiz nessa crítica do espetáculo Zeca.

OLIVEIRA: É o que ela chama de crítica de artista, né?

CRETINO: Exatamente. Então, eu comecei a exercitar a escrita das minhas críticas na condição de fruidor da obra e não mais de analista. E isso agregou outros elementos na minha percepção crítica… Quer dizer, não exclui, necessariamente, os elementos analíticos da escrita, mas agreguei o registro e compartilhamento dos estados sinestésicos provocados pelas montagens teatrais.

OLIVEIRA: E os cursos e oficinas que passaste a oferecer também mudam de abordagem, né?

CRETINO: Claro. É nesse momento que troco o “sobre” pelo “a partir”. Então, não falo mais “sobre” a montagem teatral, mas falo “a partir” dela. Nesse novo lugar eu me coloco junto da obra, enredado nas suas teias poéticas, políticas, sociológicas, existências… Já não me interessa tanto definir, classificar ou categorizar os elementos, mas problematizar a vivência oferecida pela obra poetizando exatamente essa vivência, relatando, contando, descrevendo, presentificando na crítica o conjunto de sensações/questões que vivenciei.

OLIVEIRA: O nome disso é encontro. Algo que deveria ser elementar na nossa arte.

CRETINO: Té doidé!? Disse tudo. No fundo, acho que é o [re]encontro do crítico com sua condição de espectador, de ser humano comum desvelado de suas máscaras sociais – se é que isso seja possível. Ou melhor ainda: é a descoberta de que qualquer espectador pode e deve falar da obra “a partir” das suas vivências… Isso não requer nenhum saber especializado, basta relatar o que se passou durante a vivência, tal como acontece na pedagogia de Joseph Jacotot que a Daniele cita no livro (2015, p. 19).  Em outras palavras: é a emancipação intelectual dos espectadores que está em jogo.

OLIVEIRA: E qual o papel das oficinas e cursos que o Cretino oferece nessa nova abordagem da crítica?

CRETINO: Acho que em primeiro lugar, descontruir a ideia de que só um especialista pode escrever uma crítica. Depois é mostrar que cada um pode e deve encontrar o seu próprio caminho, o seu próprio modo de relatar a experiência que teve com a obra. Não há fórmulas prontas, mas alguns caminhos de escrita que podem ser exercitados.

OLIVEIRA:  Peraí; isso me lembra os “Caminhos da palavra”, aquela janela virtual que tem lá no blog[12] novo do Cretino.

CRETINO: Exatamente. O conteúdo dessa janela foi criado em conjunto com os participantes do último minicurso que ministrei em 2018 – antes de sair de licença pra concluir minha pesquisa de doutorado. E nada mais é do que modos de escrita que foram testados pelos próprios participantes do minicurso. A ideia é apontar opções de modalidades de escrita inventiva como estimulo para qualquer espectador se atrever a percorrê-las com sua própria escrita, com suas próprias percepções das obras artísticas. É uma janela que vai ficar sempre aberta para que novas propostas sejam elaboradas pelos futuros participantes das ações do Cretino.

OLIVEIRA: Foi por isso também que mudou de plataforma digital?

CRETINO: Sim. A plataforma da Webnode oferece mais recursos e tem um layout mais parecido com um site. Oferece mais ferramentas pra interação – que na verdade o povo nem usa – ou na verdade eu ainda não sei direito como explorar. Lá também consegui subdividir espaço para os artistas se expressarem, se quiserem responder a alguma crítica recebida; tem também espaço pros leitores debaterem as críticas…

OLIVEIRA: Ainda é pouco explorado isso tudo, né?

CRETINO: É verdade. Mas ter esse novo espaço virtual demarca, pela própria configuração da plataforma, uma mudança de abordagem.

OLIVEIRA: Eu percebi essa mudança de abordagem na tua escrita… Pra ser mais exata, na crítica que escreveste sobre o espetáculo Santa Pocilga de Misericórdia.

CRETINO: É verdade. Acho que aquela crítica demarca uma transição no meu modo de pensar e escrever…

OLIVEIRA: (Mexendo no celular) Eu adoro aquele primeiro parágrafo enorme que tu contextualizas o que se passa no espetáculo… Tá aqui oh…

O vigilante debochado abre as porteiras do curral dando as boas-vindas ao lar de Genet. As nádegas já podem… Não. Os ânus já podem… Não. Os cus já podem começar seu passeio frenético pela lúgubre mente do poeta dos ladrões: o rebolado buliçoso é a recepção candente que embala todos os cus numa assimétrica rítmica; há cus atirados, mansos, reprimidos, desejosos de porra; o cu esquizofrênico transita nervosamente entre o gozo e o castigo, o desejo e a censura, o querer e o não poder; o cu mais atrevido não demora a estabelecer aliança entre os dedos, a língua e o próprio cu, numa lasciva exorbitante e gananciosa; ainda imerso no reino de suas escritas sujas o poeta Jean parece pairar seu próprio cu numa dimensão distante; seu trato com os restos de papel que o cercam transparecem uma espécie de masturbação poético-literária; o gozo individual, no entanto, é passageiro, pois logo se vê seduzido pela própria obra plasmada nos cus que o cortejam, assediam, agridem e ao mesmo tempo convidam para a fáustica e santa ceia de corpos em estado de êxtase; dispostos na mesa espúria, e ainda mais sedentos de porra, ocorre a orgia universal dos cus; quase todas as formas de repressão foram suprimidas possibilitando os mais diversos encontros gozosos: cu com cu, cu com nariz, cu com pé, cu com mão, cu com língua, língua com língua, língua com pé, peito com boca, boca com cu, pele com pele, dedo com cu, cabelo com boca, cu com orelha, cotovelo com cu, joelho com boca, calcanhar com cu, lábios com lábios, lábios com cu; e em meio a tantos toques libidinosos, o quase esquecido pênis… Digo, falo… Digo, pau… Digo, pica… sim, a quase esquecida pica também entrou na santa orgia dos corpos: pica e cu, o miraculoso encontro dos antípodas ancestrais se realizando quase em toda sua potência; agora também encontram-se pica e cu, pica e pica, pica e boca, pica e dedos, rosto e pica, lábios e pica, pica e cabelos; enfim, ardentes desejos exalando um cheiro de marginalidade seminal. Na orgia universal não há lamentação, não há dor, não há desesperança, não há culpa… Mas a cristandade, presente nos escombros daquelas almas, insiste na redenção. Jean, o poeta do gozo, assume a missão de misericórdia, a missão de entregar-se à Santa Pocilga de Misericórdia. Embora, anseie pela alma despudorada de Jean, este anseia pelo corpo “pudico” da Santa. Ela, a salvação; Ele, a fornicação. Ela, a elevação; Ele, o rebaixamento. Ela, o sublimar; Ele, o enxovalhar. Ela, a alma; Ele, o corpo. Ela, o coração; Ele, o cu. O mesmo cu que dança, sofre, goza e grita pelo direito de ser cu, na sua acepção mais escatológica possível: excretar é viver[13]. (SILVA, 2015, p. 43-4)

Bruno Fadul Gabriel Luz e Renan Coelho em ‘Santa Pocilga de Misericórdia’ (2015). desfecho da Trilogia do Armário, com dramaturgia de Rodrigo Barata e direção e encenação de Kauan Amora

CRETINO: Eu gosto bastante desse parágrafo de abertura também. Porque o que tava na minha cabeça era compartilhar com o leitor a minha vivência, aquela sensação, aquele ambiente lascivo, aquele cheiro de cu muito forte que impregnou o teatro. E não se trata simplesmente de uma firula de escrita, mas de conseguir, minimamente, trazer pro leitor o elemento estruturante da encenação que me provocou a pensar e discutir a obra de Genet no contexto de Belém do Pará. Então, eu comecei a perceber o quanto é importante saber articular o relato de vivência com a análise teórica… E que uma não precisa, necessariamente, excluir a outra.

OLIVEIRA: Eu curto muito isso… E quando comecei a perceber esse novo tipo de abordagem do Cretino, até me aventurei a escrever numa modalidade diferente também.

CRETINO: (Súbito) Eu lembro da tua “Conversa entre Putas”[14]. Adorei aquela crítica. Acho que foi a primeira publicada em formato de diálogo.

OLIVEIRA: E teve muita gente que chegou comigo e disse: “Égua, mas isso não é uma crítica!”.

CRETINO: Já até me acostumei com isso. Nem me incomodo mais. O pior é aquele que chega comigo e diz assim: “Eu li tua crítica e não entendi nada. Afinal, tu gostaste ou não gostaste do espetáculo?”.

OLIVEIRA: Té doidé!! Dá vontade de matar um infeliz desse.

CRETINO: Mas eu compreendo isso como um processo. É preciso de tempo pra estabelecer um novo modo de pensar a crítica… E o Cretino aqui não tem pressa. Vou continuar propondo que as pessoas escrevam suas críticas teatrais a partir de um exercício simples: recorde, fabule e presentifique a experiência que teve no teatro. Recorde o que sentiu; fabule, invente uma história a partir dessa recordação e então provoque outras pessoas a pensarem sua vida a partir das experiências teatrais. O teatro tem essa força e a crítica teatral pode colaborar com essa árdua tarefa de ressignificar o mundo.

OLIVEIRA: Cretino, por enquanto muito a fim de ressignificar é o meu copo que tá vazio. Seu menino…       

Fim

.:. Leia mais sobre o dossiê Biocrítica e o projeto Tribuna do Cretino

Edson Fernando (Belém, 1976) é ator e diretor nascido e criado no Jurunas, bairro da periferia da capital paraense. Atua na cena teatral da cidade desde 1996, fazendo teatro de rua, teatro de caixa preta e desenvolvendo experimentações no formato de “teatro de caixa” junto ao Coletivo de Animadores de Caixa. Professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), desde 2011, sendo atualmente vice-coordenador do Grupo de Investigação do Treinamento Psicofísico do Atuante – GITA, desde 2007, e coordenador do projeto de extensão Tribuna do Cretino, desde 2014.

Arquivo pessoal Fernando com a versão revista impressa do Tribuna do Cretino

Referências:

BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 1993.

CAUQUELIN, Anne. Teorias da arte. Tradução Rejane Janowitzer. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

LEHMANN, Hans-Thies. Teatro pós-dramático. Trad. Pedro Süssekind. São Paulo: Cosacnaify, 2007.

MAGALDI, Sábato. Depois do espetáculo. São Paulo: Perspectiva, 2003.

MOSTAÇO, Edélcio. Soma e sub-tração: territorialidades e recepção teatral. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2015.

PAVIS, Patrice. A análise dos espetáculos. São Paulo: Perspectiva, 2011. 

SILVA, Edson Fernando S. Na cesta de Zeca: considerações por um teatro de reflexão crítica. Vol. 1 / Nº 1, 2015, p. 38-43.

SILVA, Edson Fernando S. Retratos de Cu: Ou da necessidade de uma poética obsessiva com Genet. Revista Tribuna do Cretino, Vol. 1 / Nº 2, 2015, p. 42-50.

SMALL, Daniele A. O crítico ignorante: uma negociação teórica meio complicada. Rio de Janeiro: 7Letras, 2015.

Referências digitais:

Acessado em 25.11.2020:https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1004200019.htm

Acessado em 27.11.2020: http://tribunadocretino.Blogspot.com.br

Acessado em 28.11.2020: https://oteatrocomoelee.wordpress.com/

Acessado em 28.11.2020: https://www.youtube.com/watch?v=80XlM1yBt3c

Acessado em 30.11.2020: https://www.tribunadocretino.com.br/caminhos-da-palavra/

Acessado em 30.11.2020: http://tribunadocretino.Blogspot.com/2014/10/na-cesta-de-zeca-consideracoes-por-um.html

Acessado em 2.12.2020: http://tribunadocretino.Blogspot.com/2015/06/retratos-de-cu-ou-da-necessidade-de-uma.html

Acessado em 2.12.2020: http://tribunadocretino.Blogspot.com/2016/10/conversa-entre-putas-por-geane-oliveira.html


[1] A tragédia se deu com um garoto de 6 anos em 9 de abril de 2000, em Jaboatão dos Guararapes, na Grande Recife. Segundo reportagem de Fábio Guibu, correspondente da Folha de S.Paulo: “O garoto José Miguel dos Santos Fonseca Jr., 6, foi atacado e morto (…) por cinco leões do circo Vostok, (…) instalado no estacionamento do shopping center Guararapes, em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. Cerca de 3.000 pessoas presenciaram o ataque. Houve tumulto, e a plateia (sic) teve de ser esvaziada. Segundo José Miguel dos Santos Fonseca, pai do menino, o ataque aconteceu durante o intervalo da apresentação, quando ele, seus dois filhos, Jr. e Mirela, 3, e outras pessoas foram tirar fotos dos cavalos, em um cercado fora do picadeiro. A foto foi autorizada pelo apresentador, que indicou o caminho. O trajeto, acompanhado por um funcionário, incluía uma passagem ao lado da jaula dos leões, no picadeiro. O avanço do leão aconteceu na volta para a plateia (sic). Um dos cinco leões puxou o menino das mãos de Fonseca. ‘Minha menina viu o irmãozinho ser arrastado’, afirmou o pai”. Matéria completa disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1004200019.htm

[2] Jornal impresso que circula no estado do Pará desde 1982; pertence ao Grupo RBA de Comunicação, cujo dono é o político Jader Barbalho.

[3] Segundo dados revelados por Lucio Flávio Pinto em seu tabloide independente (Jornal Pessoal, edição 471, de fevereiro de 2008), os números auditados pelo Instituto Verificador de Circulação – IVC, indicam tiragem de 25 mil exemplares aos domingos e média de 21 mil a 23 mil exemplares durante a semana. Os dados correspondem ao ano de 2007, mas nunca foram confirmados pelo próprio jornal que preferia inflar os números com uma retórica imprecisa ao afirmar, em seu slogan, “o maior jornal do norte do Brasil”. Os números revelam a baixa circulação impressa dos jornais no estado do Pará, fenômeno observado mundialmente e ocasionado pelas novas mídias digitais que deslocou parte considerável do mercado.

[4] A página pode ser acessada em: http://tribunadocretino.Blogspot.com.br

[5] Transcrição de fragmentos da entrevista de Otto Lara Resende com Nelson Rodrigues, exibida pela TV Globo em 1977. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=80XlM1yBt3c

[6] A página pessoal é de Arthur Ribeiro, professor de língua portuguesa e então estudante do curso técnico de teatro da UFPA, e pode ser conferida em: https://oteatrocomoelee.wordpress.com/

[7] Tribuna do Cretino – Revista de Crítica em Teatro e Dança, vol. I, nº 1, 2015.

[8] Alusão ao caso do senador Chico Rodrigues (DEM-RR), vice-líder do governo Bolsonaro, flagrado em sua residência, Boa Vista, em operação da Polícia Federal (14/10/2020) com cerca de R$ 30 mil escondidos pelo corpo. A operação da PF investigava o desvio de recursos do governo federal para combater a Covid-19 e o senador escondia parte do dinheiro entre as nádegas e no ânus.     

[9] Montagem do Grupo de Teatro Universitário – GTU, 2014.

[10] Texto completo da crítica disponível em: http://tribunadocretino.Blogspot.com/2014/10/na-cesta-de-zeca-consideracoes-por-um.html

[11] Crítico e curador de teatro paraense que reside na cidade de São Paulo.

[12] A janela virtual pode ser conferida em: https://www.tribunadocretino.com.br/caminhos-da-palavra/

[13] Texto completo da crítica disponível em: http://tribunadocretino.Blogspot.com/2015/06/retratos-de-cu-ou-da-necessidade-de-uma.html

[14] Texto completo da crítica disponível em: http://tribunadocretino.Blogspot.com/2016/10/conversa-entre-putas-por-geane-oliveira.html

Quer receber mais artigos como este? Então deixe seu e-mail:

Relacionados