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Crítica

Fotossínteses formalizam ‘A árvore’

18.4.2021  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Frame de vídeo

Na dramaturgia de Silvia Gomez, são muitas as portas da percepção abertas a um campo verbal que costuma partir de sintomas psicossociopolíticos para reimaginá-los em outras esferas. Essa pulsão que por vezes pode aparentar escapismo, numa apreensão superficial, não se demora em mostrar que o fosso é mais embaixo. A também jornalista fabula com arrojo ao iluminar porões do inconsciente do sujeito e da sociedade. Relativiza certezas ao conduzir a conversa em outros termos imaginários linguísticos. Isso fica patente em A árvore, da lavra recente e seu primeiro monólogo.

Os parceiros criativos da vez não são do Grupo 3 de Teatro, do qual é colaboradora continuada (ainda que conte com nomes de lá na produção e na trilha sonora). Neste momento sem precedentes na história da humanidade, por isso as condições bipartidas do teatro e do audiovisual, ela vê seu texto convertido em terra vegetal para ideias artisticamente revivificadoras de lado a lado.

É a partir desse humo literário que a atriz, idealizadora e produtora Alessandra Negrini compõe as potencialidades estéticas com a atriz Ester Laccava, responsável por criação e roteirização, e com o jornalista, fotógrafo e cineasta João Wainer, ambos diretores desse hibrido coerente com os graus de experimento e organicidade que o texto pede.

Na carta ao futuro despachada do deserto distópico do agora, ‘A árvore’ propõe e cumpre sua ‘viagem de ventania’ pelo inconsciente que toca a realidade com outras digitais poéticas. Como na canção de Flávio Venturini, os sonhos não envelhecem, mesmo quando a dona da voz – ciente de que daqui há pouco não será ‘mais uma pessoa, nem mesmo um personagem do meu próprio relato’ – surge com uma sacola a tiracolo com uma inscrição em francês extraída do filme ‘Fanny e Alexander‘ (1982), de Bergman, amante da arte do teatro: ‘O palco nos cerca de sombras bondosas’. É debaixo dessa copa que essa trupe se abriga, apesar dos pesares

A montagem (eis o substantivo servindo a dois patrões simultaneamente, a filmagem e a encenação) assevera a natureza de uma escrita de entranhas e estranhamentos da qual Silvia já dava notícias com diligente liberdade em O céu cinco minutos antes da tempestade (2005), forjada no Círculo de Dramaturgia do CPT, sob Antunes Filho, e dirigida três anos depois por Eric Lenate.

Alessandra se incumbe da atuação com a integridade de quem se apropriou dessa voz inominada em cena – não obstante tratada pela letra “A” na escrita original –, atravessada por meditações interiores e um discurso autodefinido como relato ou viagem, rumor, processo, enchente, microclima. São estados intimistas capitaneados em palavras de despedidas para um amor que se foi. Os traços de performatividade da estrutura narrativa não dissolvem a instância da personagem que chega da rua e transita do mundo doméstico a outras temporalidades e espacialidades, como que teletransportada de seu apartamento (e de seu corpo) em função de uma série de acontecimentos inusitados e muito bem ilustrados pela captação e edição de imagens.

Com procedimentos que lembram os fluxos de consciência em Clarice Lispector ou Kafka, por exemplo, acompanhamos a mulher em seu devir alavancado pelo fio de cabelo enganchado numa planta quando limpava uma estante. Esse gesto infinitesimal – dela ou da planta, quem fisgou ou se deixou fisgar? – desencadeia mutações de ordens prática e fantástica.

Temos uma narradora com pistas de alter ego da autora, posto que o relato pode sugerir embate do processo criativo em curso, metabolizado no empenho “de despedida das coisas que davam sentido à vida, quando percebe que está perdendo a forma humana”. Aos poucos, converte sua existência em espécie vegetal. A maneira como a equipe opera essa transformação central no desenrolar do texto torna esse espetáculo de teatro-cinema uma ventura. Como se mimetizasse a fotossíntese na captura de energia solar para produzir moléculas orgânicas, pari passu à clorofila que resulta na cor verde das folhas nas árvores, portanto vital para o oxigênio disponível no planeta.

Entre a projeção de imagens no cerne do texto e a materialização delas, a estratégia de roteirização estabeleceu um sistema feito terceira via. Nos interstícios do narrado, o imaginário de quem assiste é fomentado por comentários audiovisuais adjacentes ou contrastantes que estimulam a navegação.

Movimentos, cortes, silêncios ou fusões ratificam o espraiamento da história – “Espalhei-me, eu desconheço fronteiras” – sem perder o eixo do que é exposto. A voz chega a dizer que cansou da noção de indivíduo. Amaldiçoa o verbo, a vírgula, o ponto. E a crise de linguagem confunde-se com o esplendor ficcional alçado a níveis intergalácticos em piscar de olhos.

A interface cinematográfica responde com inserções à altura nas citações, seja para causar ruído, como no rompimento criminoso da mina da Vale do Rio Doce em Brumadinho (MG), seja para saudar as genialidades do multi-instrumentista alagoano Hermeto Paschoal, do cineasta sueco Ingmar Bergman e do seu congênere estadunidense John Cassavetes.

Deste, a menção a Uma mulher sob influência (1974) condiz com a dimensão feminina enraizada em A árvore. Gena Rowlands interpreta a protagonista, mãe e esposa desviante das convenções da família de comercial de margarina, tida e havida por “louca’ segundo resquícios da histeria encetada pela medicina do século XIX, aos quais o filme se contrapõe com rigor.

Frame de vídeo A atriz Alessandra Negrini em seu primeiro trabalho solo, ‘A árvore’, idealizado antes da pandemia e adaptado para formato online; a conjugação de teatro e cinema para trazer a público o texto de Silvia Gomez, pela internet, teve parceria com a atriz Ester Laccava e o fotógrafo e cineasta João Wainer, ambos diretores da obra

Na experiência em análise, sinais de ansiedade, depressão e pensamento obsessivo, se os há, são elaborados em outra chave. Sem clichês, a não ser para ironizá-los. A remissão à curandeira e xamã mexicana Maria Sabina (1894-1985) promove outros deslocamentos. Ela pertencia ao povo indígena mazateca, referência no uso cerimonial e curativo de cogumelos alucinógenos, uma prática espiritual. A figura de Sabina atravessa a arquitetura textual de maneira oculta – moradora do apartamento de cima, deixa bilhete para a vizinha, “A”, desconhecida, pedindo para regar suas plantas enquanto estiver fora. Porém, se revelará determinante na conexão com a voz (seu duplo?) e na convicção de que “sabedoria é linguagem”.

Com a naturalidade de quem domina a cultura do sets de televisão e cinema há décadas, Alessandra exprime, por outro lado, nuances corporais que sustentam a personagem e permitem não se perder de vista a teatralidade ao redor.

As palhetas do humor e do erotismo são manuseadas com agudeza nesse jogo traçado com presença de espírito. A atriz fisga o olhar do público com apartes via enquadramento da câmera lateral, piscadelas de distanciamento. Acontecem outras quebras com inserções de conteúdos externos do centro de São Paulo ou de Visconde de Mauá, na Serra da Mantiqueira, espichando a territorialidade com tomadas aéreas captadas por drones, às vezes entre nuvens.

Já os instantes de maior intimidade se passam nos cômodos onde mora, com atalhos para o teatro, veja só, espaço físico – e de rito – esvaziado por causa da pandemia. As breves inserções da plateia sob penumbra do Teatro Faap, ou mesmo nas tomadas desde o palco, soam fantasmais após 13 meses em que equipes de criação, cenotécnicos, produtores, gestores e espectadores fomos apartados do ombro a ombro no pacto pelo mergulho coletivo no drama de cada noite.

Na carta ao futuro despachada do deserto distópico do agora, A árvore propõe e cumpre sua “viagem de ventania” pelo inconsciente que toca a realidade com outras digitais poéticas. Como na canção de Flávio Venturini, os sonhos não envelhecem, mesmo quando a dona da voz – ciente de que daqui há pouco não será “mais uma pessoa, nem mesmo um personagem do meu próprio relato” – surge com uma sacola a tiracolo com uma inscrição em francês extraída do filme Fanny e Alexander (1982), de Bergman, amante da arte do teatro: “O palco nos cerca de sombras bondosas”. É debaixo dessa copa que essa trupe se abriga, apesar dos pesares.

Evidentemente, as condições de produção desse projeto patrocinado por meio da lei federal de incentivo à cultura, a Rouanet, envolve recursos materiais e humanos de monta, inclusive nos moldes da indústria cinematográfica. Isso sustenta as condições técnicas e as qualidades alcançadas pelos cerca de 40 profissionais envolvidos.

Serviço:

Sexta e sábado, às 20h; domingo às 19h. Até 18 de abril

Programação online do Teatro Faap na plataforma Tudus, http://tudus.com.br/fontes-realizacoes-a-arvore

R$ 30,00

70 minutos

14 anos

Frame de vídeo Alessandra em cena gravada na plateia do Teatro Faap que também serviu de locação para o trabalho híbrida

Equipe de criação:

Texto: Silvia Gomez

Criação e roteirização: Ester Laccava

Direção: Ester Laccava e João Wainer

Com: Alessandra Negrini e participação especial de Gui Calzavara

Cenário: Camila Schimidt

Figurinos: Ana Luiza Fay

Desenho de luz: Mirella Brandi

Trilha sonora: Dr Morris

Assistente de direção: Elzeman Neves

Preparação corporal: Ana Paula Diaz

Maquiagem: Beto França

Peruca (caracterização): Emi Sato e Tisse Sato

Produção executiva: Heloisa Andersen

Gestão de projeto: Luana Gorayeb

Direção de filmagem: João Wainer

Montagem e codireção de filmagem: Cesar Gananian

Direção de fotografia e câmera: Isadora Brant

Idealização: Alessandra Negrini

Direção de produção: Gabriel Fontes Paiva

Realização: Fontes Realizações Artísticas

Produtores Associados: Alessandra Negrini e Gabriel Fontes Paiva

Valmir Santos

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