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Crítica

Em janeiro de 1982, a duas semanas de sua morte com parcos 36 anos, Elis Regina é sabatinada no programa Jogo da verdade, da TV Cultura. O apresentador Salomão Ésper abre, de chofre: “Elis Regina, até que ponto pode ser profundo e honesto um ‘Jogo da Verdade’ sobre a sua carreira e a Música Popular Brasileira?”. Ela ergue os braços para trás, envolve a nuca com as duas mãos, movimenta o corpo com suavidade na cadeira giratória, para lá e para cá, e discorre sobre desnudar-se completamente perante o outro. “Eu acho que a gente faz parte de um grande teatro. Cada um tem o seu papelzinho e cada um tem o seu coringa gravado, guardado dentro da manguinha, aqui, para fazer sua canastra na hora precisa. Então, na medida em que isso possa ser feito, a gente preserva alguns dados para o futuro, que ninguém é bobo, não é, meu bem?”. Leia mais

Reportagem

Ao discorrer sobre uma de suas peças mais encenadas no mundo, Medeamaterial, recriação da obra de Eurípides sobre a esposa sanguinária e vingativa que personificaria as forças cegas e irracionais da natureza, o dramaturgo alemão Heiner Müller (1929-1995) lembra a percepção da mulher na polis grega por volta de 25 séculos atrás: ela era referendada apenas pela condição de cortesã ou de mãe. Não por acaso, os mitos trágicos dizem muito aos dias de hoje. Müller associa as experiências coletivas da antiguidade ao “esperanto”, a linguagem universal acessada a qualquer tempo e lugar. Leia mais

Crítica

Para quem não é de Curitiba, ver Cássia Damasceno em cena constitui boa surpresa em relação à imagem dominante de seu trabalho como produtora executiva da Companhia Brasileira de Teatro nos últimos anos, em processos criativos locais e circulações por outros estados e países. Ela nunca está em cena. Surpreende duplamente encontrá-la sob a guarida de outro núcleo, Dezoito Zero Um – Cia. de Teatro, e protagonizando Billie, alusões fragmentárias ou flagrantes da biografia da intérprete norte-americana Billie Holiday (1915-1959). Leia mais

Crítica

O sensacionalismo das tardes televisivas é pouco preocupado com a verdade. Mesmo quando apela ao tom documental de uma perseguição policial, ao vivo, o apresentador frequentemente enxerga mais do que o câmara e o piloto do helicóptero ao relatar os fatos do estúdio. A natureza espetacular ruge. Em casa, o telespectador interpreta o que vê ou escuta. Ou simplesmente se abstém, deixa-se levar. Esse prólogo desponta por causa do espetáculo Verbo, em que um aparelho de televisão catalisa o cenário de uma sala de estar, ora desligado ora em canal fora do ar, com seus chuviscos em cascata. Leia mais

Crítica

Mário Bortolotto comete alguns espetáculos surpreendentemente adoráveis. São 22h de domingo, última sessão do espetáculo e do Fringe naquela noite. Palquinho de um auditório escolar. A garrafa de uísque (cênico?) em punho. Enésima citação jocosa a um best-seller (sobrou para Paulo Coelho). Desprezo por uma banda ou cantor de época (dos aos 80, no caso). Adoração pelo blues e pelo rock na trilha, música na veia do também vocalista. A codependência das histórias em quadrinhos. O andar balangante (dessa vez pés no chão, o coturno ficou na coxia). E ainda assim, ou por tudo isso, o espectador afeito ao trabalho do Grupo Cemitério de Automóveis sai de Whisky e hambúrguer (título difícil de engolir) com a plena sensação de que o teatro acontece, aconteceu naquela uma hora. Leia mais

Crítica

O encontro de Antunes Filho com Thornton Wilder diz mais sobre o ícone da encenação brasileira, o homem e o artista embarcados em seis décadas de trabalho, do que propriamente os vetores estéticos que o orientaram por pelo menos dois anos de pesquisa e ensaio. Nossa cidade mostra um criador nu e íntegro com a sua cena, mentor de espetáculos antológicos e ora sem o encalço da angústia da inovação a cada passo. Os códigos-fonte estão emocionalmente abertos no tablado do Teatro Sesc Anchieta, independente dos enigmas que a obra encerra. Não há um grande ator ou atriz a ancorar o projeto, como se condicionou aludir ao método sistematizado ao longo dos anos. A horizontalidade e o perfil multigeracional dos protagonistas do Grupo de Teatro Macunaíma/Centro de Pesquisa Teatral o deixa mais exposto à própria condição humana de mestre que também confronta crises e estas o provocam a destilar arte. Leia mais

Crítica

Em Abnegação, os atos de fala são privados, mas incidem frontalmente na vida pública. Fala-se muito e grosso nesse circuito fechado do negócio da política partidária encruada no poder. No entanto, tudo que esses sujeitos botam da boca para fora soa espasmódico. A interjeição “opa” é recorrente nesses enunciados tensos e quebradiços. A dramaturgia de Alexandre Dal Farra tem suas potencialidades multiplicadas quando o espectador, no caso, dá menos importância ao expressado verbalmente e deixa-se pautar pelo inaudito. A falha como linguagem projeta-se enquanto realidade da cena. Com ela, afloram o caráter de quatro homens e uma mulher que corrompem a própria palavra em sua ambição desmedida. Os cochichos ao pé do ouvido são reveladores do conluio. Leia mais

Reportagem

Os grupos Ser Tão Teatro, de João Pessoa, e Cia. Les Commediens Tropicales, de São Paulo, cobram cachês que o Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto teria se comprometido a pagar por apresentações, ajuda de custo e atividade reflexiva durante a edição de 2012. A soma das duas dívidas é de R$ 9.300,00, desconsiderando-se correções. Leia mais

Crítica

Em seus intentos artísticos, políticos e reflexivos, a Mostra Internacional de Teatro, a MITsp, honrou os marcos lançados em sua primeira jornada de 11 dias e 11 espetáculos encerrada ontem. Restabeleceu o lugar de um evento desse porte na agenda cultural da cidade, fora da escala da indústria do entretenimento (em analogia ao Festival Internacional de Artes Cênicas, de Ruth Escobar, que cumpriu nove edições entre 1974 e 1999). Incitou o interesse do espectador pelo teatro de pesquisa. Sublinhou a mediação crítica em todos os quadrantes, por um espectador ativo. E abriu-se aos estudantes e docentes de artes cênicas na graduação e na pós, inclusive vindos de outras praças. Leia mais

Crítica

Os procedimentos dramatúrgicos e cênicos de Guillermo Calderón em Escola combinam elementos épicos e dramáticos que potencializam uma teatralidade feita de sutilezas e impurezas nas angulações crítica e política em que se anuncia. Seu mote é um achado, e explosivo. Ao circunscrever o treinamento dos integrantes de uma guerrilha em tempos de ditadura militar, o espetáculo dá margem para pensar noções de ideologia e de engajamento à luz dos dias que correm, quando o espaço público retoma vocação para a ágora em que manifestantes se fazem escutar. Leia mais