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Crítica

Camille e Rodin

23.8.2012  |  por Valmir Santos

Os atores Leopoldo Pacheco e Melissa Vettore

Os atores Leopoldo Pacheco e Melissa Vettore

Espetáculo Camille e Rodin tem interpretações quase protocolares e fica aquém da inquietude dos escultores franceses, protagonistas de uma trágica história de amor Leia mais

Crítica

Em criança, Ety Fefer observava seu pai criando garatujas ou desenhos nas toalhas de papel que forravam as mesas em restaurantes. Aqueles traços soltos esboçavam rostos, troncos, membros disformes, seres que o imaginário da filha judia logo batizou de Los grumildos. Mais de três décadas depois, a artista peruana olha para trás e vê como sublimou seus monstros interiores – e fez espelhar os nossos – em bonecos moldados em plasticina (matéria plástica constituída principalmente por argila), movimentados por fios de nylon acoplados a engenhocas mecânicas tão rústicas e artesanais como a fisionomia e a aura singulares desses habitantes de um mundo em miniatura, uma cenografia barroca sob penumbra, neon e luzinhas coloridas. Leia mais

Reportagem

Vem aí uma sequência de criações de Bob Wilson no país, com passagens confirmadas por São Paulo e Porto Alegre.

De 14 a 20 de abril ele apresenta no Sesc Belenzinho o solo A última gravação de Krapp (2009), atuando como o velho septuagenário de Samuel Beckett a reboboniar seu passado – mesma idade do artista norte-americano. Escrevi aqui quando assisti em Bogotá, em 2010. Leia mais

Reportagem

Isso te interessa?

13.8.2012  |  por Valmir Santos

 

Quando mil palavras valem mais
Espetáculo em São Paulo valoriza o plano da linguagem para tratar das disfunções de uma família ao longo de gerações

Uma das belezas de ser espectador de teatro nos dias de hoje é deparar com artistas que ousam subverter as estruturas do drama essencialmente no plano da linguagem, sem baratear o gênero ou apagar o prazer de acompanhar uma boa história. É o que faz Isso te interessa?, a montagem de Bon, Saint-Cloud, da francesa Noëlle Renaude, que a Companhia Brasileira de Teatro introduz no país e está em temporada no Sesc Belenzinho, em São Paulo. Leia mais

Artigo

Cosmo-agonia

13.8.2012  |  por Valmir Santos

No limiar da sua segunda década de história, o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos elabora na cena a passagem dos tempos próprio e ancestral. Em Orfeu mestiço: uma hip-hópera brasileira, parte dos atores remanescentes da origem do grupo, no ano de 2000, inscreve no corpo, na palavra, na voz, na escuta e na percepção de mundo a matridade colhida no percurso. O traço mais distintivo nesse novo trabalho é a capacidade de deslocamento da urgência da cultura urbana do asfalto, burilada como linguagem, para o chão das tradições populares, principalmente das bordas rurais, desbravando outras pulsações e saberes do Brasil também índio, negro, caboclo, camponês. Leia mais

Reportagem

Simone Ordones e Julio Maciel em Eclipse - Bianca Aun

Simone Ordones e Julio Maciel em Eclipse – Bianca Aun

Toda ela endereçada ao futuro, e é assim desde que foi plasmada no final do século XIX, a obra de Anton Tchekhov ecoa no presente com a mesma perspectiva de sempre: falar aos que virão. No caso particular do primeiro encontro criativo do Grupo Galpão com o escritor russo, traduzido em dois espetáculos ao longo de 2011, é inevitável retroagir à linha dos trinta anos do núcleo, completados em 2012, e refletir como os atores basilares e os diretores convidados foram afetados por essas palavras impregnadas de humanismo filosófico desde o espasmo consciente até o abismo do delírio. Leia mais

revistas

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(Artigo publicado originalmente na A[l]berto – Revista da SP Escola de Teatro, n. 2, 2012, pp. 61-65)

 

Toda ela endereçada ao futuro, e é assim desde que foi plasmada no final do século XIX, a obra de Anton Tchekhov ecoa no presente com a mesma perspectiva de sempre: falar aos que virão. No caso particular do primeiro encontro criativo do Grupo Galpão com o escritor russo, traduzido em dois espetáculos ao longo de 2011, é inevitável retroagir à linha dos trinta anos do núcleo, completados em 2012, e refletir como os atores basilares e os diretores convidados foram afetados por essas palavras impregnadas de humanismo filosófico desde o espasmo consciente até o abismo do delírio.

 

Inicialmente, versamos sobre Tio Vânia (aos que vierem depois de nós), a montagem de Yara de Novaes (1966), artista nascida no mesmo berço mineiro do Galpão, Belo Horizonte, e baseada profissionalmente em São Paulo. Em seguida, sondamos Eclipse, encenação de Jurij Alschitz (1947), de origem russa, atualmente radicado em Berlim.

 

O elenco fixo foi dividido. Seis atuaram no primeiro trabalho, tendo se somado a eles uma atriz convidada, enquanto cinco protagonizaram o segundo. Ou seja, dos treze intérpretes constituintes do conjunto, dois não participaram dos projetos[1]. Friccionar as respectivas experiências é o desejo deste artigo.

 

Após a primeira noite de Tio Vânia[2], em Curitiba, anotamos que o encontro do Galpão com Tchekhov pedia aos atores movimentos de interiorização e exteriorização complementares para correlacionar os continentes expressivos sugeridos pela dramaturgia e pelo grupo que a visitava[3]. A intersubjetividade está para a peça assim como o teatro popular está para a linguagem do circo, da rua e da música, entre outros campos. No palco italiano, os atores ora confluem para uma terceira via ora retomam a pista mais segura, reconhecida pela memória corporal das últimas décadas.

 

Emblematicamente cofundadores do Galpão (1982), Antonio Edson, no papel-título, e Eduardo Moreira, como o médico Ástrov, sintetizavam em suas presenças o desvio de estilo para penetrar a atmosfera crepuscular do drama. A adaptação do texto assinada pelo próprio coletivo valoriza as brechas de comicidade que Edson concilia perfeitamente com ar peripatético e gestualidade afins. Porém, em sua estatura de pouco mais de metro e meio, a máscara natural de comediante, ele tem dificuldade em corresponder à outra face desse tio Vânia cuja alma também desponta dilacerada em muitas passagens.

 

Moreira, por sua vez, esculpe com mais naturalidade a contenção física e inquietação espiritual do jovem conhecido da família que introduz o pensamento científico e prognostica os malefícios do homem para com o planeta. O que não o impede de ser arrebatado quando se vê enamorado da mulher do professor em visita, sujeito ególatra que vem da cidade e põe de ponta-cabeça o cotidiano daquela casa de campo ameaçando vendê-la. De maneira menos evidente, essa gangorra de registros entre Edson e Moreira perpassa os demais atores em suas buscas.

 

Transparecia flagrante, na estreia, uma interpretação tateante em paradoxo com a ênfase conceitual do espaço cênico coassumida pela diretora Yara de Novaes e pelo cenógrafo Márcio Medina. A encenação soa mais comedida na filiação estética do trabalho de ator no Galpão e intervém com veemência na combinação dos recursos visuais e sonoros. Medina concebe uma fragmentação genial dos cômodos da casa em colunas-vitrines autônomas que contêm a configuração e os objetos de uma biblioteca, uma cozinha, uma sala de estar, um corredor, etc. Todas deslizantes e deslocadas pelos atores no tablado vazio.

 

O outono da vida dos personagens que ali convivem surge representado por um galho seco na abertura do espetáculo, uma perspectiva oriental. Soma-se o diálogo dramático da luz de Pedro Pederneiras (Grupo Corpo). e a ambientação sonora, incidental e com ecos, desenhada por Dr. Morris. São todos signos sofisticados que rompem com as convenções do silêncio e da inação nas peças do autor, imprimindo outras camadas ao texto de 1897.

 

Sete meses depois, quando da temporada paulistana[4], o desempenho do elenco se revela melhor equalizado com o hábitat sonoro-cenográfico, sobretudo com o tio Vânia de Antonio Edson mais introvertido e equilibrado na alteridade do humor pertinente em dramaturgo comumente sublinhado pelo tom grave nas montagens brasileiras.

 

As proposições investigativas do ator e do espaço mostraram-se mais surpreendentes ainda em Eclipse[5]. A encenação evita resíduos identificáveis daquele Galpão memorável de Romeu e Julieta (1982), para citar a obra-prima dirigida por Gabriel Villela e levada às praças e parques. Essa quebra de expectativa diante da identidade reconhecível é, de largada, um corajoso trunfo do grupo de atores.

 

Como é de praxe na sua trajetória convidar diretores a cada nova produção, revezando com integrantes que também assumem a função de quando em quando, dessa vez o núcleo teve em Jurij Alschitz um interlocutor incondicional. Sua determinação autoral engloba direção, dramaturgia, cenografia, figurino e treinamento dos cinco cocriadores. Como estrangeiro de fato e de efeito, ele imprimiu um processo criativo que desbastou as técnicas dominadas e prospectou noções de jogo e de energia desestabilizadoras para dialogar com dezenas de contos de Tchekhov, alguns deles sinalizados mais explicitamente na encenação.

 

Um exemplo de descolamento é a utilização diminuta da música. O elenco de Eclipse não toca instrumentos e praticamente não canta – a única incursão de um acordeão serve à ilustração dos teclados para a máquina de datilografar. Não há uma história linear a ser narrada. Fragmentos de curtos enredos ficcionais misturam-se a lampejos meditativos sobre os destinos da humanidade, da arte, do teatro, do grupo e da própria peça – o metateatro como elogio do caos. A desordem no conteúdo avança rente à forma. O diretor russo brande as ideias de outro compatriota para recriar Tchekhov sem os clichês de recepção que costumam cercar os clássicos. Cenário e figurino apoiam-se na abstração geométrica de Kazimir Malevich (1878-1935), catalisador do neorrealismo pictórico no qual as cores puras, como o preto e o vermelho, são aplicadas sobre fundo branco em desenhos como o círculo, o quarado e o triângulo – sem finalidades práticas, a priori, abrindo-se ao flanco poético da visualidade plástica que fala ou desdobra por si.

 

É nesse território autônomo, um espaço não convencional e perpendicular – na parede erguida à esquerda jorra um feixe de luz branca por uma porta –, é nesse lugar de incertezas alinhadas que os cinco atores precipitam em ações performativas que podem ter relação com a própria sequência ou servir à do colega. Há uma beleza comovente nesse quinteto transfigurado pela destreza da linguagem sem peia. Simone Ordones, por exemplo, está irreconhecível nas novas chaves e códigos que garimpou para o rosto e o corpo de suas figuras futuristas, despidas de vestígios sociais e políticos, mas ainda assim demasiado humanas nos seus estranhamentos.

 

Por trás da ilogicidade aparente, da hermenêutica provocadora de Alschitz, há um rigor atávico capturado pelo modo de os atores enunciarem, caminharem, contracenarem ou interagirem com o público sem condescender. O espetáculo demonstra que há outras formas nada óbvias para questionar felicidade, Deus, pecado, talento, herança, ruptura e os ofícios de fato e de viver. Inclusive exercer autocrítica com um sentimento de integridade artística que é inequívoca ao Grupo Galpão.

 

A Viagem a Tchekhov, como batizado o projeto de fôlego, trouxe inquietações colaterais aos artistas, aos espectadores, aos pesquisadores e à crítica quanto à dimensão do popular, em chave contrária, no teatro desse núcleo referencial. Uma vez que a rua e o palco foram esquadrinhados com tanto esmero nas últimas três décadas, os sistemas trazidos à tona, sob as égides de Novaes e de Alschitz, permitem vislumbrar outras dimensões do fazer e do saber artísticos do anfitrião que tinha consciência da empreitada[6] que é perder o eixo e, portanto, não deve ignorar o risco no horizonte e o benefício do contraditório na arte. O Galpão já deu prova disso em sua incursão pelo romance O visconde partido ao meio, de Ítalo Calvino, recriado pela direção do ator Cacá Carvalho em Partido (1999), até hoje a montagem mais “impopular”, possivelmente o “fracasso de público” mais produtivo para o crescimento de seus  atores na cruzada pela década seguinte e por outras que virão[7].



[1] Beto Franco e Rodolfo Vaz não participaram dos espetáculos.

[2] Tio Vânia (aos que vierem depois de nós) estreou em 8 de abril de 2011, no teatro Bom Jesus, dentro da programação do Festival de Curitiba. Elenco: Antonio Edson, Arildo de Barros, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Paulo André e Teuda Bara.

[3] Argumentos extraídos de análise publicada originalmente pelo autor do artigo no blog do Teatrojornal- leituras de cena, em 11 de abril de 2011.

[4] O espetáculo Tio Vânia (aos que vierem depois de nós) foi apresentado de 3 a 20 de novembro de 2011 no Sesc Vila Mariana, São Paulo.

[5] Eclipse estreou em 3 de dezembro de 2011, no Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte. Elenco: Chico Pelúcio, Inês Peixoto, Julio Maciel, Lydia del Picchia e Simone Ordones.

[6] “(…) assumimos o risco do mergulho em uma linguagem que não nos era familiar. O risco de buscar um espetáculo que diga algo para nós, inseridos no presente, mas com olhos no futuro. Um risco que dê sentido ao nosso trabalho”, lê-se no programa de Eclipse.

[7] “Como toda a experimentação de valor, a ficha demorou algum tempo para cair e, vendo a montagem com os dias de hoje, acho que o Partido nos ajudou a ser mais simples nas coisas, a querer interpretar menos e ser mais. (…) Cacá nos ajudou a desconfiar das emoções e desconstruir certa idealização romântica do mundo do teatro”. Eduardo Moreira, Grupo Galpão: uma história de encontros, Belo Horizonte:, DUO Editorial, 2010, p. 105).

revistas

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(Artigo publicado originalmente na revista online Sala Preta, do Departamento de Pós-Graduação em Artes Cênicas da ECA-USP, v. 1, ed. 12, 2012, seção Dossiê Espetáculo)

 

No limiar da sua segunda década de história, o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos elabora na cena a passagem dos tempos próprio e ancestral. Em Orfeu mestiço: uma hip-hópera brasileira, parte dos atores remanescentes da origem do grupo, no ano de 2000, inscreve no corpo, na palavra, na voz, na escuta e na percepção de mundo a maturidade colhida no percurso. O traço mais distintivo nesse novo trabalho é a capacidade de deslocamento da urgência da cultura urbana do asfalto, burilada como linguagem, para o chão das tradições populares, principalmente das bordas rurais, desbravando outras pulsações e saberes do Brasil também índio, negro, caboclo, camponês.

 

O caminho não é exatamente novo, se considerada a afirmação da ascendência africana, portanto afro-brasileira, na base dos espetáculos e intervenções anteriores. Releituras de romance, poesia ou dramaturgia clássica, além de dramaturgia vertida essencialmente do seio do grupo, essas variantes do repertório sempre assimilaram, em alguma medida, aspectos culturais e sagrados. Agora, o coletivo avança, temática e formalmente, na extensão do território imaterial, alcançando contornos de uma nação quilombola, maracatu, irmanada. A fala-canto e o gesto-sonoro dos centros e periferias metropolitanas saíram do eixo primordial da cena para coexistir com outros vetores da formação brasileira, tornando os processos assumidamente mais complexos e anacrônicos, no sentido do tempo disposto e lido em fragmentos.

 

Para um projeto gestado na cidade de São Paulo, coração do capitalismo financeiro no país, é notável a abertura desses artistas para conversar com a tradição de outras paragens sem folclorizá-la, implicando, naturalmente, o que ela possui de desordem, como observa Antônio Risério:

Folclore é uma invenção das elites dirigentes, que foram etnia dominante na colonização do Brasil. Não existe folclore, existe cultura. Quando falamos em tradição, é melhor situar o problema num quadro mais amplo. O que interessa é a apropriação de realidades distantes, seja no tempo ou no espaço, verificando o modo como essa apropriação se dá em função de um presente social e com que objetivo ela se processa. (Risério, 1998, p. 250)

 

A dramaturgia e a direção assumem as quebras narrativas, a superposição de vozes, de imagens, o naco de fábula, a gravidade da pauta histórica revisitada – a ditadura cívico-militar –, enfim, estilhaçam a expectativa do gênero musical, quando se trata de Núcleo Bartolomeu, e permitem divisar outras partituras poéticas para além da cena. A autorrepresentação convicta em Acordei que sonhava, de 2003, e em Frátria amada Brasil: pequeno compêndio de lendas urbanas, de 2006, dessa vez soa apascentada, sem prejuízo da contundência, ao contrário.

 

O dilaceramento também é depreendido nas miudezas. A dor do outro fica patente na mediação do idealista e depois juiz Orfeu, em sua sede de justiça amortecida e depois reavivada; da brava professora Eurídice que não se deixa subjugar ao menor obstáculo, vide a determinação em erradicar o analfabetismo ou combater o regime opressor. Eles, Orfeu e Eurídice, a despeito da aura mítica presumida, se revelam personagens plausíveis e palpáveis no imaginário do povo brasileiro, esse oceano. O argumento tece, nos planos da realidade, da memória e do imaginário, a trajetória de um homem colocada no retrovisor ao receber a notícia da exumação do corpo da mulher desaparecida, precipitando sombras e infernos que não foram apagados.

 

Identidade, nação… A essa altura, “antropologizar”[1] o teatro, e vice-versa, pode ser uma livre associação atentadora. Porém, a escola de Eugenio Barba não constitui premissa nos procedimentos do grupo paulista adepto da estrutura épica desde que veio ao mundo. Ainda assim, Orfeu mestiço abre uma fresta considerável nessa perspectiva, provavelmente consciente. A interdisciplinaridade faz com que o sincretismo ritual tateado em experiências como Manifesto de passagem: 12 passos em direção à luz, de 2007, uma evocação à heteronomia de Fernando Pessoa, floresça aqui organicamente, dando lastro ao sujeito histórico e assegurando-lhe alguma unidade de subjetivação nas franjas do distanciamento. Há uma interioridade espiritual, um tom hierático no modo como os personagens e as figuras da peça resistem e insistem em tomar as rédeas diante dos contratempos vindos de fora, advindos da realidade invariavelmente em estado bruto.

 

São as atrizes protagonistas, mesmo quando em papéis masculinos (longe de reduzir à questão de gênero), as âncoras desses estados cosmogônicos que perpassam os elementos documentais e realistas dos quais essa história também é provida. Daniela Evelise (como Eurídice), Roberta Estrela D’Alva (como mestre de cerimônia, MC, e Griot) e Luaa Gabanini (como Maria Alice, Mãe do Dops) conspiram para desviar dos códigos fortíssimos da palavra e da música na cultura hip-hop: uma poesia outra, uma instância paralela e mais profunda entre a forma e o instante de criação. E esse horizonte é artaudiano:

 

Os processos mentais colocam em jogo forças elementares que estão na origem do cosmos. De um combate primordial, que o poeta vive em si mesmo, emergem as formas, que serão, por sua vez, devoradas por esse mesmo fogo. As palavras são expressões temporárias e evanescentes de um processo que lhe é subjacente. O ato artístico repete, num certo nível, o ato mítico da criação. Daí a proximidade entre a arte e o rito. (Quilici, 2004, p. 102).

 

As cosmogonias pedem ritualizações e a celebração órfica na escrita e na direção de Claudia Schapira potencializam esse lugar. Para tanta agonia que acomete o cidadão e o país em sua linha histórica, nos séculos de memória escrava ou nas analogias da contemporaneidade, há um eu-lírico, um nós-lírico que ajudam a suplantar com arte.

 

Observando o panorama retrospectivo do núcleo a partir da plataforma de 2012, o atual resultado parece mais representativo do que as produções citadas, quando imbuídas da discussão da identidade no país. Em Orfeu mestiço, a edição do vasto material levantado em cerca de três anos de pesquisa valoriza o discurso por meio da cena. A consciência crítica não está restrita à persuasão do rap. O silêncio é tão rumoroso quanto. Um blues sincopado pinta no ar a melancolia existencial do jovem Orfeu em seu labirinto, no que a interpretação acústica de Cristiano Meirelles, investida de sutilezas, dialoga com o seu duplo na vida adulta, por Eugênio Lima, DJ com contornos de pensador mesmo quando postado atrás dos toca-discos.

 

A disposição dominantemente coral e musical da cena de Orfeu mestiço guarda parentesco com a historiografia teatral brasileira em criações que retrataram grandes painéis históricos, políticos e sociais, justo no período da ditadura. Basta lembrar de Arena conta Zumbi e Arena conta Tiradentes, dobradinhas de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri; de Morte e vida Severina, o poema épico de João Cabral de Melo Neto musicado por Chico Buarque; ou ainda a Feira Brasileira de Opinião, que reunia textos de dramaturgos de proa, prenunciava manifestos diante do estado de coisas e, claro, foi censurada. Décio de Almeida Prado assim resumiu as peças ali previstas e depois publicadas em livro:

 

Falam de índios que são expulsos das matas pela civilização, de loterias esportivas e seus improváveis ganhadores, de perseguidos políticos que se despedem das amadas ao som de feiras livres e não de cotovias shakespearianas, de linchamentos realizados sem ao menos uma autêntica convicção sanguinária, de pobres camponeses explorados na cidade grande, de falsos moralistas, de publicitários que escondem no trabalho as suas frustrações morais e intelectuais, de um imenso túnel escuro que estaríamos atravessando… (Prado, 1978, p. 14)

 

No subtexto ideológico do Núcleo Bartolomeu, o braço erguido e o punho cerrado alinham-se à causa

da revolução, em seu sentido pleno, pelos que tombaram lutando contra regimes de exceção no passado, em defesa dos direitos humanos, políticos e sociais. A causa é ressignificada diante dos paroxismos da democracia no século XXI, suas fissuras violentas, por vezes, mais cruéis do que nos anos de chumbo – o engajamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e os resquícios do coronelismo estão entre os exemplos de atualização. Os versos do prólogo já evidenciam o desejo artístico de incitar “A quem nos assiste,/ a se juntar à nossa insistência-teatro/ por dizer o indizível/ Por dar forma ao indefinível/ Levantando o estandarte (trágico se não fosse cômico) da encenação”.

 

É nas raias da inventividade cênica que o coletivo mergulha para renovar fôlego. A polissemia de lei nas expressões sonoras e vocais vê acrescentada uma poderosa camada de projeções em vídeo por entre os filós que vão e vêm no cenário de Daniela Thomas. A iconografia de Tatiana Lohmann e ZoomB Laboratório Audiovisual amplia o efeito sampleador do que é memória e ato interativo com o espectador. Esses tules transparentes tiram o véu da história, fornecem documentos ou subsidiam a ficção.

 

Nessa liturgia, os músicos-ogãs do conjunto Treme Terra apoiam os ritos com sua energia juvenil cúmplice nos desfazimentos dos quadros não-lineares. Caminham, cantam e seguem a canção (Geraldo Vandré é citado diretamente) sob a órbita da contadora Estrela D’Alva, que faz as vezes de corifeu ou griot, como se postada simbolicamente à frente de um congá. As atuações de Estrela D’Alva e Gabanini são oferendas à parte na ventura desse espetáculo. Como cofundadoras do grupo, as atrizes permitem verificar a evolução de seus registros, a apropriação de nuances outrora ofuscadas pela incisão do gesto ou da voz na figura do MC.

 

Ambas pulsam esse domínio técnico e poético no momento em que se desdobram na respiração de Eurídice diante dos fantasmas pós-decretação do AI-5, equalizando a quimera e a tragédia conforme uma Antígona, uma Ifigênia ou uma Medeia tomadas por palavras-sintomas, premonitórias, sacrificais, atávicas. Essa composição sintetiza a ascensão de Luaa Gabanini como a mãe italiana anarquista que delata o envolvimento da filha com a guerrilha, por temer sua vida, contradição instintiva da qual não se arrepende ou se justifica. Roberta Estrela D’Alva também abre as portas para consolidar o perfil multifacetado de seu mestre de cerimônias de extrações indígenas, negras, no limite do transe e das habilidades performativas que a atriz domina com peculiaridade. Sua fé é de artesã, como ilustra Marcelo Moura Mello para lembrar o apuro dos quilombolas ao sagrar as rodas:

 

Como a mão do oleiro na argila, o narrador imprime sua marca na narrativa, seja por sua gestualidade, que sustenta o fluxo do que é dito, seja pelos ensinamentos morais que as experiências tecidas por sua narração contêm. (Moura, 2012, p. 74).

 

Na invocação e culto aos antepassados indígenas, a atriz Daniela Evelise complementa a travessia da peça em honra aos espíritos dos mortos. Sua Eurídice absorve a sabedoria ancestral na práxis cidadã, em que pese o trágico desaparecimento sob tortura. Ao final, a atriz entoa um canto que já não pertence tão somente à mitologia, mas à mística. Um canto da etnia yny karajá em saudação ao massacre dos sem-terra em Eldorado dos Carajás, no Pará. Nesse desfecho, em questão de minutos, desenha-se a gênese sangrenta do Descobrimento do Brasil perpetuada na aldeia, no campo e no asfalto. Além da denúncia, o espetáculo se permite acessar o poder da diversidade cultural deste solo que “a cada passo do tempo está sendo lapidado”, e a duras penas, como o teatro pode sentir, cantar, falar e pensar.

 

PS: O título do artigo é uma ciitação ao livro A cosmo-agonia de Augusto dos Anjos (HELENA, Lucia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1977).

 

Bibliografia

 

Mello, Marcelo Moura.  Reminiscências dos quilombos: terreiros da memória em uma comunidade negra rural. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2012.

 

Prado, Décio de Almeida (prefácio). Feira brasileira de opinião: a feira censurada. Vários autores. São Paulo: Global Editora, 1978.

 

Quilici, Cassiano Sydow. Antonin Artaud: teatro e ritual. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2004.

 

Schechner, Richard. In: Pavis, Patrice. Dicionário de teatro. São Paulo: Editora Perspectiva, 1999.

 

Reportagem

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Reportagem

Esta monografia configura-se como um estudo de caso sobre as críticas publicadas em torno do espetáculo Apocalipse 1,11, criação do Núcleo de Pesquisa Teatro da Vertigem, encenado em São Paulo entre 1999 e 2000. São analisados artigos veiculados pela imprensa escrita (jornais e revistas) ou pela rede mundial de computadores, a Internet, com o objetivo de encontrar bases para um recorte das dificuldades do exercício da crítica no Jornalismo Cultural praticado nas capitas de São Paulo e Rio de Janeiro, entre o final dos anos 90 e este início de nova década e milênio. O documento constata um distanciamento do crítico contemporâneo diante de montagens que se utilizam de linguagens à margem da convenção do espaço ou da dramaturgia, por exemplo. O crítico precisa ler o seu próprio corpo antes de interpretar aquilo que lhe é expressado em cena. Do contrário, sobrepõem-se ruídos ao diálogo.