Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.
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21.5.2012 | por Valmir Santos

O dramaturgo Jorge Andrade, cuja obra é evocada no Tusp – Divulgação
Em meio ao turbilhão do centenário de nascimento de Nelson Rodrigues (1912-1980), o Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp) demarca a efeméride de outro importante nome da dramaturgia brasileira moderna. Jorge Andrade nasceu em Barretos (SP) em 21 de maio de 1922, ou seja, se vivo, completaria hoje 90 anos.
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21.5.2012 | por Valmir Santos

Valor Econômico, 21/05/2012, Caderno Eu & Cultura
Por Valmir Santos | Para o Valor, de São Paulo
Em meio ao turbilhão do centenário de nascimento de Nelson Rodrigues (1912-1980), o Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp) demarca a efeméride de outro importante nome da dramaturgia brasileira moderna. Jorge Andrade nasceu em Barretos (SP) em 21 de maio de 1922, ou seja, se vivo, completaria hoje 90 anos.
Jorge Andrade – 90 anos – (re)leituras oferece uma série de encontros gratuitos que combinam apresentações de núcleos artísticos e reflexão teórica do legado do autor. Para o dramaturgo, o teatro deve apresentar o homem através da história, registrá-lo no seu tempo e no seu espaço, sem maniqueísmo. Suas peças investigam o passado para compreender e explicar o presente, como mostram A moratória, Vereda da salvação, Os ossos do barão e Rasto atrás, entre outras escritas durante as décadas de 1950 e 1970.
A decadência das elites rurais e urbanas e a formação de uma nova sociedade, protagonizada pelo imigrante e pelo ciclo industrial, estão nessa dramaturgia. O professor de literatura e historiador João Roberto Faria afirma que Andrade aborda a constituição da estrutura social do que ele chama de “civilização paulista”, nascida da ligação do campo e da cidade, alicerçada sobre o dinheiro do café, “numa mesma expressão econômica e política”.
“No passado remoto, essa ‘civilização paulista’ originou-se com os bandeirantes que procuraram as minas de ouro e pedras preciosas. O tema está em O sumidouro, que gira em torno de Fernão Dias e seu filho mameluco, peça que mostra ‘o começo da formação das elites paulistas’. Depois, com ‘Pedreira das Almas’, chega-se ao esgotamento do ciclo do ouro, início do ciclo do café com a ida do personagem Gabriel para São Paulo, onde serão formadas as grandes fazendas. O fim desse ciclo está em A moratória, que anuncia, por outro lado, o início do ciclo da máquina”, diz Faria.
Quanto às peças rurais, Escada expõe a decadência da elite paulista, ao passo que Os ossos do Barão diverte com seu efeito cômico e ensina com o seu registro histórico da ascensão do imigrante, da formação de uma nova elite econômica industrial.
O fluxo consciente dessa abrangência é elaborado pelo próprio Andrade no volume Marta, a árvore e o relógio (1970), no qual reúne dez dos seus textos mais expressivos e faz pequenas modificações a fim de compor um conjunto épico – a saga vivida por famílias que se relacionam desde o século XVII, época dos bandeirantes, até o final do séc. XX. Trata-se de “uma epopeia dramática monumental”, nas palavras do ensaísta e crítico alemão Anatol Rosenfeld (1912 – 1973), para quem o autor “acrescenta à visão épica da saga nordestina a voz mais dramática do mundo bandeirante”. Uma construção feita com “o desenho dos monumentos pacientemente elaborados”, diz o crítico Sábato Magaldi. Ou ainda o “mais orgânico e talvez único ciclo dramático, na acepção do termo, que o teatro brasileiro produziu até agora”, diz o professor e editor Jacó Guinsburg.
Para Rosenfeld, a simbologia do título do catatau está na imagem do relógio parado em alusão ao tempo estagnado da decadência, à indolência e incapacidade de ação, a uma relação distorcida da realidade. A árvore sugere as raízes, a visão orgânico-histórica que associa o crescimento e o futuro às origens enquanto evoca o movimento cíclico das estações, além de representar o peso do passado e das gerações de ancestrais das quais tantos personagens procuram se libertar. Marta, por sua vez, é a protagonista de As confrarias, no passado colonial, convertida em empregada em O sumidouro, no passado remoto.
Andrade chegou a dizer que tinha escrito não dez, mas uma só grande peça em dez partes. E que elas deveriam ser encenadas em dez dias seguidos. Isso nunca aconteceu. O evento no Tusp lê o ciclo completo, debate peças fora dele e mira outras dimensões da obra. “Tanto as palestras como as leituras dramatizadas retomam sempre a ideia de uma organicidade inalienável da obra como um todo. Os ecos mútuos entre dramaturgia, jornalismo e teledramaturgia são importantes”, afirma a professora e pesquisadora de artes cênicas Elizabeth Azevedo, uma das organizadoras do evento.
“Jorge sempre foi reconhecido pela crítica como um dos mais importantes autores do teatro brasileiro, mesmo que seus textos não frequentem os palcos com maior assiduidade, como merecem. Por outro lado, sua obra tem sido objeto constante de análises acadêmicas, gerando inúmeras dissertações e teses.”
Uma passagem biográfica do início dos anos 1950 dá notícias de como o teatro atravessou a vida de Andrade, morto em 1984 aos 61 anos. Aos 28 anos, saiu da fazendo do pai, na região de Barretos, desgostoso com o trabalho de fiscal de plantação de café. Rumou para Santos disposto a sumir no mundo em algum navio, uma vez que desistira do curso de direito e descartara a carreira militar. No caminho, parou em São Paulo, assistiu a um espetáculo com Cacilda Becker, conseguiu conversar com a atriz e disse que queria ser ator. Percebendo seu potencial para dramaturgo, aconselhou Andrade a entrar na Escola de Arte Dramática. Eis o ponto de mutação. Descendente dos fazendeiros estabelecidos em São Paulo com o fim do ciclo do ouro em Minas, tendo presenciado a derrocada de sua classe social, casado mais tarde com uma legítima paulista quatrocentona, coube ao dramaturgo articular a memória pessoal e a memória familiar para semear o seu diálogo forte e incisivo.
Jorge Andrade – 90 anos – (re)leituras
Tusp – rua Maria Antônia, 294, Consolação, SP, tel. (11) 3123-5233 ; leituras: ter. e qua., às 19h30; palestras: qua., às 16h. Grátis. Até 6/6. Info: www.usp.br/tusp
12.4.2012 | por Valmir Santos

A companhia foi criada em 2000 e seu quarto espetáculo, 32 rue Vandenbranden (2009), talvez seja o que melhor traduza filosófica e cenicamente o seu nome: Peeping Tom. Segundo a lenda britânica de Lady Godiva, do século XXI, a mulher do administrador de uma cidade pedia a ele para baixar os impostos dos camponeses e o marido só o fez sob a seguinte condição: se desfilasse nua sobre um cavalo. Abraçada à causa, lá foi ela. Calhou de Peeping Tom ser o único par de olhos masculino a mirar aquele corpo, ainda que sob as frestas de uma janela, e por isso perdeu a visão. A condição de voyeur é trabalhada no palco sem o automático enquadramento temático e formal do cinema, mas fazendo uso dessa linguagem em sua transcendência pelas imagens, pela atmosfera etérea, conduzindo o espectador a uma viagem original em procedimentos da dança e do teatro rumo à ascese. Leia mais
21.3.2012 | por Valmir Santos
Terminou ontem minha participação no júri do Prêmio Shell de Teatro em São Paulo. Foram nove anos de mais angústia no início do que no final da “gestão”. Na noite de entrega, o momento mais difícil é o intervalo em que a comissão se reúne, cerca de duas horas antes, para definir os vencedores entre os indicados nos primeiro e segundo semestres do ano anterior. Leia mais
17.3.2012 | por Valmir Santos
Valor Econômico, 16, 17 e 18/3/2012, Caderno Eu & Fim de Semana (pp. 18-21)
Valmir Santos | Para o Valor, de São Paulo
Não era fácil ser filha de Procópio Ferreira em 1941, quando ela estreou como intérprete e contava apenas 18 anos ao contracenar numa peça satírica justo com o então primeiro-comediante do país. Bibi Ferreira foi aplaudida em cena aberta assim que pisou o tablado do Theatro Serrador, na Cinelândia carioca, em 28 de fevereiro de 1941. Ovacionada e com os mimos de flores depositados ao pé da ribalta, ela teve que dizer a que veio, em seguida, no papel de uma dona de estalagem em La locandiera, peça do italiano Carlo Goldoni, do século XVIII, filiada à commedia dell’arte e cujo título foi adaptado como O Inimigo das Mulheres por Gastão Pereira da Silva.
Foi desafiador desvencilhar-se do fardo que os jornais lançaram sobre suas costas depois da estreia em que se “revelou de fato uma artista que é a continuação da glória paterna”, “confirmando as leis do atavismo”, como se leu. Talvez o escritor Austregésilo de Ataíde (1898-1993) tenha sido o mais visionário. “Ela aparece completa, num papel de difícil interpretação, e o faz com tanta simplicidade, perfeição e graça que se diria estar ali não uma aprendiz, mas uma mestra”, escreveu no Diário da Noite.
A carioca Abigail Izquierdo Ferreira olha para aquele início de carreira, 71 anos atrás, com a mesma inerência com que debutou quando era moça, escudada por Procópio Ferreira (1898-1979) e acostumada aos palcos desde os 24 dias de vida, quando substituiu uma boneca desaparecida nos bastidores de um espetáculo em que atuavam o pai e a mãe, a corista espanhola Aida Izquierdo.
Prestes a completar 90 anos, em 10 de junho, a atriz e cantora Bibi Ferreira põe suas histórias pessoal e artística em ressonância ao conversar com o Valor sobre o próximo espetáculo, batizado tão somente com seu primeiro nome e escalado para reabrir no dia 27, Dia Internacional do Teatro, o Teatro Tereza Rachel em Copacabana, zona sul do Rio. O agora rebatizado Theatro NET Rio é o mesmo edifício onde estreou em dezembro de 1975 a histórica montagem de Gota d’água, dirigida por Gianni Ratto e escrita por Paulo Pontes e Chico Buarque, que verteram a tragédia Medeia, de Eurípides, para o cotidiano miserável de um conjunto habitacional brasileiro.
Bibi reputa ao papel da lavadeira Joana/Medeia um dos momentos mais profícuos da carreira, desenvolvendo plenamente seus potenciais de corpo e voz ao lado de Oswaldo Loureiro, Luiz Linhares, Roberto Bonfim, Bete Mendes, Sonia Oiticica e outros. Voz que, afinal, se tornou o instrumento de trabalho por excelência da atriz e cantora, como dará prova o show Bibi, uma compilação de composições clássicas popularizadas por Edith Piaf e Amália Rodrigues, além do repertório brasileiro a ser completado por Noel Rosa, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Ela estará acompanhada por uma orquestra de 27 músicos, sob a regência de Flavio Mendes, parceiro musical há 28 anos.
Fundado em 1971, fechado em 2001 e transformado em igreja evangélica até 2008, quando passou a ser locado para ensaios de produções musicais, o espaço localizado na sobreloja do Shopping Cidade Copacabana foi arrendado em 2011 por dez anos. Os irmãos e produtores culturais Frederico e Juliana Reder, da Brainstorming Entretenimento, alegam razões contratuais para não revelar o investimento no Theatro NET. Os idealizadores querem reavivar o endereço na agenda cultural, a começar por reeditar alguns nomes que já passaram por lá, como Gal Gosta e agora Bibi. Serão duas salas de espetáculos, uma com 789 lugares e outra com 200.
Quando as tradicionais cortinas vermelhas se abrirem no palco principal, Bibi Ferreira ocupará o centro para irradiar seu canto dramático que já se pronunciava desde a brejeira comediante estalajadeira de 1941, com sua “dicção perfeita, voz de tonalidades sempre gratas, inflexões convincentes sempre”, como comentou o jornalista Mario Nunes no Jornal do Brasil.
Bibi não gosta de falar longamente ao telefone por motivos óbvios: preservar a qualidade orgânica do som produzido pelas vibrações das pregas vocais sob pressão do ar que percorre a laringe. Em quase uma hora, porém, essa mulher que pede para não ser tratada por senhora – tem uma filha, dois netos, dois bisnetos e a experiência de cinco casamentos (entre eles, com Paulo Pontes) -, essa atriz se permitiu uma prosa generosa com a reportagem. A ponto de interpretar uma fala de Gota d’água, para deleite do interlocutor, que imaginava sua Joana entrando em cena lá pelos 35 minutos de peça, vestida de preto, em silêncio, caminhando lentamente, ombros caídos, deprimida, mas com o rosto altivo e os olhos faiscando, conforme a rubrica dos autores. Isso antes de soltar o vozeirão.

Valor: Costuma ser mais conhecido o forte vínculo artístico com seu pai. Fale-nos de sua mãe, que também era artista e tinha nome de ópera, Aida Izquierdo Ferreira.
Bibi Ferreira: Ela era corista de teatro, uma profissão que não tinha muito relevo à época do teatro de revista. Atuou bastante junto à companhia espanhola Velasco. Era uma moça muito bonita, tinha uma cara maravilhosa, fazia muito sucesso. Uma pessoa muito exigente comigo. Já eu, na minha mocidade, era mais largadona, não ligava para as coisas, não me arrumava suficientemente bem para ir aos lugares, como nos bailes aos sábados. Uma vida ingênua, pode-se dizer pacata. Pois Aida foi uma grande mãe, me fazia estudar muito no colégio durante a semana e ainda tinha bons professores de idioma, de piano. Não me deixava me divertir muito, a coisa era na base do estudo [entre 4 e 14 anos participou de óperas e balés do Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio]. Tive uma juventude bem ferrenha. Aprendi a ser muito disciplinada, sou exigente com meu trabalho e com as pessoas que estão ao meu lado. É inato, não tenho dificuldades quanto a isso.
Valor: Vem daí seu apuro vocal?
Bibi: Eu agradeço eternamente a Deus, a cada instante da minha vida, por ter me dado essa voz, por me conservar essa voz até esta idade. Você não me pega numa voz boa agora [17 horas] porque acabei de levantar, mas tenho uma voz precisa, uma dicção que me permitiu encarar até árias em algumas óperas.
Valor: Qual é a expectativa de retornar ao antigo Tereza Rachel?
Bibi: O agora Theatro NET é o lugar onde me reencontro com coisas muito bonitas que fiz, entre elas a estreia universal de “Gota d’Água”. Foi um espetáculo difícil, grandioso, com todas as danças e cantos, mas resultou uma experiência muito linda, muito rica. Guardo na memória esse trabalho, talvez uma das coisas mais belas que já fiz, principalmente por ser uma obra brasileira. Em plena ditadura militar, era muito bom poder dizer algumas verdades, principalmente em relação às queixas do povo. Gota d’água revelava os lados sombrios e trágicos da realidade por meio de Joana e seus vizinhos. Havia o conteúdo social e político, mas sobretudo a qualidade literária do que eu dizia. Era uma maravilha mandar para a plateia aquele texto glorioso, vigoroso, nada transparente, desejando, enfim, a grande liberdade da qual no momento estávamos degolados. Lembro-me que o Paulo e o Chico iam constantemente a Brasília, a censura cortava um pouco aqui, outro acolá. O Paulo e o Chico viviam uma situação horrorosa, cortavam a ponto de não terem mais nada a dizer, o texto ficava aguado. Até que, passado certo tempo, conseguiram emendar mais ou menos aquelas partes e, ainda assim, criaram uma obra realmente maravilhosa. Você quer ouvir um trecho? Ainda me lembro [interpreta os versos dramáticos da passagem em que Joana despacha os filhos com bolinhos de carne envenenados para a noiva do ex-companheiro Jasão, iguaria que acabam ela mesma e a prole comendo]: “Eles pensam que a maré vai mas nunca volta/ Até agora eles estavam comandando/ o meu destino e eu fui, fui, fui recuando,/ recolhendo fúrias. Hoje eu sou onda solta/ e tão forte quanto eles me imaginam fraca./ Quando eles virem invertida a correnteza,/ quero saber se eles resistem à surpresa,/ quero ver como eles reagem à ressaca”. Os solilóquios são todos muito bonitos. “O pai e a filha vão colher a tempestade/ A ira dos centauros e de pombagira/ levará seus corpos a crepitar na pira/ e suas almas a vagar na eternidade”. Há uma força incrível nessas palavras. Eu sempre canto esses dois fragmentos em meus shows e os emendo à canção que dá nome à peça.
Valor: No novo show, você será acompanhada por 27 músicos. Está familiarizada com orquestras?
Bibi: Cantar com orquestra é sempre difícil. Ela não acompanha, é você que acompanha ela. Não é nada fácil o entrosamento entre cantor e conjunto, é uma coisa séria, há muita apreensão. Flavio Mendes, por exemplo, é um regente que me dá muito apoio, conhece muito bem a partitura, um estudioso ao lado do qual me sinto muito segura.
Valor: Após a Joana de ‘Gota d’água’, outra atuação tida como memorável se deu em ‘Piaf – A vida de uma estrela da canção’ (1983), de Pam Gems, dirigida por Flávio Rangel. Vê em sua trajetória alguma correlação com a daquela também atriz e cantora francesa?
Bibi: Eu não tenho nada a ver com a Piaf, com o temperamento dela, com a maneira como ela levou a vida e a carreira. Não temos nada em comum. Eu venho de um ambiente familiar, como posso dizer, muito seleto. A Piaf é de um ambiente muito boêmio, sem educação nenhuma. Eu tive um cuidado imenso com minha educação. Aos 12 anos, Piaf estava cega por causa de tanta sujeira nos olhos, era uma pobre menina a quem ninguém ligava. Foi um milagre essa criaturinha se recuperar e fazer arte, apesar da vida desorientada. Agora, quando piso o palco, aí sim tenho que entrar nessa personagem de forma muito marcada, desenhada. Ela teve muitos rasgos na vida, um temperamento muito rico, um manancial para quem vai interpretá-la. Sabe que até hoje, em todo show, o público pede uma canção de Piaf? Posso estar fazendo temporada só com os fados de Amália Rodrigues, por exemplo, aquela prosódia castiça do começo ao fim, e de repente, pode contar, alguém pede Piaf. Isso acontece sempre, independente do roteiro, por isso vou preparada para o final [bisa invariavelmente com os clássicos La vie en rose ou Non, je ne regrette rien]. Vivo há mais de 30 anos à custa dela.
Valor: Como a jovem Bibi se sentiu estreando profissionalmente numa comédia de Goldoni e ao lado do pai, um comediante de mão-cheia?
Bibi: Um dia, meu pai pediu licença à minha mãe para saber se eu poderia tentar estrear como artista no teatro. Minha mãe disse que sim, inclusive preocupada em ter o pai e a filha mais juntos. A estreia aconteceu no dia 28 de fevereiro de 1941. Eu fazia o papel cômico de Mirandolina num clássico da commedia dell’arte, o mesmo que a italiana Eleonora Duse [1858-1924] representou. Papai teve sorte porque a filha realmente tinha condições de ser artista. Não é só querer, requer muita coisa, principalmente a voz. Tem que ter uma voz forte no teatro para ser ouvida na última fila com naturalidade, sem microfone. Isso é muito difícil. Alguns nascem com mais facilidade para fazê-lo, outros não. Falar de modo afável, cordial, e 800 ou 1.500 poltronas depois te ouvirem, isso só se alcança com a voz bem colocada. E naquela época eu vinha de estudar dança no Municipal, tinha facilidade para a movimentação cênica. A peça La locandiera se passava na Idade Média, requeria maneirismos diferentes de hoje, e nisso a dança facilitou muito. Além de tudo, tinha papai me ajudando, me dando instrumentos para o ofício. E tinha minha mãe que me punha para estudar, para ler o texto no original.
Valor: Considera o palco um território sagrado, como se diz?
Bibi: Não vejo palco como território sagrado, acho que é um espaço natural. É minha profissão, eu preciso daquilo como um jornalista precisa de uma máquina de escrever ou de um computador. Isso serve para o médico, o advogado e todas as demais profissões. Todo ser humano tem uma ligação com o lá em cima [o divino], mas não é só isso. É uma ligação também de obrigação, de fazer seu trabalho correto, com ética, e não levá-lo na valsa. Daí a importância de ensaiar, de estudar muito por respeito a esse consumidor que é único ao comprar o produto sem ter assistido antes: o público de teatro. O palco é meu aparelho, é uma coisa muito séria, precisa funcionar muito bem. É difícil atingir 2.500 lugares da plateia sem microfone. O palco é um lugar ao qual a gente tem que se entregar inteiramente. A memória é outro aspecto importante, a concentração. Você tem que se distanciar de si própria; deixar você no camarim e entrar em cena como personagem. A capacidade de memorizar o texto ainda hoje é uma dádiva que agradeço todos os dias, ao mesmo tempo em que me dá muito medo porque a memória pode falhar. Eu trato de estudar muito para ver se aquilo fica no subconsciente. É daí que sai com mais facilidade a letra ou o texto. No inconsciente, você fica procurando, é uma luta muito grande com a palavra, é muito arriscado.
Valor: Você já esboçou ou tem vontade de escrever uma autobiografia?
Bibi: Não. Não tenho vontade de colocar minhas memórias no papel. Não acho graça escrever. Sabe por quê? Acho que escrever é um dom. Não é chegar, pegar o bloco e começar, tem que saber escrever. Eu sei o bê-á-bá do que aprendi no colégio. Na verdade, eu já tentei escrever um pedaço da minha vida. Certa vez, ganhei um caderno e me pus a escrever uma cena da minha vida em criança. Saiu tão mal…
Valor: Do que se tratava?
Bibi: Era sobre o começo da minha vida. Morava em Copacabana, a polícia bateu na casa de meu pai e minha mãe, que estavam apavorados, desesperados, e pediam ao policial para procurar a filha que tinha sido roubada, coisa assim. Os policias foram à procura de mim e ninguém tinha me sequestrado coisa nenhuma. Eu tinha apenas 5 anos e saí de casa sozinha. Atravessei a rua Tonelero, onde a gente morava. Atravessei a avenida Nossa Senhora de Copacabana. Alcancei a avenida Atlântica e segui a pé pela orla até o Posto 6.
Valor: Após testemunhar a modernização do país em vários campos, acha que a cultura e a arte são mais valorizadas nos dias atuais?
Bibi: Eu acho que o Brasil não conhece o Brasil. As gerações passadas não têm ideia do que era o teatro de revista, por exemplo. Meses atrás, fui falar com o Eike Batista, levei um “book” muito benfeito para ver se ele me patrocinava um grande espetáculo de teatro de revista para mostrar a essa gente de hoje. Fui gentilmente recebida por uma funcionária dele que explicou que a prioridade do empresário é patrocinar projetos na área da saúde, da medicina, e não projetos artísticos. Eu compreendo, mas tinha vontade de mostrar para o público não uma revistainha, mas uma criação à altura, com uma grande orquestra, muitas coristas, muito luxo em cena. Acho importantíssimo o movimento dos musicais da Broadway, a qualidade com que eles estão sendo feitos no Rio e em São Paulo, mas eu queria mostrar um teatro que já existiu e está extinto. Era um teatro muito nacional, com as características todas brasileiríssimas, que era muito divertido e crítico, exigia investimento grande. Fazer teatro de revista com pouca gente não é o que eu gostaria de mostrar, não era assim nos tempos da praça Tiradentes no Rio.
Valor: Você fala desse projeto como se fosse um sonho.
Bibi: Eu não tenho sonhos. Nunca tive sonhos. Só tenho sonhos quando durmo, e graças a Deus eles são muito lindos. Não tive pesadelos. Não tenho tempo de sonhar, sou uma profissional que tem que pensar sempre o que o povo vai querer. Vivo em constante função de agradar à plateia. Meu trabalho é saber de canção em canção, de poesia em poesia, se o público vai gostar. Vejo as coisas com mais simplicidade, com base na realidade. Eu só vivo pensando no próximo espetáculo. Portanto, se isso tudo for sonho, então eu sonho…
17.3.2012 | por Valmir Santos
O encenador Antunes Filho, no CPT, o Centro de Pesquisa Teatral responsável pela formação de novos profissionais do teatro, que completa 30 anos: “O ator tem que saber que é artista, intelectual, não funcionário do palco”
Valor Econômico, Caderno Eu&, 13 de fevereiro de 2012, p. D1.
Valmir Santos | Para o Valor, de São Paulo
No fim da peça “Nossa Cidade”, do americano Thornton Wilder (1897-1975), um homem já morto compartilha com uma mulher – cujo coração também parou de bater e o fluxo da dramaturgia a faz retornar – o aprendizado de que existir é “mover-se dentro de uma nuvem de ignorância”.
O texto que Antunes Filho vai montar neste ano, no marco dos 30 anos do espaço de formação de novos atores que coordena em São Paulo – o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) -, possui conteúdos e estruturas que refletem uma visão sobre o trabalho de ator e a cena que o envolve: “O ator tem que saber que é artista, intelectual, não funcionário do palco”. A postura do diretor rendeu espetáculos marcantes, como “Macunaíma” (1978), que deu origem ao Grupo Macunaíma; “Nelson 2 Rodrigues” (1984); “Gilgamesh” (1995); e “Fragmentos Troianos” (2000).
“Nossa Cidade” inspira Antunes a criticar a ascendência da cultura de massa e, como cidadão, a perceber com ceticismo o crescimento econômico do Brasil, para o qual sobra “orgia” e falta realidade. Ele mesmo um iconoclasta diante da expressão em arte, da recepção crítica, do sistema de cultura do país e dos comportamentos da sociedade, Antunes trabalha na livre adaptação de “Nossa Cidade”, narrativa conduzida pelo Diretor de Cena, espécie de semideus a pairar sobre as miudezas cotidianas dos moradores de uma pequena cidade no pico de uma colina.
Os três atos da obra de Wilder compreendem os primeiros anos do século XX e perpassam a juventude, o casamento, o estalo da finitude e o revisionismo do caráter, das atitudes e escolhas que pontuaram o tempo de homens e mulheres da classe média americana conservadora e protestante. Quando a personagem da garota aniversariante indaga aos mortos se alguma criatura pode compreender a vida enquanto vive, o Diretor de Cena responde: “Não. Os santos e os poetas, talvez, um pouco”.
Um dos principais renovadores do teatro brasileiro, aos 82 anos Antunes Filho alimenta a mesma obstinação pelo palco assimilada desde o fim dos anos 1950, quando era aprendiz dos diretores estrangeiros do Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, companhia que marcou a experiência moderna no país.
Leia, a seguir, os principais trechos de entrevista concedida ao Valor, na sede do CPT, no bairro da Consolação, em São Paulo.
Valor: Qual a filosofia consolidada pelo CPT nesses 30 anos?
Antunes Filho: O ator tem que saber que é artista, intelectual, não funcionário do palco. Essa é a nossa força no CPT. O meu processo é libertário: liberta das amarras do mal profissionalismo, da má informação. Transmitimos a problemática sobre as artes. Não é simplesmente o palco, mas trabalhar filosófica e moralmente o que significa ser ator.
Valor: Desde o fim dos anos 1990, o CPT deixou de ser um espaço indevassável. As peças das jornadas “Prêt-à-Porter” [formada por três cenas] e a sua postura de delegar a direção e a dramaturgia aos discípulos contribuíram para isso?
Antunes: Claro. Ele [aponta para Emerson Danesi, que o acompanha] é mais responsável pelo “Prêt-à-Porter” do que eu. Ele é o pai, que leva adiante. Passei para ele, mas fico em cima, encho o saco [risos]. A fase anterior era de depuração das técnicas e conteúdos desses anos todos. Era necessário o entendimento para fazer com que as engrenagens se combinassem, se encaixassem completamente. Agora, temos a tese, a antítese e a síntese. E mais algumas coisas [risos]. Somos mais afetados e interessados pelo mundo lá fora. A gente escuta.
Valor: Como se dá o trânsito de um aprendiz do curso do CPT para os espetáculos do Grupo Macunaíma? A rotatividade de atores é um problema para o núcleo?
Antunes: Sempre fica alguém para passar a experiência aos demais. Houve os atores Cacá Carvalho, o Luís Melo, a Juliana Galdino… Sempre tem que ter uma espécie de peixe-guia. Quanto ao curso, a gente provoca os participantes a criar para o “Prêt-à-Porter”. A prova se dá na cena, vemos os melhores. Nem todo mundo tem talento igual. Talento é gradativo, dá muito trabalho. Imagine que uma cena curta pode levar até oito meses para ficar pronta.
Valor: Como vão as pesquisas para a peça “Nossa Cidade”?
Antunes: Estou trabalhando numa adaptação mais ou menos livre, uma coisa meio Derrida [filósofo francês Jacques Derrida, 1930-2004], meio desconstrução, um diálogo com a própria peça, o autor [Thornton Wilder].
Valor: A figura do Diretor de Cena, o olhar para o mundo a partir da província: “Nossa Cidade” possui elementos que instigam em relação ao trabalho que virá…
Antunes: Estou em processo. Sei que é um diálogo com Thornton Wilder. Sei que era um cara legal, ele tem uma tendência crítica muito suave. Afinal de contas, ele está falando também dos EUA, o país mais rico do mundo. Mesmo com a crise econômica, os EUA seguem mandando.
Valor: Como o senhor percebe o crescimento econômico do Brasil?
Antunes: Na hora que o Brasil levar uma fubecada, aí vamos acordar. Porque você viver da terra, do petróleo, da agropecuária é uma coisa. Agora, não estou vendo o Brasil industrialmente em progresso. Não estou vendo as estradas rodoviárias, todas são mal construídas. Nosso superávit, o PIB, vem de onde? Vem da terra e do petróleo? O que estamos fabricando? Nós vendemos a matéria-prima para eles e compramos depois o produto feito? É de uma imbecilidade total. Nós estamos ferrados, bicho.
Valor: Nos bastidores de Brasília, a substituição da ministra da Cultura, Ana de Hollanda, é uma especulação. Um dos cotados seria o diretor regional do Sesc-SP, Danilo Santos de Miranda, que institucionalizou o CPT…
Antunes: Não quero que ele vá.
Valor: Mas ele já declarou refletir sobre essa possibilidade.
Antunes: Sabe por que acho que ele não vai aceitar? Os altos escalões são muito ciumentos e vão criar muita encrenca. Ele vai perder tempo e se desgastar com bobagens pessoais. No Sesc, não, ele está desimpedido. Por que vou cortar as asas dele se ali ele pode ser mais útil para a cidade, para o Estado, para o país?
Valor: O senhor acha que o problema da política cultural no Brasil é de gestão?
Antunes: Você vê o estado de corrupção que o país vive. O protecionismo que existe. A corrupção não é brasileira, mas internacional. O Brasil está num momento perigoso. A turma está numa euforia louca e numa inadimplência louca. Vivemos numa das quatro cidades mais caras do mundo. A realidade não foi contada, a ficha não caiu. Uma hora ela vem. Essa orgia não é eterna.
Texto complementar na edição on-line do mesmo dia:
Neste ano, 700 atores se candidataram às 20 vagas do curso
Por Valmir Santos | Valor Econômico
O Centro de Pesquisa Teatral oferece um curso gratuito e anual de introdução ao método de ator sistematizado por Antunes Filho e seus discípulos ao longo desses 30 anos. Em 2012, foram cerca de 700 inscritos (35 para cada uma das 20 vagas), 310 deles chamados para entrevistas após análise de currículo. A maioria dos interessados vem de faculdades ou escolas de artes cênicas de São Paulo: Unicamp, ECA-USP, Idac, Célia Helena e Escola Livre de Teatro de Santo André.
O espaço é mantido desde 1982 pelo Serviço Social do Comércio, o Sesc-SP, no sétimo andar da unidade Consolação da capital paulista. Já passaram por lá artistas como Luís Melo, Giulia Gam, Marco Antônio Pâmio, Silvia Lourenço e Juliana Galdino.
Antunes diz que esses 30 anos serviram para depurar as técnicas e conteúdos necessários ao entendimento da engrenagem teatral acionada por estudos e estados do corpo, da voz, da filosofia, da espiritualidade, da metafísica e demais variantes. “Hoje, quando tratamos de um tema ou de uma teoria conseguimos estabelecer vínculos facilmente com outras áreas. Antigamente, isso era parcial, não tínhamos o outro lado. Faltava dialética. Agora, temos a tese, a antítese e a síntese. Somos mais afetados e interessados pelo mundo lá fora. A gente escuta”, afirma.
O ator e diretor Emerson Danesi, que trabalha com Antunes há 15 anos, conta que as atividades pedagógicas correspondem também a um laboratório para compor elencos dos espetáculos do Grupo de Teatro Macunaíma, núcleo cooperativo batizado assim após a recriação cênica do diretor para a rapsódia “Macunaíma”, de Mário de Andrade, estreada em 1978. Recentemente, ele adaptou mais dois romancistas brasileiros, Ariano Suassuna (“A Pedra do Reino”) e Lima Barreto (“Policarpo Quaresma”).
Outra demanda do CPT é a série “Prêt-à-Porter”, que vem possibilitando aos egressos dos cursos, a partir 1998, criar peças curtas nas quais são responsáveis por conceber desde os figurinos e objetos de cena até a dramaturgia, tudo sob supervisão de Antunes. Já aconteceram dez edições, cada uma delas abrigando três textos. Essas jornadas viraram o xodó de Antunes, homem teatral até nas falas e gestos: “Às vezes tenho que ser duro para ajudar, não para exercer poder. Posso errar, mas estou a toda. Não paro. Eu tenho que honrar o teatro”.
17.3.2012 | por Valmir Santos
O encenador Antunes Filho, no CPT, o Centro de Pesquisa Teatral responsável pela formação de novos profissionais do teatro, que completa 30 anos: “O ator tem que saber que é artista, intelectual, não funcionário do palco”. Leia mais
17.3.2012 | por Valmir Santos
Não era fácil ser filha de Procópio Ferreira em 1941, quando ela estreou como intérprete e contava apenas 18 anos ao contracenar numa peça satírica justo com o então primeiro-comediante do país. Bibi Ferreira foi aplaudida em cena aberta assim que pisou o tablado do Theatro Serrador, na Cinelândia carioca, em 28 de fevereiro de 1941. Ovacionada e com os mimos de flores depositados ao pé da ribalta, ela teve que dizer a que veio, em seguida, no papel de uma dona de estalagem em La locandiera, peça do italiano Carlo Goldoni, do século XVIII, filiada à commedia dell’arte e cujo título foi adaptado como O Inimigo das Mulheres por Gastão Pereira da Silva. Leia mais
17.3.2012 | por Valmir Santos
No final da peça Nossa cidade, do norte-americano Thornton Wilder (1897-1975), um homem já morto compartilha com uma mulher – cujo coração também parou de bater e o fluxo inconsciente da dramaturgia a faz retornar ao aniversário de 12 anos – o aprendizado de que existir é “mover-se dentro de uma nuvem de ignorância”. O texto que Antunes Filho prevê montar este ano, no marco das três décadas do Centro de Pesquisa Teatral, o CPT, possui conteúdos e estruturas correlacionados à essencialidade que o criador defende para o trabalho de ator e a cena que o envolve. “O ator tem que ser também um intelectual”, diz. A obra inspira o diretor a criticar a ascendência da cultura de massa no país e, enquanto cidadão, a perceber com ceticismo o crescimento econômico para o qual sobra “orgia” e falta realidade. Leia mais
26.1.2012 | por Valmir Santos

O Grupo Teatro de Narradores invade o asfalto para propor uma reflexão sobre indivíduo e coletividade POR VALMIR SANTOS
Qual o lugar do teatro? Essa é a pergunta implícita do espetaculo Cidade fim – cidade coro – cidade reverso, que o Grupo Teatro de Narradores apresenta em sua sede, em um sobrado do Bixiga, no centro de São Paulo. Se na primeira metade da peça o público ocupa uma sala não convencional no segundo andar do edifício, na metade final é levado à calçada, onde vê desfilarem outras cenas que se encadeiam naquelas acompanhadas do lado de dentro. Não é teatro de rua nem teatro “na” rua, mas um misto de intervenção artística e festa comunitária arquitetadas com originalidade na rua Treze de Maio, uma das principais artérias do bairro paulistano.
Dividida em três segmentos, a peça compõe sua dramaturgia poética por meio de estruturas ficcionais e relatos de vida dos moradores da região – como o do ex-operário encontrado morto pelos filhos, o da mãe solteira que trabalha em um bingo clandestino, o do pai assassinado pelo filho, que revida uma agressão. A encenação organiza esse material sem preocupação cronológica ou secura documental, compondo uma cartografia sentimental, histórica e política.
A primeira parte, Cidade fim, projeta um filme rodado pelo grupo sobre a génese do movimento sindicalista, que um entrevistado testemunhou nos anos 80; Cidade coro, o segundo trecho, mistura fontes documentais a outras dramatizadas à maneira do filme Jogo de cena (2007), de Eduardo Coutinho. O terceiro segmento, Cidade avesso, é uma fábula fragmentária sobre amor e abandono, abraçando criticamente o melodrama ao estender o tapete no asfalto, montar uma sala de estar no meio-fio, disparar canhões de luz em todas as direções e pôr o bem preparado quinteto de atores rente aos carros, para a surpresa dos motoristas em mão única.
ADESÃO AO REAL
A nova criação dos Narradores deriva da anterior, Cidade desmanche (2009), em que os temas e as escolhas formais já sinalizavam personagens errantes em sua trajetória. A expedição da vez se abre para eu entorno, mas sem paternizá-lo. A cena posicionada do lado de fora não interdita a rua; antes, se deixa aderir ao burburinho dos passantes, do bar, das buzinas e das precariedades que também dizem respeito ao cotidiano da maioria dos grupos de teatro. Nas calçadas, redefinidas pela encenação, crianças seguem espontaneamente as coreografias, e rostos espectrais surgem nas janelas das casas para assistir. Ecoando o tema da Bienal de Arte de São Paulo, em 2006, “Como Viver Junto”, Cidade fim – cidade coro – cidade reverso funde as dimensões íntima e épica do teatro, e essa arte com a cidade.
VALMIR SANTOS é jornalista e pesquisador de teatro.
O ESPETÁCULO
Cidade fim – cidade coro – cidade reverso. Texto de Lucienne Guedes e José Fernando Azevedo, que dirige a peça. Com Grupo Teatro de Narradores. Espaço Maquinaria (r. Treze de Maio, 240, Bela Vista, SP, tel. 0++/11/3853-3651). Sáb. e dom., às 19h. Até 11/12. Grátis.