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Bravo!

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Em Prometheus – A tragédia do fogo, a Companhia Teatro Balagan expõe a complexidade da saga do titã que rouba o fogo de Zeus. Por Valmir Santos


Poucos mitos da Grécia antiga foram tão revisitados como o de Prometeu. O personagem, que apareceu pela primeira vez nos versos da Teogonia, do poeta Hesíodo, teria roubado o fogo de Zeus. Como vingança, o líder dos deuses do Olimpo acorrentou o titã a um rochedo e fez com que ele fosse fustigado por uma águia durante milhares de anos. Tal história inspirou grandes autores do Ocidente, como Ésquilo, Platão, Goethe, Pirandello, Franz Kafka, Heiner Müller e Machado de Assis. Na primeira incursão pela tragédia clássica em 12 anos de currículo, a Companhia Teatro Balagan bebe de todas essas fontes e propõe uma versão inovadora do mito à luz dos dias atuais em Prometheus – A tragédia do fogo, em cartaz no Tusp, em São Paulo.

 

Na dramaturgia assinada por Leonardo Moreira, mas criada coletivamente e ainda em constante mutação, Prometeu perde o papel de protagonista, função que assume na obra de Ésquilo mais conhecida em palcos brasileiros. Sua saga é contada também por outros personagens que interagem com ele, gerando uma polifonia de vozes. Entre os relatos agregados estão os de Epimeteu, o irmão, os da Águia, que a tudo sobrevoa vigilante, e os de Pandora, primeira fêmea enviada por Zeus, com sua caixa que guardaria todos os males.

 

ATO TRANSGRESSOR

 

O trabalho de multiplicar as vozes não se limita à estrutura narrativa. Na década passada, Antunes Filho foi decisivo para tirar a pompa do gênero trágico e valorizar a linguagem em peças dos clássicos gregos Sófocles e Eurípedes. O projeto da Balagan, encabeçado pela diretora Maria Thaís, vai mais adiante: é um marco no aprofundamento da qualidade do trabalho vocal (preparação feita pelo ator Jean Pierre Kaletrianos). A voz é pilar em intervenções individuais ou por meio do coro. Às poderosas imagens do texto somam-se os cânticos em grego arcaico. São recursos que evitam a simplificação do herói e ampliam os sentidos de seu ato transgressor para incutir reflexão. O espectador nota o desacordo entre a previdência e a imprudência, sejam divinas ou humanas.

 

O uso pouco convencional do espaço distribui a plateia em quatro ângulos. A cenografia de Márcio Medina e a iluminação de Fábio Retti sincronizam movimentos de cena por meio de cortinas, ora em plano aberto, ora fechado. Em sua minuciosa criação, a companhia consegue redimensionar os ritos sacrificais e os vínculos ancestrais, como se os sussurrasse ao ouvido.

 

Valmir Santos é jornalista e pesquisador de teatro.

 

A PEÇA

Prometheus – A tragédia do fogo. Texto de Leonardo Moreira. Direção de Maria Thaís. Com Companhia Teatro Balagan (Antonio Salvador, Gustavo Xella e outros). Tusp (r. Maria Antônia, 294, SP, tel. 0++/11/3123-5233). 5ª a sáb., às 21h; dom., às 19h. R$ 20. Até 4/12.

 
(Texto originalmente publicado na edição número 171 da revista Bravo!, novembro de 2011, p. 28)

Reportagem

Parte do elenco coral da Companhia Teatro Balagan em cena de Prometheus, direção de Maria Thais

Parte do elenco coral da Companhia Teatro Balagan em cena de Prometheus, direção de Maria Thais

Poucos mitos da Grécia antiga foram tão revisitados como o de Prometeu. O personagem, que apareceu pela primeira vez nos versos da Teogonia, do poeta Hesíodo, teria roubado o fogo de Zeus. Como vingança, o líder dos deuses do Olimpo acorrentou o titã a um rochedo e fez com que ele fosse fustigado por uma águia durante milhares de anos. Tal história inspirou grandes autores do Ocidente, como Ésquilo, Platão, Goethe, Pirandello, Franz Kafka, Heiner Müller e Machado de Assis. Na primeira incursão pela tragédia clássica em 12 anos de currículo, a Companhia Teatro Balagan bebe de todas essas fontes e propõe uma versão inovadora do mito à luz dos dias atuais em Prometheus – A tragédia do fogo, em cartaz no Tusp, em São Paulo. Leia mais

Reportagem

Artistas do Teatro de Narradores em cena interna da obra que também ocupa a rua do Bixiga - Barbara Campos

Artistas do Teatro de Narradores em cena interna da obra que também ocupa a rua do Bixiga – Barbara Campos

Qual o lugar do teatro? Essa é a pergunta implícita do espetaculo Cidade fim – cidade coro – cidade reverso, que o Grupo Teatro de Narradores apresenta em sua sede, em um sobrado do Bixiga, no centro de São Paulo. Se na primeira metade da peça o público ocupa uma sala não convencional no segundo andar do edifício, na metade final é levado à calçada, onde vê desfilarem outras cenas que se encadeiam naquelas acompanhadas do lado de dentro. Não é teatro de rua nem teatro “na” rua, mas um misto de intervenção artística e festa comunitária arquitetadas com originalidade na rua Treze de Maio, uma das principais artérias do bairro paulistano.
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Valor Econômico

A gênese da Vertigem

25.1.2012  |  por Valmir Santos

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Teatro: O diretor Antônio Araújo revê os 20 anos do grupo que levou sua arte a espaços inusitados como igreja, hospital e presídio.

 

13, 14 e 15/1/2012, Caderno Eu & Fim de Semana (pp. 14-17)

Valmir Santos | Para o Valor, de São Paulo

 

A historiografia da cultura brasileira destina lugar cativo e nada convencional ao Grupo Teatro da Vertigem, de São Paulo. Nas últimas duas décadas, seus espetáculos realizados em igrejas, hospitais e presídios, nem sempre desativados, além da montagem de BR-3 (2006), dramaturgia de Bernardo Carvalho, que ocupou as margens e o leito de um trecho do rio Tietê, encerram cada um deles um capítulo de fôlego. Os criadores e o público saíram do conforto da plateia e do palco à italiana, frontal, e permitiram-se outros desvios e desvãos no encontro da arte ao vivo em espaços inusitados.

 

O diretor mineiro Antônio Araújo tinha 26 anos quando estreou O paraíso perdido, de Sérgio de Carvalho, na igreja de Santa Ifigênia, no centro paulistano. Foi na noite de 5 de novembro de 1992, incitando minoria fundamentalista católica que cogitou interromper a temporada, em vão – o então cardeal-arcebispo d. Paulo Evaristo Arns contornou o conflito.

 

Araújo e os seus então companheiros de grupo de estudo, a maioria alunos da Universidade de São Paulo (USP), buscaram inspiração no poema homônimo do inglês John Milton, além de excertos de William Shakespeare, Jorge Luis Borges, Rilke, T.S. Eliot e de livros bíblicos, entre eles o “Gênesis”. Jamais poderiam imaginar que a investigação sobre a épica do anjo caído e os princípios da mecânica clássica aplicada ao movimento expressivo do ator abririam um flanco para o tema do sagrado na conformação de uma trilogia bíblica composta ainda por O livro de jó (1995), de Luís Alberto de Abreu, e Apocalipse 1,11 (2000), de Fernando Bonassi. Traços de um sobrevoo espiritual a respeito da queda e um rasante sobre a cidade às voltas com suas feridas, a aids e violência disseminadas, vide o massacre dos 111 presos do extinto Carandiru.

 

Atualmente conciliando a condição de professor na graduação e na pós-graduação em artes cênicas, Araújo tornou-se um dos diretores mais premiados do Brasil, tendo inscrito no vocabulário dos criadores de sua geração a rubrica “processo colaborativo”. Esse modo de criação deseja fazer que as demais funções do convívio teatral, como ator, autor, cenógrafo, figurinista, diretor de arte, enfim, emanem igual poder de argumentação e proposição em contraponto à onisciência do diretor.

 

No semestre passado, em meio aos ensaios do próximo espetáculo, previsto para maio e fruto de minuciosa pesquisa assentada no bairro do Bom Retiro, Araújo abriu janelas para ministrar cursos em universidades da França e da Holanda. O Vertigem já o levou a países como Rússia, Alemanha, Polônia, Venezuela e Chile. Uma exposição em cartaz na Funarte-SP, até março, permite conferir por que o grupo patrocinado pela Petrobras venceu na categoria melhor realização de uma produção, por BR-3, na 12ª Quadrienal de Praga – Design e Espaço da Performance 2011. Em dezembro, às vésperas de lançar A gênese da Vertigem: o processo de criação de O paraíso perdido (editora Perspectiva), desdobramento do mestrado, o diretor fez ao Valor um apanhado das duas décadas.

 

Valor: Na experiência de criação do novo espetáculo, que aspectos daquele início, 1991, 1992, são remanescentes nos procedimentos do Teatro da Vertigem?

 

Antônio Araújo: Algumas coisas permanecem. Como a ideia de um trabalho guiado pela noção de pesquisa; os processos considerados longos, de quatro, cinco anos de prospecção; o desenvolvimento do texto com um dramaturgo convidado; as improvisações livres dos atores e os workshops internos em que cada um comanda cenas mais elaboradas; a valorização do depoimento pessoal; e a opção de transitar por espaços que não são necessariamente o palco. O Vertigem vem aprofundando tudo isso em quase duas décadas de inserção na cidade. Nosso último ensaio em 2011 aconteceu justo nas ruas do Bom Retiro, realmente ao ar livre, um pouco do que tinha sido o espetáculo BR-3 no Tietê.

 

Valor: Em relação aos temas, ficou claro, talvez mais a partir do , uma necessidade de interpretação do Brasil contemporâneo. Quando o grupo parte para uma criação, como essa do Bom Retiro, entra aí uma intenção de ler criticamente o seu tempo?

 

Araújo: Eu acho que sim. Para mim isso é um dado do teatro. A maneira como o Paraíso se deu é distinta. Isso está mais claro a partir do . No Paraíso isso era sub-reptício. A ideia ali era estudar juntos. Não tínhamos a intenção de fazer uma peça. Isso só foi se dar lá na frente, depois de vários meses de trabalho, quando a gente olha aquele material e passa a articulá-lo. Talvez essa preocupação que você levanta, ela não está como ponto de partida, diferente do e de todos os trabalhos posteriores. Agora, curiosamente, o que O paraíso perdido provoca como espetáculo, na sua estreia e depois, essa questão premente do teatro na cidade nos dias de hoje, naquele momento está colocada. O espetáculo surpreendeu até a gente. Daí a necessidade de falar da aids no , por exemplo, quando São Paulo concentrava a dianteira dos casos no Brasil e já era um problema de saúde pública.

 

Valor: E na obra que circunscreve o Bom Retiro, quais são os vetores?

 

Araújo: O universo do trabalho é uma questão, especificamente o setor têxtil. Outro elemento é a própria multiculturalidade do bairro. A pesquisa nasceu no Bom Retiro, em diálogo vital com questões que vieram de lá, então a ideia é fazer o espetáculo lá. A história do bairro, das diferentes correntes migratórias, isso está ficando menos forte.

 

Valor: O fato de vocês nascerem como um grupo de estudos inclinado a entender cientificamente a pesquisa em arte e não necessariamente uma companhia que produz espetáculos – pelo menos não era um desejo a priori – foi determinante para a inscrição do conceito de “processo colaborativo” na cultura de teatro no Brasil. Essa é uma derivação da criação coletiva que ganhou força na década de 1970, reação aos contextos histórico e político de ditaduras militares e civis no continente sul-americano. Você concorda que o Vertigem sistematizou e ajudou a disseminar esse caráter processual da investigação nos campos da interpretação, da dramaturgia e da encenação?

 

Araújo: Sim. Para isso, o vínculo com a universidade foi decisivo. Diferentemente de quando se pensa nas trajetórias de personalidades ou grupos como o Oficina de Zé Celso, o Arena do José Renato e o Antunes Filho, o Vertigem é decorrência muito concreta dessa experiência universitária. A maior parte das pessoas se conhece no âmbito da Escola de Comunicações e Artes [ECA-USP]. Elas estudam, criam, praticam teatro juntas e, claro, quando formadas, esse desejo de continuar permanece e a ideia de manutenção de um núcleo de estudo é sacramentada. Contracenar com o campo da universidade não significa limitação, como já ouvi criticarem, e não só o nosso grupo, como se buscássemos legitimar o trabalho pela vinculação acadêmica. A universidade está em nossa raiz por formação. Não é uma escola técnica, mas universitária. Esses vínculos se dão mesmo em outras circunstâncias. Como separar a formação da prática do Antunes no TBC [Teatro Brasileiro de Comédia]? Aquele acompanhamento que ele fez dos diretores italianos com certeza o marcou.

 

Valor: Da formação original aos sucessivos espetáculos, nota-se hoje um enxugamento da equipe. É como se, ao mesmo tempo, o processo tivesse convergindo para a figura do diretor, contrariando um pouco a noção colaborativa que o Vertigem preconiza.

 

Araújo: Quando você fala em enxugamento, eu concordo. Não sei se foi natural, até pelo próprio movimento da vida das pessoas. Mas isso não foi projetado. Hoje, somos cinco pessoas no núcleo mais constante: o desenhista de luz Guilherme Bonfanti, os atores Roberto Audio e Luciana Schwinden, a assistente e diretora de cena Eliana Monteiro e eu. Agora, quando eu penso nesse núcleo de cinco pessoas, ele é muito ativo, muito forte. Não o sinto a reboque, gravitando. Quem de fato carrega o grupo somos nós. As decisões continuam sendo tomadas democraticamente. Há ocasiões em que eu perco. Não acho que seja minha palavra, minha voz, e os outros vão atrás. O grupo é um organismo vivo, tem entradas e saídas decorrentes disso. Se você me perguntar se gostei de o Matheus [Nachtergaele] ter saído, eu diria não. Outra pessoa que teve pouco tempo com a gente, o Luís Miranda, tampouco gostaria de ele ter saído. Fica um carinho enorme, um vínculo pela cumplicidade. Por ocasião do lançamento do livro sobre O paraíso perdido, recebi há pouco um e-mail da Mariana [Lima] em que ela fala quanto à passagem pelo Vertigem foi fundamental na trajetória dela.

 

Valor: Os 20 anos do Vertigem coincidem com a ascensão do teatro de grupo no país. Que defeitos e virtudes você apontaria nessa vertente em termos de produção, de criação e de mobilização por políticas públicas?

 

Araújo: É difícil olhar e falar hoje sobre aquilo em que ainda estamos muito mergulhados. Pode até ser um pouco óbvio, mas no começo dos anos de 1990 essa questão do teatro de grupo enquanto movimento ainda não estava dada. Você tinha alguns grupos expressivos em atividade, mas não representavam conjuntamente a força atual. Isso reapareceu de forma mais intensa, ganhou corpo com presenças artística e política, fazendo que as próprias políticas públicas fossem repensadas e revistas a partir dessa experiência, caso do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. No momento, isso está mais consolidado. Não é nenhuma situação ideal, ao contrário. O fato de ela estar mais consolidada, curiosamente, e isso é um paradoxo, parece que virou vidraça. Ou seja, é como se, e às vezes percebo isso num ou noutro comentário, é como se essa presença do teatro de grupo tivesse se tornado hegemônica. Não sei se isso é correto. Se a gente pensar hoje no panorama de São Paulo, claro que você tem uma vertente forte, que talvez não tivesse 20 anos atrás, mas você tem também uma forte concentração de musicais na cidade. E tem outra vertente, a do “stand-up comedy”. Talvez o que tenha perdido força seja o teatro de ator de televisão. E falo isso sem ser um historiador, puxando um pouco pela memória, e pensando em São Paulo, já que no Rio é diferente. Mas o fato é que todas essas forças ainda estão em jogo, e de maneira mais complexa.

 

Valor: Você já foi sondado para trabalhar na televisão ou no cinema?

 

Araújo: No caso de ator e dramaturgo, isso parece tão evidente. No caso de diretor, eu não sei, sinto que o universo audiovisual é completamente outro. Quase como se começasse do zero. No caso da direção, posso estar equivocado, mas me parece outra seara. Eu não sei, meu grande barato são as artes cênicas. Ao pensar outras coisas, eu penso justamente em dança, em ópera [em 2008 ele dirigiu Dido e Enéas, de Henry Purcell]. Engraçado, não penso em cinema e televisão. Não tenho esse movimento. Não sei se vou ter.

 

Valor: Já passou pela clássica abordagem do artista de televisão que se dispõe ao desafio de atuar tendo ao lado um destacado diretor?

 

Araújo: Isso aconteceu comigo lá atrás, hoje não mais. Na época do , do Apocalipse, recebi muitos convites para dirigir. Eu até, de certa forma, me arrependo de não ter aceitado alguns deles, porque eram atores dos quais gostava muito, até já morreram, como o Raul Cortez e o Paulo Autran. Tinha uma coisa de responsabilidade, mas também de estar envolvido em trabalhos do Vertigem e sentir que, naquele momento, não podia. Tem a ver também com o meu ritmo biológico, eu sou muito lento, sou paquidérmico. Talvez o que eu não consiga mesmo é fazer dois processos de criação ao mesmo tempo.

 

Reportagem

A gênese da Vertigem

25.1.2012  |  por Valmir Santos

A peça O paraíso perdido estreou numa igreja em 5/11/1992 - Eduardo Knapp

A peça O paraíso perdido estreou numa igreja em 5/11/1992 – Eduardo Knapp

A historiografia da cultura brasileira destina lugar cativo e nada convencional ao Grupo Teatro da Vertigem, de São Paulo. Nas últimas duas décadas, seus espetáculos realizados em igrejas, hospitais e presídios, nem sempre desativados, além da montagem de BR-3 (2006), dramaturgia de Bernardo Carvalho, que ocupou as margens e o leito de um trecho do rio Tietê, encerram cada um deles um capítulo de fôlego. Os criadores e o público saíram do conforto da plateia e do palco à italiana, frontal, e permitiram-se outros desvios e desvãos no encontro da arte ao vivo em espaços inusitados. Leia mais

Reportagem

Fernando Peixoto

15.1.2012  |  por Valmir Santos

Ele morreu na última madrugada. Fernando Peixoto tinha 74 anos. O ator, diretor, dramaturgo, jornalista, tradutor e historiador de teatro estava internado no hospital São Luiz, em São Paulo, devido a um câncer no intestino. Leia mais

Reportagem

A crítica Mariangela Alves de Lima, 39 anos de ofício em O Estado de S.Paulo (janeiro de 1972 a dezembro de 2011), foi demitida na última sexta-feira. Choca a decisão administrativa do jornal: desligar a pensadora que inscreveu seu nome na história contemporânea do matutino e do teatro brasileiro sem que tal memória fosse ponderada.
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“O homem não teme nada quando ri!”

Púchkin

Por Valmir Santos

Na falta de tramas palacianas matriciais na sua literatura dramática – à maneira de um Shakespeare, por exemplo –, cabe ao teatro brasileiro vasculhar o chão da senzala, os cômodos da casa-grande, os corredores e os gabinetes da administração para colocar o poder em xeque diante dos ritos e vícios públicos e privados. Afinal, nossa modernidade nos palcos conta pouco mais de 60 anos, um piscar de olhos se comparada às tradições seculares das artes cênicas em certos cantos do mundo. Leia mais

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Em nova temporada no Teatro Augusta, em São Paulo, a peça mais recente do dramaturgo Samir Yazbek traz a percepção do quanto ele vem lapidando o ofício de diretor, uma conjugação cada vez mais comum nos dias atuais. A cena sintetiza a força do texto sobre as memórias revolvidas de uma família de imigrantes libaneses, tudo a ver com a ascendência do autor.

A sagração ou questionamento aos símbolos paternos são esparsos, mas significativo na sua trajetória. Em As folhas do cedro, o dramaturgo nascido e criado em São Paulo compõe uma geografia afetiva do passado para sublinhar o presente. E o faz desde o coração da Amazônia brasileira, roçando a história do país no limiar dos anos 1970.

O ponto de vista nuclear é o da escritora que remonta à barriga da mãe, 40 anos atrás, e imagina o contexto em que se deu a separação. Ela não conviveu com o pai. O comerciante deixou mulher e filhos na cidade grande. Rumou para o norte do país para sonhar a construção da rodovia Transamazônica e se deixou encantar pela floresta e pela sua gente.

Uma das virtudes do texto é a estrutura polissêmica, a lembrar a poesia e a vida dos heterônimos de Fernando Pessoa na premiada montagem de O fingidor (1999), a peça que projetou Yazbek – ele já era diretor também. A voz da escritora – seu alterego – abre passagens no tempo e no espaço aos demais personagens. A jornada mítica inclui um engenheiro, por Douglas Simon, consciente da ditadura militar e dos obstáculos à rodovia que atravessaria vários estados, assim como a narradora ao enredo. Uma indígena, por Mariza Virgolino, de quem o desbravador se enamora. E uma gerente de hotel, por Rafaella Puopolo, vinda da Alemanha. Há ainda a terna presença de uma menina, por Marina Flores, sentada à margem da arena e cuja placidez no rosto e no olhar irradia a criança que já foram um dia a filha, a mãe e seus laços com a cultura árabe.

Mas é no tripé familiar pai/mãe/filha que as atuações se sobressaem. Helio Cicero, Daniela Duarte e Gabriela Flores, respectivamente, conduzem o espectador nessa viagem com a espiritualidade que o teatro pode alcançar com sofisticação. Isso pode ser tributado, em parte, à preparação de ator de Antônio Januzelli, o pedagogo que investiga estados corporais.

Com a equidistância que a realidade biográfica e a ficção concedem às artes, Yazbek percebe o próprio texto por meio de outras lentes e ouvidos da equipe, parte dela parceira antiga, anterior ao nascimento da Companhia Teatral Arnesto nos Convidou, em 2007.

Leia aqui a crítica publicada na revista Bravo!, bem como o serviço da temporada que vai até 29 de setembro.

 

(17 de setembro de 2011)

 

 

Bravo!

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Em As folhas do cedro, o dramaturgo Samir Yazbek conta a história de uma mulher às voltas com a figura paterna – e, com isso, refaz a saga de uma família libanesa. POR VALMIR SANTOS

 

Os símbolos paternos, esparsos mas muito significativos na obra do dramaturgo Samir Yazbek, ocupam o centro da arena em As folhas do cedro, espetáculo em cartaz no Teatro Augusta. A peça conta a história de uma família de imigrantes libaneses no coração da Amazônia dos anos 70, partindo das lembranças de uma mulher que, educada somente pela mãe, consagra e questiona diferentes figuras paternas. Em sua reconstrução afetiva, apresenta o pai espiritual, que seriam as tradições herdadas da ascendência libanesa; o Brasil, pai-nação metafórico; e seu próprio pai biológico, comerciante que se embrenhou na floresta para empreitar um trecho da rodovia Transamazônica, se agarrou ao ideal de progresso e se engraçou com uma índia do vilarejo.

 

Combinam-se, na reconstituição dessa identidade, a voz da narradora e de outros personagens em espaços e tempos diferentes – remetendo aos heterônimos do poeta Fernando Pessoa na premiada montagem de O Fingidor (1999), que projetou Yazbek. Nessa múltipla paisagem, estão presentes um engenheiro, consciente da ditadura militar e dos obstáculos à rodovia que atravessaria vários estados, e uma gerente de hotel vinda da Alemanha. Há ainda a terna presença de uma menina, sentada à margem da arena e cuja placidez no rosto e no olhar irradia a criança que já foram um dia a filha, e a mãe.

 

CÍRCULO MÁGICO

 

No início do espetáculo, o chão é demarcado com areia, concentrando o território da atuação em um círculo – ícone do fluxo de consciência entre o imaginado e o vivido. Os atores Helio Cicero, Daniela Duarte e Gabriela Flores dignificam seus papéis; com a preparação realizada pelo pedagogo Antônio Januzelli, equilibram sabiamente emoção e técnica entre a atmosfera etérea de fundo e a dolência do primeiro plano na trindade pai/mãe/filha. O cuidado com a representação das etnias asiática e europeia derrapa justo com a única representante indígena: a beleza contemporânea urbana da atriz Mariza Virgolino soa tão excêntrica quanto a designação de “Nativa” atribuída a ela.

 

De origem libanesa, mas nascido e criado em São Paulo, Yazbek conquista uma equidistância entre realidade e ficção. Reafirma suas duas décadas potentes de escrita teatral e ainda se reconcilia com a função de diretor, conjugada de maneira turva na última experiência, A noite do barqueiro (2009). A síntese e a mansidão obtidas calam fundo como uma oração.

 

VALMIR SANTOS é jornalista e pesquisador de teatro.

 

A PEÇA

 

As folhas do cedro. Texto e direção de Samir Yazbek. Com Companhia Teatral Arnesto nos Convidou. Teatro Augusta (r. Augusta, 943, Cerqueira César, SP, 0++/11/3151-4141). 4ª e 5ª, às 21h. Até 29/9. R$ 30.

(Texto publicado originalmente na edição número 169 da revista Bravo!, setembro de 2011, p. 90)