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Folhetim e a recepção crítica a Nelson Rodrigues

3.8.2011  |  por Valmir Santos

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Por Valmir Santos

 

O número 29 da revista Folhetim é uma edição especial dedicada a Nelson Rodrigues. Destacam-se ensaios que analisam textos, espetáculos e a recepção crítica ao teatro rodriguiano. Alain Ollivier, Antonio Guedes, Cláudia Tatinge do Nascimento, Edélcio Mostaço, Fátima Saadi, Fernando Marques, Mariana Oliveira, Silvana Garcia, Sílvia Fernandes e Walter Lima Torres delineiam um panorama da produção brasileira pelo prisma da ruptura que o surgimento da obra do autor demarca a partir dos anos de 1940.

 

Mais da metade das 427 páginas, em formato de livro, são preenchidas com um dossiê de críticas jornalísticas ainda inéditas em livro. Organizado pela editora-geral Fátima Saadi, o material cobre seis décadas de espetáculos, de 1942, quando estreia A mulher sem pecado, a 2009, quando Antunes Filho cria A falecida vapt-vupt – aliás, o diretor do Centro de Pesquisa Teatral e do Grupo Macunaíma discorre em longa entrevista à publicação sobre suas montagens rodriguianas desde 1965. Por meio das 98 críticas pesquisadas em 15 periódicos, é possível acompanhar as polêmicas e a progressiva aceitação da obra de Nelson no Brasil.

 

O lançamento aconteceu na semana passada, no Teatro Glaucio Gill, no Rio, com direito a mesa-redonda com os diretores Ana Kfouri e Marco Antônio Braz. O encontro foi mediado pelo diretor Antonio Guedes, do grupo Teatro do Pequeno Gesto.

 

A pesquisadora, tradutora e dramaturgista Fátima Saadi respondeu ao Teatrojornal, por email, questões relativas ao número especial e à trajetória da publicação nesses 13 anos de perseverança nas idéias sobre essa arte.

 

Teatrojornal – Com esta edição especial nas mãos, tão múltipla e densa em seus ensaios, entrevistas e o dossiê de fôlego com a recepção crítica à obra de Nelson, você concorda que esse documento constitui desde já uma referência na pesquisa sobre o dramaturgo?


Fátima Saadi – Acho que a edição 29 do Folhetim – Especial Nelson Rodrigues reúne um ótimo time de
pesquisadores/ensaístas, de vários pontos do país e do exterior: o falecido diretor francês Alain Ollivier; a especialista em Nelson Rodrigues Ângela Leite Lopes, tradutora e professora da Escola de Belas Artes da UFRJ; a diretora e professora da Wesleyan University, nos EUA, Cláudia Tatinge Nascimento; Edélcio Mostaço, professor da Udesc, em Florianópolis; o dramaturgo, pesquisador e professor da UnB Fernando Marques; a atriz e doutoranda da Unirio Mariana Oliveira; a pesquisadora e professora da EAD Silvana Garcia e a pesquisadora e professora da ECA-USP Sílvia Fernandes, além de Antonio Guedes, diretor e professor da Escola de Belas Artes da UFRJ; de Walter Lima Torres, ator, diretor e professor da UFPR, em Curitiba. A diversidade de enfoques permite oferecer um panorama, não exaustivo, mas bastante amplo, do que se tem pensado sobre Nelson Rodrigues nos últimos anos.

O dossiê foi idealizado para dialogar com as críticas sobre as obras de Nelson que já estavam publicadas em livro e acrescentar, por meio da pesquisa em arquivos, material que servirá, certamente, de base para análises as mais variadas.

Ao fazer o levantamento dos textos – no acervo Cedoc/Funarte, na Biblioteca Nacional e na Biblioteca da Fundação Casa de Rui Barbosa -, pensei em diferentes fios possíveis para estudos. Imaginei que, a partir daquele conjunto de críticas, seria possível estudar a relação entre a imprensa e o espaço público de discussão do teatro (até o Jornal dos Sports mantinha uma coluna de crítica teatral nos anos de 1950). Esse espaço começa a minguar com o golpe militar e mais decididamente dos anos de 1980 em diante. Seria também possível observar, com base no conjunto de críticas, a variedade de abordagens do espetáculo teatral (de viés psicológico – primeiro prisma de aproximação das peças da fase inicial do Nelson; de viés predominantemente estético – com o trabalho pioneiro de Décio de Almeida Prado, continuado por Sábato Magaldi e Yan Michalski. No trabalho de Yan o viés político é bem nítido,  Mas se mescla de algum modo às pesquisas semiológicas que também marcam a época).

Seria possível também acompanhar, por exemplo, o trajeto de uma crítica como Mariangela Alves de Lima [de O Estado de S.Paulo], que entra em cena nos anos de 1970 e continua presente, com análises delicadas e refinadas, propondo interpretações que vão além do espetáculo, projetando-o contra o pano de fundo cultural do país.

Enfim, diferentes viagens são propostas pelo roteiro de críticas coletadas no dossiê e acho que ele será útil não apenas aos profissionais de teatro, mas aos estudiosos de outras áreas como a sociologia, a história, a antropologia, a comunicação, etc.

 

Teatrojornal – Pontue brevemente a trajetória do Folhetim [o “o” é porque posso tratá-lo como caderno?], desde a concretização do desejo antigo de “criar uma publicação de ensaios sobre teatro”, lá no número zero, de janeiro de 1998, no qual também já se falava em superar a “precariedade de recursos”, perseverança que a equipe do Teatro do Pequeno Gesto exercita ao longo desse tempo todo. Como ele é viabilizado hoje? Periodicidade?


Fátima Saadi – Posso dizer que meu trabalho começou em 1977, no arquivo do antigo Serviço Nacional de Teatro. Eu deveria ler, selecionar e classificar todos os artigos que aparecessem sobre teatro na imprensa do país todo. O material acumulado vinha desde o ano de 1970 e estava selecionado pela empresa Lux Jornal (lembra dela?).

 

Em 1978, ainda no SNT, fui transferida para o banco de peças, que era chefiado por Edwaldo Cafezeiro, que estava trabalhando com a edição dos Clássicos do Teatro Brasileiro. Lá, aprendi boa parte do que hoje utilizo em meu trabalho de editora e preparadora de textos. A outra parte aprendi com Yan Michalski, na Escola de Teatro da Unirio, onde cursei Teoria do Teatro, tendo participado da revista Ensaio/Teatro, organizada por Yan para a prática dos alunos.

Meu primeiro trabalho de tradução foi uma encomenda de Luís Antônio Pilar: a tradução de Os negros, de Jean Genet, em 1985. De lá para cá tenho trabalhado com constância nessa área e uma das minhas tarefas como dramaturgista é, sempre que necessário, traduzir os textos que montaremos. Proponho muitos projetos a editoras, sempre em diálogo com o que considero lacunas na bibliografia sobre teatro no país. Foi assim que propus à coleção Dramaturgias, coordenada por Ângela Leite Lopes para a editora 7 Letras, a tradução de Notas sobre o teatro de Lenz e Regras para atores, de Goethe, e para a Perspectiva O filho natural e Conversas sobre o filho natural, de Diderot; O teatro é necessário?, de Denis Guénoun; e uma coletânea de ensaios de Béatrice Picon-Vallin, A cena em ensaios. Atualmente, estou trabalhando na tradução dos Discursos, de Corneille, sobre a tragédia, texto de 1660, diálogo astuto do autor com a Poética, de Aristóteles.

Como dramaturgista, meu trabalho ganhou consistência quando comecei a trabalhar com Antonio, em 1987, em O olhar de Orfeu, dirigido por ele no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, e, desde então, vem se desdobrando por autores e perspectivas diversas, incluindo até uma parceria em criação de texto (Penélope, escrita a quatro mãos, em 1995). Como editora, a experiência com o Folhetim retoma o trabalho com a Ensaio/Teatro e os Clássicos do Teatro Brasileiro. Procuro avaliar os textos para a nossa revista, junto com o conselho editorial (Antonio Guedes, Ângela Leite Lopes e Walter Lima Torres) a partir de seu viés ensaístico, isto é, a partir da consistência das idéias desenvolvidas, e veicular, ao lado de ensaístas maduros, autores que estão se iniciando nas lides do ensaísmo, como alunos de graduação e pós-graduação.

A revista tem se mantido graças a vários tipos de colaboradores: aqueles que escrevem, aqueles que nos ajudam a divulgá-la e a uma equipe, diminuta, mas que trabalha com afinco: o designer Bruno Cruz, o produtor de imagens e fotógrafo Luiz Henrique Sá, os coeditores Antonio Guedes (que cuida também da produção da revista), Ângela Leite Lopes e Walter Lima Torres, a secretária Márcia Alves e o revisor Paulo Telles. Às vezes contamos com algum apoio de instituições, que compram um lote de exemplares para distribuição gratuita ou anunciam suas atividades na revista. A Funarte é nossa parceira mais constante. Em 2009, por sugestão de Gustavo Ariani, diretor da CAL [Casa das Artes de Laranjeiras], organizamos um Clube de Amigos do Folhetim para financiar a impressão do nº 28, lançado naquele ano. Foi uma iniciativa pioneira de “crowdfunding”. Acho que em breve repetiremos o apelo aos amigos.

O que norteia nosso trabalho de seleção de textos e entrevistas é a preocupação com a relação teoria/prática no campo teatral. Procuramos privilegiar o pensamento a respeito da prática e temos tido ótimas experiências com autores do país todo, professores, profissionais da cena, alunos de graduação e pós-graduação. Há muita gente boa que tem o teatro como núcleo de seus estudos, prova é que quando criamos a revista, havia pouquíssimas publicações especializadas na área e agora já são muitas, em geral ligadas às universidades. Embora a revista não esteja diretamente ligada aos espetáculos do Teatro do Pequeno Gesto, há pontos de interseção, quando nossa pesquisa para montagens serve de mote a um número da revista. O número 12, sobre o trágico, lançado em 2002, acompanhou a preparação teórica de Medeia. Foi assim também com o número 7, o primeiro especial dedicado a Nelson Rodrigues, lançado em 2000, pouco depois da montagem de A serpente, pela qual o Antonio foi indicado ao Prêmio Shell do Rio nas categorias direção e trilha sonora. E, ao comemorarmos 15 anos, fizemos um número especial sobre o Teatro do Pequeno Gesto. Mas procuramos, respeitando a linha da revista, solicitar aos ensaístas convidados, Flora Sussekind, Sérgio Alcides e Silvana Garcia, que levantassem questões atinentes ao trabalho, respectivamente, em Medeia, O marinheiro e no próprio Folhetim que, àquela época, já estava no número 24. Já experimentamos a periodicidade quadrimestral, trimestral, semestral e anual. Como o trabalho aumentou, com a criação da coleção Folhetim/Ensaios em 2003 – o próximo volume será uma coletânea de textos de Jean-Pierre Sarrazac, que está sendo preparada para lançamento em 2012 -, acho que a tendência é mantermos a periodicidade anual.

 

Em tempo: pode se referir ao Folhetim no masculino (eu também uso no masculino, dando
precedência ao gênero do substantivo “folhetim” que ao caráter revista, que me
levaria a usar o “a”)…

 

 

>> A edição 29 do Folhetim – Especial Nelson Rodrigues custa R$ 35,00 e pode ser adquirida por reembolso postal sob respectiva taxa. Interessados, escrevam para: folhetim@pequenogesto.com.br


>> Confira o site do grupo Teatro do Pequeno Gesto

 

>> Reportagem sobre a edição especial do Folhetim publicada no jornal Valor Econômico

 

 

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(4 de agosto de 2011)

Valmir Santos

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