Desde sua estreia em 2010, com Vivienne, a Companhia de BifeSeco tem buscado criar espetáculos que surpreendam visualmente, mesmo que dispondo de poucos recursos – aquele primeiro trabalho foi gestado ainda dentro da faculdade. Uma das referências do grupo é o diretor norte-americano Bob Wilson, que, em Bifes_1 (2014), foi homenageado por meio de maquiagens e movimentações que lembravam as marcas características do mestre.

Daquela experiência brotou o recente Terrível incrível aventura – Um musical fabulesco marítimo (2016), cabaré que debocha de qualquer esperança em meio a citações da política atual. Nessa encenação, resgata ainda outro esteio criativo, Gerald Thomas (por exemplo, na abertura dos dois atos, o grupo usa máscaras de papel representando Michel Temer e Donald Trump).

A ligação com a peça anterior está na narrativa, retrabalhada, e na estrutura de musical. Mas, se há dois anos havia um palco maior e mais investimento visual, agora a surpresa recai nas composições originais de Enzo Veiga.

Os personagens criados pelo diretor e dramaturgo Dimis Jean Sores reúnem referências tanto da literatura quanto do noticiário atual

Terrível incrível aventura, que teve temporada de duas semanas em Curitiba, entre setembro e outubro, busca o timing fundamental da comédia, com entradas e saídas marcadas pelo compasso. Opondo-se a esse rigor, a maior parte das músicas tem clima de zombaria. Dois experientes cantores, Má Ribeiro e Jeff Bastos, são acompanhados por toda a equipe num texto todo em versos. As falas de Sham são rimadas, enquanto seu antagonista Anton traz uma poesia menos arredondada, que flerta com o rap e sugere, em algumas falas, um embate entre o velho e o novo. O destino de ambos, porém, é comum.

Do começo ao fim, o argumento defendido com ênfase é carpe diem: a vida e a morte são uma desgraça, portanto, aproveite o quanto pode. E o porta-voz desse ensinamento é ninguém menos que Mefisto (Jeff Bastos). Esse mestre de cerimônias conduz a narrativa com comentários sempre calcados no deboche. Apresenta-se como um sarrista da humanidade, com trejeitos, caras e bocas exagerados, tentando de todas as maneiras atrair o protagonista, capitão Sham (Má Ribeiro), para as profundezas do desespero existencial. Suas falas voltadas ora ao personagem, ora à plateia, e o trabalho de ator dentro de um registro definido pelo grupo como over atraem o espectador para perto das angústias abordadas no palco.

Patricia Cipriano e Má Ribeiro: Quase um cheiro de praia em cenaRosano Mauro Jr.

Patricia Cipriano e Má Ribeiro: quase um cheiro de praia em cena

A pesquisa relacionada à visualidade também se materializa em alguns momentos marcantes. Em um deles, a ida ao mar – esse símbolo do inconsciente, território de viagens que muitas vezes acabam sendo uma busca interior – é concretizada por um barco formado por cordas suspensas. Outro destaque é a caracterização do capitão Sham, na verdade o cozinheiro de bordo. Figurino e adereços (Felipe Custódio e Jeff Bastos) e maquiagem (Andréa Tristão) transformam a atriz num velho lobo do mar, com sardas e cabelos ruivos, que quase faz o espectador sentir o cheiro de praia.

Outra providência foi solicitar a direção de movimento a Val Salles, recém-integrado à companhia. Seu trabalho é ainda mais importante devido à dimensão do palco que, diminuto, por vezes tem de comportar os seis atores de uma vez. Os personagens criados pelo diretor e dramaturgo Dimis Jean Sores reúnem referências tanto da literatura quanto do noticiário atual. A mescla coloca no palco o sublime (a literatura) e o grotesco (jogos de palavras por vezes colegiais, ao lado das já referidas citações da política atual), uma junção que a arte contemporânea favorece.

O calvário do cozinheiro começa ao conhecer Criméia, gorda voluptuosa e gulosa que o trai sem esforços, basta que ofereçam um prato mais farto. Na tentativa de mantê-la a seu lado, Sham parte em busca de uma iguaria única, um polvo azul que renderia um prato inimitável. Porém, outros amores e desencontros ocorrem ao longo da peça, numa trama que, apesar de debochada, enfatiza o questionamento sobre a vida e a morte.

Má Ribeiro (barba ruiva), Patrícia Cipriano (em preto), Sávio Malheiros e Luiz Bertazzo (peruca loira): Timing musical Rosano Mauro Jr.

Má (barba ruiva), Patrícia (acima), Malheiros e Bertazzo: timing musical

Os demais atores também aliam construção rica à atuação experiente, algo que deverá se repetir nos próximos capítulos desta que se configura como uma quadrilogia autoral. Visualidade, narrativa e timing de musical podem propiciar à Companhia de BifeSeco uma trajetória promissora.

.:. Escrito no contexto do projeto Crítica Militante, iniciativa do site Teatrojornal – Leituras de Cena contemplada no edital ProAC de “Publicação de Conteúdo Cultural”, da Secretaria do Estado de São Paulo.

Ficha técnica:
Terrível incrível aventura – Um musical fabulesco marítimo
Autoria, direção e cenografia: Dimis Jean Sores.
Com: Ciliane Vendruscolo, Jeff Bastos, Luiz Bertazzo, Má Ribeiro, Patrícia Cipriano e Sávio Malheiros
Codireção e direção de movimento: Val Salles
Direção musical: Enzo Veiga
Iluminação: Lucas Amado
Realização: Companhia de BifeSeco