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contracena

Duas narrativas de Abreu segundo a Companhia Teatro da Cidade

26.2.2011  |  por Valmir Santos

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A Companhia Teatro da Cidade cruzou em 2010 duas décadas de existência. E celebrou com dois espetáculos no repertório, trabalhos representativos de sua capacidade de fazer arte e produzir cultura em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, onde interage com políticas públicas junto à Fundação Cassiano Ricardo, responsável pela organização do Festivale, e mantém o seu próprio espaço, o Centro de Artes Cênicas Walmor Chagas. A região do interior paulista é berço de tradições populares, de festejos religiosos, de sotaques e saberes marcantes do imaginário caipira. Daí as variantes cômicas, trágicas e líricas singradas nas dramaturgias de Maria Peregrina, montagem de dez anos atrás, e de Um dia ouvi a lua, recém-estreada, ambas sob a lavra de Luís Alberto de Abreu – um interlocutor mais-que-perfeito na pesquisa continuada do núcleo em torno dos mecanismos narrativos.

 

Assistir às duas montagens, em intervalo de dias, é condição privilegiada para aferir o quanto são umbilicais.

 

Simbolicamente, Maria Peregrina evoca o céu e o mar na figura de uma santa de mesmo nome que um dia foi gente, uma cidadã das ruas do bairro de Santana, morta em 1964 e desde então mais uma lenda no panteão local – vulgo ‘Nega do Saco’ ou ‘Maria do Saco’. Inevitável o paralelo com Nossa Senhora Aparecida, a santa negra que batiza a cidade vizinha e cuja imagem foi encontrada por pescadores no século 18.

 

Um dia ouvi a lua, por sua vez, deita à raiz do chão, à lavoura arcaica em que homens e mulheres semeiam sua moral conforme a transmissão familiar, adultos nostálgicos da inocência de quando não tinham experimentado a maldade de que o mundo também é feito. No título, o satélite da Terra incide diretamente sobre a essência da força do feminino a catalisar a cena.

 

Em ambos os textos subsistem os sentimentos que a todos guiam ou desviam, o amor romântico ou filial e suas contrafaces, a impossibilidade, a perda, a vingança passional. A negociação nessa gangorra da existência é dada pelas memórias às quais os personagens se acham agarrados ou traídos pela ausência dela.

 

Quanto à estrutura das duas narrativas, elas são tripartidas.

 

Em Maria Peregrina, há a história inspirada na personagem-título, em busca do filho morto, entrecontada pelas peripécias de um replicante de Jeca Tatu e pelo drama de uma paixão rediviva à maneira de Lorca.

 

Em Um dia ouvi a lua, três canções sobre o discurso amoroso dos matutos da chamada música de raiz são adaptadas para o ponto de vista da mulher – das caboclas, digamos assim. Estão lá as modas de viola de João Pacífico e Raul Torres, Cabocla Teresa; de Piraci e Luis Alex, Adeus, morena, adeus; e de Tonico e João Merlini, Rio pequeno – todas elas grávidas de idílios ou conflitos.

 

Outro eixo comum é o tratamento épico. Nas duas peças, as vozes do eu-personagem e do eu-narrador vão e vêm em recuos que aportam o espectador em relação ao desenrolar dos causos e da ação presente. A mitologia religiosa abarca romarias e novenas como panos de fundo em Maria Peregrina, o caminho penitente para Aparecida do Norte, enquanto o arquétipo da infância é dominante em Um dia ouvi a lua.

 

A década de estrada de Maria Peregrina dotou a encenação de despojo e refinamento verificáveis na cultura oriental secular. Há um equilíbrio de efeitos e recursos do Teatro Nô já desenhados na dramaturgia de Abreu e sacramentados pela direção de Claudio Mendel, cofundador da companhia. Mesmo com eventuais substituições ao longo desse período, o elenco de sete atores mostra-se decantado no processo em que a vitalidade em cena ou fora dela é exigida o tempo todo no espaço frontal e descoberto de uma ponta a outra. Contrarregragem, interação com objetos, trocas de figurinos e execução musical estão a cargo dos respectivos intérpretes, cantigas, percussões e incidências que respiram no mesmo pulso do que é enunciado, inclusive nos silêncios. Dá-se a química, peculiar aqui, que faz a caipirice ascender enquanto linguagem cênica, sem concessão, envolta em certas passagens sob o manto da teogonia e da ascese.

 

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Em Um dia ouvi a lua, o ator e diretor Eduardo Moreira, cofundador do Grupo Galpão, é convidado a assinar a montagem gestada em processo de colaboração. São flagrantes as afinidades estéticas eletivas com o núcleo mineiro formado há 27 anos – a recriação das manifestações populares do interior, seu cancioneiro, sua crença, seu princípio gregário, etc. Moreira centra na criação do intérprete, na afirmação do jogo teatral a partir da linha tênue com as memórias de infância dos integrantes também acolhidas no texto.

 

Mas o universo da criança torna-se um problema. Boa parte do elenco não corresponde à pororoca lúdica para despir-se da estereotipia na voz e na gestualidade. A correlação com as brincadeiras de antanho às vezes estorva.  É corrente a quebra de qualidades física e emocional entre o flashback e o pular cordas, o esconde-esconde, a cumplicidade coral. Quando ‘adultos’, os seis atores fluem mais seguros no tônus dramático na hora de cantar, narrar, representar.

 

A atriz Adriana Barja surge mais à vontade nesse trânsito de sutilezas de um extremo a outro da vida. Sua personagem Cabocla Tereza é paradoxalmente desejada e assassinada a tiros pelo marido que se diz desonrado na composição sertaneja assim como na diálética que casa a consciência do instante ao fato narrado. Impossível dissociar a atriz da sua outra performance como Tereza, homônima, morta a golpes de faca por um homem traído em Maria Peregrina – enésimo recurso de Abreu para as histórias conversarem entre si, mesmo que não tenham sido pensada embrionariamente uma para a outra, no que o tempo acabou emendando.

 

Como não poderia deixar de ser, outro elemento vital no projeto é a música, dirigida por Beto Quadros. Ele dividiu os arranjos com Ernani Maletta, assinatura marcante nos espetáculos do Galpão. Os atores estão afinados no cantar e no tocar, harmonizam com os sentimentos expressos nas canções. Mesmo quando cumprem coreografias, instrumentos colados ao corpo, ou ainda quando ziguezagueiam entre as malas – estas um signo potente, sem abuso.

 

A ressonância de Um dia ouvi a lua está no tom menor com que o espetáculo consegue pôr em primeiro plano as boas e tristes histórias e os seus contadores, isso desde a abertura, quando aparecem reunidos ao redor da fogueira no centro do palco. Eduardo Moreira conviveu semanas com os atores e chegou a bom termo. Fosse uma relação continuada – ele vive em Belo Horizonte -, quem sabe o elenco avançasse no todo na proposição de jogo para a cena.

 

E em simbiose com Maria Peregrina – pois toda a obra desse dramaturgo transmigra em seus próprios limites, ou deslimites –, temos ancorada a pena do demiurgo Luís Alberto de Abreu e a determinação em subverter a trajetória do herói e colocar a mulher em outros patamares.

 

(26 de fevereiro de 2011)

 

 

Um dia ouvi a lua

 

Adriana Barja
Ana Cristina Freitas
Andréia Barros
André Ravasco
Caren Ruaro
Wallace Puosso

 

Codireção: Claudio Mendel
Cenários e figurinos: Leopoldo Pacheco e Ana Maria Bomfin Pitiu
Direção musical: Beto Quadros
Arranjos musicais: Beto Quadros e Ernani Maletta
Iluminação: Claudio Mendel
Produção: Vander Palma
Produção executiva: Carla Maciel
Assistente de produção: Renata Siqueira

Maquiagem e cabelos: Leopoldo Pacheco

Fotografia: Tito Oliveira

Assessoria de Imprensa: Andréia Barros e Carla Maciel

 

Maria Peregrina

 

Adriana Barja

André Ravasco

Caren Ruaro

Conceição de Castro

Tamara Cardoso

Vander Palma.

 

Cenário e figurino: Carlos Eduardo Colabone
Iluminação: Daniel Augusto e Claudio Mendel
Fotos: Tito Oliveira e Rosi Canto
Assessores de imprensa: Andreia Barros e Diego Dionisio
Produção executiva: Carla Maciel

 

 

 

 

 

 

 

Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, em 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos no campo teatral. Colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutorando em artes cênicas pela Universidade de São Paulo, onde cursou mestrado na mesma área.

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