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Folha de S.Paulo

Stoklos faz peça só com cinco movimentos

16.9.2004  |  por Valmir Santos

São Paulo, quinta-feira, 16 de setembro de 2004

TEATRO 
Atriz troca arrebatamento por imobilidade no “sussurante” espetáculo solo “Olhos Recém-Nascidos”, com estréia sábado

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O público afeito aos solos da atriz que passou 35 anos recriando tempo e espaço no palco, com arrebatamentos corporais ou vocais, vai deparar com uma Denise Stoklos em exercício de quietude.

“É um espetáculo meio etéreo, como se fosse música new age, meio mantra”, diz ela sobre o novo trabalho, “Olhos Recém-Nascidos”, no qual busca outro registro de atuação.

Na montagem, que estréia no sábado e ocupa a faixa do público adolescente no Teatro Popular do Sesi, em São Paulo (às 16h), Stoklos passa o tempo todo sentada atrás de uma mesa.

“Faço apenas cinco movimentos. Neutralizo qualquer possibilidade de teatro para ficar numa tábula rasa e ver onde esse trampolim vai me levar”, diz.

Stoklos, 54, define o espetáculo como um rito de passagem. Quer abraçar outras formas para lidar com questões que o ofício calejou, lá se vão 12 solos. Diz ter abandonado aquilo que a qualificava.

Recorda que houve tempo no Brasil, nos anos 60 e 70, em que as possibilidades de mudança passavam pela luta armada, pela guerrilha. Na esteira da globalização, a atriz deposita suas forças no contato com o outro.

Deseja desvencilhar-se da autobiografia, ainda que incorpore o “eu” para, espera, transformar-se em espelho. Que o público percorra o caminho da intérprete em cena e descubra o seu. “Resulta como se eu sussurrasse no ouvido de cada um”, diz.

Essa espécie de intimidade tem lá um fundo pedagógico a conferir com o público-alvo. “Olhos Recém-Nascidos” discorre sobre perdas, mortes, ganhos e vida. Toca em assuntos tabus. A sociedade contemporânea, de consumo supra-sumo, não tem tempo, foge da condição de finitude das coisas, pessoas, sentimentos etc.

Para falar da despedida do antigo, próprio ou alheio, e da abertura para “a potência de energia”, Stoklos tenta se esquivar de hermetismos no texto que escreveu sob consultoria de dramaturgia de Piatã Stoklos Kignel, 24, o filho caçula.

“Fisicamente, digo que é meu espetáculo mais difícil, porque a projeção que faço de mim mesma em cena exige muito mais do que fazer o gesto em tempo interior. Não fico sentada descansando; ao contrário, tudo está em tensão no corpo”, diz.
A cenografia abre espaços mínimos para inserções de imagens (vídeo e fotografia, por Thais Stoklos Kignel, 26, filha). “Não é um espetáculo seco, mas úmido”, diz Stoklos.

Como nos solos anteriores, encaixados no escaninho do “teatro essencial”, centrado no trabalho de ator, não é perceptível a construção de um personagem. Talvez ele nem exista. Sabe-se que é Denise Stoklos pela exímia colocação corporal, ela que é especializada em mímica.

“Não é ficção, mas fricção o que me interessa na relação com a platéia. O ator é apenas a antena, não é o ego dele. O “eu” é o “eu” da platéia.” 



Olhos recém nascidos.
Texto, direção, coreografia, sonoplastia, iluminação e interpretação solo: Denise Stoklos. Figurino: Karlla Girotto. Onde: Teatro Popular do Sesi – sala Osmar Rodrigues Cruz (av. Paulista, 1.313, tel. 0/xx/11/3146-7405). Quando: estréia sáb., dia 18/9, às 16h; sáb. e dom., às 16h). Quanto: entrada franca.

 

Valmir Santos

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