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Folha de S.Paulo

Folias d’Arte encena indignação de Cabrujas

24.2.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005

TEATRO 

Espetáculo sobre visita de Carlos Gardel a Caracas em 1935 estréia no galpão do grupo, no bairro de Santa Cecília


VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

Um cachorro com as costelas de fora. Não ladra, mas é feroz em sua miséria. A caravana passa, indiferente, fingindo que não é com ela. A exclusão é intangível, como a um fantasma.

A imagem está na boca de um personagem comunista em “El Día que me Quieras”, do venezuelano José Ignacio Cabrujas (1937-95), montagem do Folias d’Arte (“Otelo”) que estréia hoje no galpão do grupo, em Santa Cecília.

Cabrujas concebe a visita do cantor Carlos Gardel a Caracas, em 1935, onde se apresentaria para o ditador da vez, cruza o evento com os ventos revolucionários da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (Stálin substitui Lênin) e desemboca tudo, sempre com bom humor, na sala de uma tradicional família venezuelana, os Ancízar.

O resultado é uma reflexão sobre o sonho e seus mitos, alegoria de heróis e covardes, à moda de um dramaturgo que lembra Vianinha (“Rasga Coração”), mas é pouco conhecido entre nós.

Título emprestado da canção de Gardel e Alfredo Le Pera, espectros também levados à cena, a peça faz referências ao clássico “As Três Irmãs”, de Tchecov.

Elvira Ancízar (Bete Dorgan) está pasma com a irmã mais nova, María Luiza (Simoni Boer), que quer vender a casa e se mudar com o noivo comunista, Pio Miranda (Reinaldo Maia), para a Ucrânia, nas estepes soviéticas.

Miranda busca contraponto ao ramerrame familiar. Válvula de utopia, ele diz que conhece o escritor francês Romain Rolland, um idealista; defende a “visão global” do camarada Stálin. O discurso agüenta até o porvir esbarrar numa profética palavra: a mentira, demasiada teatral.

“Ele não consegue entender como há pessoas que não se incomodam com o cachorro de costelas de fora. Hoje, no Brasil, aqueles que ainda se indignam são tratados por “dinossauros”, “viúvas do socialismo”, como se a indignação com a miséria humana fosse só uma opção ideológica”, diz Maia, dramaturgo que, coincidentemente, volta a atuar 20 anos após a montagem de outro texto de Cabrujas, “Ato Cultural”.

“Não vivemos época de ruptura, mas de acomodação”, diz o diretor Marco Antonio Rodrigues.

Na encenação, a conhecida verve musical do Folias (de “Cantos Peregrinos”, por exemplo) reveza com a farsa que avança em dois atos, num espaço cênico dominado pelo branco. As portas do galpão são abertas ao fundo da cena, arejando realidade.

“Não somos tangueiros na essência, somos mais samba, xaxado, baião. A dança está mais para gafieira. Importa o espírito marginal do tango, não-europeizado, do início da carreira de Gardel”, diz o ator e diretor musical Dagoberto Feliz, no papel do próprio.

É uma peça de perspectiva humanista, diz Dorgan. “Não se trata de perda das utopias, mas de como a mídia e os retratos social, econômico e cultural da América Latina nos afastam delas e nos impingem outros valores.”



El día que me queiras
Com: Bruno Perillo, Demian Pinto, Flávio Tolezani, Patrícia Barros, Simoni Boer, Val Pires, Imyra Santana, Bira Nogueira e outros. Onde: Galpão do Folias (r. Ana Cintra, 213, Santa Cecília, tel. 3361-2223). Quando: estréia hoje, para convidados; qui. a sáb., às 21h; dom., às 20h; até 31/7.

Valmir Santos

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