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Folha de S.Paulo

Armazém implode a fé que exclui o outro, em espetáculo de tolerância

19.3.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, sábado, 19 de março de 2005

TEATRO 
“A Caminho de Casa” tem direção de Paulo Moraes

VALMIR SANTOS
Enviado especial ao Rio

Nos tempos que correm, mira-se mais às alturas do que ao outro. Um homem ou uma mulher-bomba que se explodem no Oriente Médio, em nome de seu Deus, abalam a crença e a capacidade de amar neste planeta. O Rio de Janeiro parou no dia do seqüestro do ônibus 174, 12 de junho de 2000, com o mesmo espanto com que viu as torres gêmeas caírem em Nova York, em 11 de setembro de 2001.

São ilações que vão pela conversa com o diretor Paulo de Moraes, sob quase 40 C de uma tarde carioca na Fundição Progresso, na Lapa, onde fica a sede da Armazém Cia. de Teatro.

O espetáculo “A Caminho de Casa” (2004), que entra amanhã na Mostra Oficial do Festival de Teatro de Curitiba, pretende dar conta dessas questões tão distantes quanto próximas. A explosão de um ônibus e o conseqüente engarrafamento numa auto-estrada, motes dignos do cinema de ação, são como que transportados para o espaço cênico para discutir como a fé age sobre o homem atual.

A subversão de tempo e espaço é uma constante na dramaturgia da Armazém. Vide montagens anteriores, como “A Ratoeira É o Rato”, “Alice Através do Espelho”, “Da Arte de Subir em Telhados” e “Pessoas Invisíveis”, que convocam outros pontos de vista do espectador, quer incorporado à cena, quer na platéia.

“A Caminho de Casa” abre com animação gráfica de um ônibus na estrada e seus passageiros (atores interagem com a projeção em cima de pernas-de-pau, dando a idéia de que estão nas janelas). Há um estrondo e, na seqüência, três histórias entrelaçadas.

Impedidas pelo engarrafamento, pessoas até então desconhecidas, em seis automóveis, são submetidas à convivência por dois dias, em meio à fome, sede, brigas, amores etc. São eles uma lutadora de telecatch, um legista, uma noiva atrasada, um professor de filosofia, um motorista de táxi e uma manicure.

Os atores contracenam entre os vãos ou em cima dos veículos (carcaças cortadas à metade, preservando-se os bancos do motorista e passageiro).

A segunda história é sobre a amizade entre um velho árabe e um menino judeu. Eles viajam dentro de um carro e encontram caminho alternativo (a tolerância) ao engarrafamento.

Na terceira, há dois planos simultâneos: futuro e passado. Uma mãe questiona a Deus a fé que levou o filho à morte. Quatro adolescentes tentam decidir qual deles irá se explodir num atentado terrorista pela construção de uma nova pátria. Mártir.

“A questão do mártir hoje em dia é muito relacionada à causa palestina, mas é histórica. Jesus era um mártir. É uma figura relacionada a todas as religiões. Tanto o mártir quanto a mãe são arquétipos. Só que ele é um adolescente, um menino. Isso acontece na África muçulmana, onde há as crianças-soldados de alá”, diz Moraes.

A montagem varia do espaço macro, uma auto-estrada, até o vazio. Na cena em que questiona a autoridade de Deus, a mãe molda um boneco em barro, até que a imagem se espatifa no chão. “O que acontece atualmente com o fundamentalismo é ancestral. O homem tem a necessidade de conflito. Esses agrupamentos [em nome de uma causa, um deus] faz com que o indivíduo perca a fé no outro. É disso que eu quero falar”, diz Moraes.

Ele escreveu a peça com o dramaturgo Maurício Arruda Mendonça, que trabalha com a Armazém desde sua criação em Londrina (1987). A companhia está radicada no Rio desde 1998 e acaba de colocar no ar o seu site,www.armazemciadeteatro.com.br, dentro do projeto de memória que já lançou três peças em DVD.

Como nas demais montagens da companhia, os atores foram decisivos na pesquisa de “A Caminho de Casa”. Elaboraram propostas de cena a partir de entrevistas com seguidores e representantes de religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo, islamismo etc). Estão no elenco Patrícia Selonk, Simone Mazzer, Sérgio Medeiros, Thales Coutinho, Ricardo Martins, Simone Vianna e Stella Rabello e outros.

Valmir Santos

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