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Folha de S.Paulo

Grupo de SP leva “Hysteria” a oito cidades da França

9.5.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, terça-feira, 19 de abril de 2005

TEATRO 
Teatro XIX embarca amanhã para 28 apresentações com 85% do texto vertido para a língua de Moliére 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Referência européia nos estudos sobre histeria no século 19, o médico francês Jean-Martin Charcot (1825-1893) costumava expor suas pacientes num teatro, diante de platéias formadas por estudantes, intelectuais e curiosos. É para aquele país que a peça brasileira “Hysteria” embarca amanhã.

O grupo paulistano Teatro XIX realiza turnê por oito cidades francesas com o espetáculo que estreou em novembro de 2001 -e o revelou quatro meses depois no Fringe, a mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba.

Na bagagem, as cinco atrizes e o diretor Luiz Fernando Marques levam 85% do texto vertido para a língua de Moliére. Foi o que mostraram na manhã da última sexta-feira durante um dos últimos ensaios antes da viagem.

Acompanhada de quatro amigas que estudam francês e foram convidadas pelo grupo, a professora Sandra Gualteri de Paula Silva assistiu à “Hysteria” pela primeira vez e saiu emocionada do encontro, à luz do dia, improvisado no terraço do prédio da escola Aliança Francesa, no centro.

“Antes do ensaio, uma colega que já havia visto me disse que a emoção talvez não fosse a mesma por causa do local, mas embarquei”, disse Silva, 53.

Ela se deixou levar pela personagem que senta ao seu lado durante toda a peça, interpretada por Sara Antunes. Trata-se de uma das cinco mulheres trancafiadas num hospício em nome da medicina da época, que via a histeria como uma questão patológica -“doença” que reafirmava preconceitos arraigados da sociedade para com a mulher.

A personagem apanha Silva pelas mãos, sussurra frases em seu ouvido, convida-a para rezar, de joelhos, até que confessa que está ali por ter matado o marido a machadadas. “Eu a perdoei porque ela não estava bem; era o que a personagem precisava naquele momento”, diz Silva.

O processo de identificação da platéia feminina é um dos trunfos de “Hysteria”. As mulheres são literalmente inseridas na roda, enquanto os homens ficam à margem, “passivos”.

“Durante a apresentação, a gente fica pensando sob tensão por causa dos relatos, mas, ao mesmo tempo, tudo acontece sem censura naquele ambiente repressor”, diz a pedagoga aposentada Cida Pereira, 63, que assistiu à peça pela quarta vez, agora em francês.

“Tenho mania de tentar traduzir a língua simultaneamente, o que poderia me deixar mais distante. Ao contrário, fiquei emocionada pela delicadeza do projeto”, diz a atriz Íris Yazbek, 25, espectadora de primeira viagem.

A assistente social Alaíde Theodoro, de 70 anos, que está no quinto estágio do francês, também já havia assistido ao espetáculo e diz que não encontrou dificuldades. “As atrizes conseguiram passar bem a emoção.”

Com exceção de Janaina Leite, que tem formação na língua, o elenco (Gisela Millás, Juliana Sanches e Evelyn Klein) começou a travar contato com o francês há pouco mais de dois anos.

Em 2003, o Teatro XIX fez apresentações em festivais de Cabo Verde, Portugal e da mesma França, para onde retorna.

Os cantos e alguns poemas e falas foram preservados em português, em nome da “música da língua”, por exemplo, quando as personagens entoam os versos: “Eu vou levar essas milongas/ Para o fundo do mar”.

A turnê percorrerá oito cidades, a começar por Arles, no sul do país. O grupo volta no dia 13 de junho e retoma em julho o seu segundo espetáculo, “Hygiene”, na Vila Operária Maria Zélia, no Belenzinho (zona leste de SP).

 

Valmir Santos

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