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Folha de S.Paulo

Projeto rememora “O Grande Teatro Tupi”

31.5.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, terça-feira, 31 de maio de 2005

TEATRO 
Vídeo, publicação de peças e mostra fotográfica relembram teleteatros de 1956 a 1965 de emissoras do Rio

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Numa semana, podia-se assistir a “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, com Glauce Rocha (1930-71) como Alaíde, uma das irmãs que se apaixonam pelo mesmo homem. Noutra, Jayme Costa (1897-1967) surgia como o fracassado Willy Loman de “A Morte do Caixeiro-Viajante”, de Arthur Miller. São exemplos de atrações exibidas ao vivo pela televisão nas noites de segunda-feira, entre 1956 e 1965.

Infelizmente, não se conhece nenhum videotape dos teleteatros da TV Tupi (1956-62), da TV Rio (1963-64) e da então recém-nascida TV Globo (1965), todos no Rio de Janeiro. “Mesmo depois do surgimento do videotape no Brasil [1962], a TV Tupi e a TV Rio gravavam outros programas por cima das fitas do teleteatro. Era a mentalidade da época, não havia respeito aos profissionais”, diz o ator Sérgio Britto, 82.

Na Globo, o “4 no Teatro” teve vida curta, apenas 16 edições. Foi interrompido por falta de patrocínio, conforme relata Britto. Nessa emissora, as apresentações eram gravadas, mas os videotapes desapareceram num incêndio.

Para rebobinar a história, havia pelo menos duas alternativas práticas: colher depoimento dos artistas que protagonizaram aquele período e garimpar fotografias nos respectivos acervos pessoais.

Foi o que fez a jornalista Ana Lúcia Vacchiano, curadora do projeto “Na Caixa – O Grande Teatro Tupi”, que vem do Rio e ganha temporada paulistana no Conjunto Cultural da Caixa, praça da Sé. A iniciativa inclui exposição de 50 fotos dos principais teleteatros realizados em “O Grande Teatro Tupi” (pertencentes aos acervos de Britto e do dramaturgo Manoel Carlos), vitrines com os originais dos textos e um vídeo documental de 18 minutos com depoimentos de artistas.

Hoje, na noite de abertura, serão lançados os “Cadernos do Grande Teatro”. O primeiro livro reúne duas adaptações assinadas por Manoel Carlos e encenadas na telinha em 1957: “Em Cada Coração, um Pecado”, de Henry Bellamann, e “Madame Bovary”, de Flaubert. Com tiragem de mil exemplares, a publicação será distribuída gratuitamente para convidados e entidades culturais e educacionais.

A um só tempo, formavam-se (tel)espectadores, leitores e mão-de-obra para o que depois viraria a indústria do folhetim. “Que escola eu poderia ter melhor do que essa, com liberdade total para escrever e adaptar obras-primas da literatura universal?”, pergunta Manoel Carlos, 72.

Das cerca de 400 peças do programa “O Grande Teatro”, pelo menos cem foram adaptadas ou escritas por ele.

“Minha preocupação era com a diversidade, não apenas de países mas de escolas literárias. Textos românticos, realistas, naturalistas, tudo nos interessava. E fazíamos isso com escritores russos, franceses, ingleses, alemães, espanhóis, portugueses e americanos, sem esquecer os brasileiros. Muitos desses textos eram originais meus, que eu escrevia às vezes com o meu nome, outras vezes com o pseudônimo de Doroty Blay”, diz o autor de novelas como “Mulheres Apaixonadas” e “Laços de Família”.

Também estarão presentes Britto (que revezava a direção do programa semanal com Fernando Torres e Flávio Rangel), Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg e Ítalo Rossi -núcleo recorrente da Cia. de Teleteatro que desaguaria, em parte, no grupo carioca Teatro dos Sete (1959-64).

Timberg foi escalada para ler a peça “A Voz Humana”, de Jean Cocteau.

Mas o time de atores era maior. Alguns freqüentavam os palcos do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em São Paulo, a principal companhia da época. Entre eles, Bibi Ferreira, Leonardo Vilar, Francisco Cuoco, Berta Zemel, Milton Moraes, Zilka Salaberry, Paulo Padilha, Sadi Cabral, Elísio de Albuquerque, Cláudio Cavalcanti, Monah Delacy, Norma Blum, Mario Lago, Fábio Sabag, Sergio Viotti, Yoná Magalhães e Vanda Lacerda.

“Nossa boemia era fazer “O Grande Teatro'”, diz Britto. Os ensaios chegavam a varar a madrugada. As representações duravam até quatro horas e os “reclames” aconteciam durante a passagem de um ato para outro.

“Éramos todos muito jovens, entre 18 e 25 anos. A televisão estava dando seus primeiros passos. A dramaturgia era influenciada pelo cinema, pois já queríamos fugir do teatro, por achá-lo menos adequado à linguagem da TV. Estávamos certos. O cinema estava mais próximo. Tanto é assim que todos os meus textos obedecem ao formato dos roteiros cinematográficos. Era assim que fazíamos na época. Não apenas eu, mas o [Walter Goerge] Durst, o Cassiano Gabus Mendes, o Silas Roberg e o Álvaro Moya. Nós que copiamos esse formato e que os novelistas seguem até hoje. Pegue um script nosso feito há 50 anos e compare com os capítulos de novelas de hoje: são idênticos”, afirma Manoel Carlos.

O “TV Vanguarda”, na mesma Tupi, e o “Teledrama”, na TV Paulista, foram outros teleteatros importantes.



Na Caixa: O Grande Teatro Tupi
Quando:
 hoje, às 20h, para convidados; a partir de amanhã, para o público; ter. a dom., das 9h às 21h; até 31/7 
Onde: Conjunto Cultural da Caixa (pça. da Sé, 111, tel. 0/xx/11/ 3107-0498) 
Quanto: entrada franca
 

Valmir Santos

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