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Folha de S.Paulo

Santo André conjuga Oprimido e Escola Livre

10.5.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, terça-feira, 10 de maio de 2005

TEATRO 
Desde os anos 90, cidade fomenta projetos gratuitos como o de Boal e o programa de formação em artes cênicas

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Reconhecido pólo industrial do país, o município de Santo André, no ABC paulista, se destaca também na área da cultura, por entendê-la como item fundamental da cidadania. Um exemplo disso é a política pública aplicada ao teatro. Durante a tarde e a noite de hoje, por exemplo, o Teatro Municipal de Santo André será ocupado pela 3ª Maratona de Teatro do Oprimido, atividade desenvolvida desde 1997 pela equipe do dramaturgo Augusto Boal.

Outro projeto irradiador das artes cênicas na cidade é o da Escola Livre de Teatro (pça. Rui Barbosa, 12, Santa Terezinha, tel. 0/xx/11/ 4996-2164). Em junho, a ELT completa 15 anos.

“É um exemplo único no Brasil, um apoio constante e decisivo para a manutenção do Teatro do Oprimido”, diz Boal, 74. “E apoio não só econômico mas desarmado de questões partidárias.”

Boal começou a sistematizar a prática do Teatro do Oprimido no final dos anos 70, durante a ditadura militar, quando deixou o Teatro de Arena, em São Paulo, e viveu exilado na França.

Sua premissa é colocar o cidadão como protagonista em esquetes, cenas curtas que retratam conflitos do cotidiano, quer em situações públicas ou privadas.

Na programação da maratona, por exemplo, o grupo Esperança, formado por idosos, toca num tema urgente: a Aids sobre o ponto de vista de homens e mulheres que estão com mais de 60 anos e precisam ficar atentos à prevenção, como o uso de camisinha, por exemplo.

“Em 1997, quando começamos a atuar, o Teatro do Oprimido era voltado para os servidores municipais e para o projeto do Orçamento Participativo nos bairros. Atualmente, existem 13 grupos populares em vários pontos da cidade”, diz o coordenador do programa em Santo André, Armindo Rodrigues Pinto, 56. Em 2004, a prefeitura gastou cerca de R$ 45 mil com o Teatro do Oprimido.

No momento, a ELT apresenta o espetáculo “E.L. Circo” sob uma lona erguida no parque Prefeito Celso Daniel, com capacidade para 400 pessoas (sáb. e dom., às 16h e 20h, com entrada franca).

Dirigido por Marcelo Milan e Renata Zhaneta, com dramaturgia de Luis Alberto de Abreu, o espetáculo resulta do Núcleo de Montagem Circense da escola (também existem os núcleos de formação ator, diretor etc).

O espetáculo anterior, “Nô Caminho – 7 Passos para Dentro”, com direção de Georgette Fadel, estava em cartaz até o início deste mês, no teatro Conchita de Moraes, também espaço da ELT, e deve retornar em junho (sáb. e dom., às 20h).

A ELT envolve atualmente cerca de 150 aprendizes. O orçamento é de R$ 330 mil. Segundo o seu coordenador, Antônio Rogério Toscano, 32, a iniciativa mudou a cara do bairro de Santa Terezinha. “Somente políticas públicas corajosas e ousadas, que coloquem o projeto e sua especificidade em primeiro plano, podem resultar em algo como é hoje a ELT, que trouxe grupos para criar suas sedes no entorno, em galpões abandonados, e amplificou conceitos arejados sobre pedagogia e formação teatral.
Hoje, fazemos teatro na rua e até dentro do trem -e não mais sobre a rua ou sobre a vida das pessoas que pegam o trem”, diz Toscano.

Valmir Santos

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