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Folha de S.Paulo

Peça especula sobre “fracasso da bondade”

26.10.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, sábado, 15 de outubro de 2005

TEATRO

Seis anos depois, texto de Aimar Labaki ganha remontagem assinada por Reginaldo Nascimento na praça Roosevelt

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Seis anos atrás, quando foi montada pela primeira vez, a peça “A Boa” repercutiu como uma paulada na esmola social. Lula vinha de perder sua terceira eleição e talvez já esboçasse o Fome Zero para o dia em que chegasse lá. São Paulo não tinha amanhecido com mendigos massacrados em calçadas do centro. E o cineasta Sérgio Bianchi ainda não havia lançado “Quanto Vale ou É Por Quilo?”.

O texto de Aimar Labaki ganha nova montagem na cidade reforçado pelo debate, pelo menos em alguns segmentos da sociedade, de noções de assistencialismo, paternalismo, voluntariado e afins. O autor expõe conflito entre o desejo de ser bom e o fracasso da bondade ou suas contradições.

A peça promove o reencontro de dois jovens que um dia se conheceram na faculdade. Ricardo vive na rua, mendigo a pregar versos bíblicos. Verônica é rica e solitária; vê naquela trombada do acaso a chance para desaguar o poço de generosidade que imagina guardar dentro de si.

Decidida a “devolvê-lo à civilização”, tal qual um Kaspar Hauser (o jovem mudo encontrado na Alemanha do século 19 com um livro de orações), Verônica “resgata” o rapaz para a sua casa.

Lá pelas tantas, Ricardo diz que perdeu seu passado na primeira noite que dormiu ao relento. “A gente sempre acha que o mal é a falta de conhecimento. Ledo engano. O bem é que é ingênuo e mal informado”, afirma o rapaz, procurando desconversar das responsabilidades de uma certa Corporação da qual seria presidente.

Ética e política, filantropia e revolução são algumas das entrelinhas com as quais o diretor Reginaldo Nascimento procura trabalhar na encenação de “A Boa”, em cartaz a partir de hoje no Espaço dos Satyros 2, na praça Franklin Roosevelt, em São Paulo.

“Às vezes, o bem ganha contornos de mal”, diz Nascimento, 29. Ele está ligado à Kaus Cia. Experimental (de “Vereda da Salvação”, texto de Jorge de Andrade) e foi convidado a dirigir os atores Igor Kovalewski e Ana Paula Vieira, nos papéis que foram interpretados, na primeira montagem, por Milhem Cortaz e Ana Kutner, dirigidos por Ivan Feijó.

Visto recentemente em “O Mata-Burro” (Cia. dos Dramaturgos), no Centro Cultural São Paulo, Kovalewski desce agora a outro porão, com os longos cabelos e barba acentuando a perspectiva cristã presente nos diálogos.

Apesar do contexto urbano sugerido pelo texto, Nascimento acha que a história cabe em qualquer lugar. Como diz Ricardo, a rua é um planeta.

O diretor quer enfatizar a proximidade de público e atores dispostos numa atmosfera intimista, compartilhar solidões.

A cenografia de Robson Stancov traz elementos que remetem aos ambientes da peça: a rua, a casa e a corporação. Nos figurinos, Helena Moraes tenta traduzir a condição social das personagens.

Em 2002, “A Boa” foi montada em Salvador pelo diretor Gil Vicente Tavares, com a Cia. de Teatro Contemporâneo, em projeto que contou com a parceria de uma ONG. No mesmo ano, a peça foi publicada pela Boitempo.

De certa forma, a corrosão de certos diálogos de “A Boa” encontra encontra eco em “Prego na Testa”, o texto do americano Eric Bosogian que Aimar Labaki traduziu e dirigiu há pouco, protagonizado por Hugo Possolo.

Como ilustra este diálogo entre Ricardo e Verônica, cuja sedução “do bem” inclui até o sexo: “Você não pode ser tão burra! Eu falei, eu te avisei, você não me escutou. Eu disse: eu estou na rua por que não caibo em lugar nenhum. E atrás de mim vêm 10 milhões. E não cabem 10 milhões na sua casa! Lembra?”.



A Boa
Texto: Aimar Labaki 
Direção: Reginaldo Nascimento 
Com: Igor Kovalewski e Ana Paula Vieira 
Quando: estréia hoje, às 19h; sáb., às 19h; e dom., às 18h. Até 18/12 
Onde: Espaço dos Satyros 2 (pça. Franklin Roosevelt, 124, centro, SP, tel. 0/xx/11/3258-6345) 
Quanto: R$ 20

Valmir Santos

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