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Folha de S.Paulo

Godot ecológico

31.1.2006  |  por Valmir Santos

São Paulo, terça-feira, 31 de janeiro de 2006

TEATRO

Gabriel Villela se volta à natureza ao montar o clássico de Beckett com Bete Coelho; peça estréia na sexta

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Sentadas no chão, com as costas apoiadas ao tronco-toco de uma aroeira que jaz no miolo da cena, as atrizes Magali Biff e Bete Coelho -Didi e Gogô- dão início a uma longa jornada “comitrágica”, como definiu certa vez o autor de “Esperando Godot”, Samuell Beckett (1906-1989). As duas atrizes enraízam a primeira incursão do diretor Gabriel Villela pela obra do autor irlandês, passados cem anos de seu nascimento. “Esperando Godot” estréia na próxima sexta-feira, ocupando uma área do subsolo do Sesc Belenzinho, em São Paulo -um silo revestido de tijolos e adaptado para teatro desde 2003.

Vilella pretendeu dar ares ecológicos à montagem. A encenação é ambientada num território devastado. “Devíamos ter mergulhado profundamente na natureza”, diz o personagem Estragão a certa altura do texto de Beckett. A observação foi um “gancho” para o diretor jogar luz sobre a devastação da flora e da fauna.

O espaço cênico é demarcado por dois círculos concêntricos traçados a giz. O menor deles é ocupado por uma roda de madeira, e o círculo maior tangencia o público. “É um espaço que aglutina, que faz com que atrizes, personagens e público estejamos esperando Godot”, diz Biff, 49.

Para compor a química desses seres vagabundos, de botas e chapéus-coco “picadeirescos”, que parecem tecer o ciclo vicioso de autodestruição da humanidade, a dupla de atrizes revisita os tempos da extinta Companhia de Ópera Seca (1986-1991), quando participaram de projetos concebidos por Gerald Thomas. Contracenaram, por exemplo, em “Fim de Jogo” (1990), outro Beckett fundamental.

“Mineiridade”
Quinze anos depois, as duas conjugam algo do jogo de teatralidade, de imagens e movimentos cênicos de Thomas, com a agora fase “seca” do mineiro Villela, dono de linguagem oposta, de perfil barroco, que vai dos gestos às “cores desmaiadas” do figurino, também assinado por ele.

“Nesse processo de “Godot”, muitas vezes lembrei-me da montagem de “Fim de Jogo”. O Gerald é ainda uma grande referência. O Gabriel me levou para um outro lado, com outra tessitura vocal; trouxe uma mineiridade poética, que não é a regional, mas é a de Drummond, de Guimarães Rosa”, diz a mineira Bete Coelho, 38.

Com o intuitivo e atrapalhado Estragão (trocadilho preferido ao Estragon da tradução adotada de Fábio de Souza Andrade), diz ter encontrado terreno fértil em terra de ninguém. “O Gabriel conseguiu resgatar em mim a minha criança; não a infantilidade, mas a coisa atemporal, assexuada, sem idade”, diz a atriz.

Há brecha para o escárnio em meio à crueldade. Didi e Gogô, em sua essência rígida, segundo Villela, vão preenchendo a relação com graças e pantomimas. A primeira experiência de Bete com a obra aconteceu quando ela assumiu o papel-título da peça “Cacilda!” (1998), dirigida por José Celso Martinez Corrêa, no teatro Oficina. Era a passagem em que a atriz Cacilda Becker (1921-1969) sofre um aneurisma cerebral no intervalo do primeiro para o segundo ato de “Esperando Godot” (então encenada pelo diretor Flávio Rangel), numa sessão vespertina. A atriz entrou em coma, foi operada e morreu 39 dias depois. Vivia Estragon ao lado de Walmor Chagas (Didi).

Magali Biff diz não esquecer a montagem de Antunes Filho, de 1977, também com elenco feminino -entre as atrizes estavam Lílian Lemmertz e Lélia Abramo.

“Foi um suplício lidar com o ser humano totalmente sem esperança, na afazia”, diz Vera Zimmermann, 41, que interpreta Lucky, o carregador humilhado de Pozzo, braço político mais evidente, relação arquetípica explorador-explorado. Não por acaso, o personagem interpretado por Lavínia Pannunzio surge em mãos postiças -a esquerda vem abaixo lá pelas tantas. Em seu quinto espetáculo consecutivo com Villela, Zimmermann também faz o Menino, o mensageiro que sepulta de vez as esperanças. 



Esperando Godot
Quando: estréia dia 3/2, sex., às 21h, sex., sáb. e dom., às 21h; até 26/3 
Onde: Sesc Belenzinho – subsolo (r. Álvaro Ramos, 915, Quarta Parada, tel. 0/xx/11/6602-3701) 
Quanto:
R$ 15

 

Valmir Santos

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