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Folha de S.Paulo

Vertigem espelha cidade nas águas do Tietê

22.3.2006  |  por Valmir Santos

São Paulo, quarta-feira, 22 de março de 2006

TEATRO 
Com dramaturgia de Bernardo Carvalho, o grupo de Antônio Araújo abre temporada de “BR-3” na sexta-feira 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

A ocupação do leito, margens e algumas pontes num trecho do Tietê pelo grupo Teatro da Vertigem deve proporcionar um novo olhar sobre o principal rio de São Paulo. É o que espera a equipe capitaneada por Antônio Araújo, atento à relação do teatro com a cidade. O espetáculo “BR-3” tem pré-estréias hoje e amanhã para convidados. A temporada começa na sexta-feira.

Em seu primeiro texto para teatro, o jornalista e escritor Bernardo Carvalho, colunista da Folha, espera que o rio funcione como um eco de sentido, dando um segundo grau de compreensão ao que é narrado. A peça trata da saga de três gerações da família de Jovelina (Cácia Goulart), uma nordestina que após a morte do marido na construção de Brasília vai para São Paulo e se torna chefe do tráfico em Brasilândia.

A trajetória da mulher e dos filhos, Jonas (Roberto Audio) e Helienai (Daniela Carmona), se desenrola entre as décadas de 60 e 90, percorrendo Brasília, Brasilândia e Brasiléia.

Em mais de três anos de processo, o grupo pesquisou a questão da identidade nacional, diálogos ou tensões entre os três pontos: a capital federal, o distrito da zona norte de São Paulo e a cidade do interior do Acre.

Segundo Carvalho, 45, o texto foi concebido com inspiração na condição trágica e paradoxal da espécie humana de ter de se matar para sobreviver -e de que não basta a consciência para interromper esse processo. Não por acaso, o mote de Jonas é: “Tudo em que eu toco morre”.

“O Jonas tenta fugir de um acerto de contas que significaria matar a própria irmã, quem ele mais ama, e acaba matando, sem saber, os próprios filhos. É claro que isso não tem a ver só com o Brasil, mas estando o Brasil numa espécie de periferia do capitalismo, um país onde vivem índios, onde ainda existe uma floresta das dimensões da amazônica, me parece que o país com suas contradições, é um cenário especialmente significativo dessa condição humana paradoxal”, conclui Carvalho.

Se fazer arte implica riscos, no rio a prontidão é regra diante das intempéries. Se o nível da água sobe com as chuvas, por exemplo, torna insegura a navegabilidade do Almirante do Lago, o barco que conduzirá 60 espectadores.

“Fomos imunizados, assistimos a palestras e recebemos orientações”, afirma Cácia Goulart, 38.

“No Tietê, é como trabalhar com um paciente em coma, mas que está em tratamento”, diz Roberto Audio, 40. “Ao mesmo tempo que tomo os devidos cuidados para não ser infectado, estou atento para melhorar suas condições de saúde e ajudar. Esperança requer atenção.” 



BR-3 
Quando:
estréia hoje e amanhã para convidados, e sexta-feira para o público; qui. e sex., às 21h; sáb. e dom., às 20h; até 28/5
Onde: no rio Tietê, entre o Cebolão e o viaduto da Bandeirantes. O ponto de encontro para o público é o estacionamento do Memorial da América Latina, na Barra Funda (av. Auro Soares de Moura Andrade, portão 8). Dois ônibus levarão os espectadores até o local de embarque.
Quanto: R$ 40, nas lojas da Fnac Pinheiros (pça. dos Omaguás, 34) e Fnac Paulista (av. Paulista, 901), de ter. a dom., das 10h às 22h. Mais informações, tel. 3115-0345 

Valmir Santos

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