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Folha de S.Paulo

Peça leva amor e intrigas ao Carandiru

3.4.2006  |  por Valmir Santos

São Paulo, segunda-feira, 03 de abril de 2006

TEATRO 
Baseada em conto de Drauzio Varella, “O Anjo do Pavilhão Cinco”, de Aimar Labaki, expõe jogo de ciúme no extinto presídio 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Cadeia tem leis, já disse o teatro de Plínio Marcos em “Barrela” (1958). Quase meio século depois, o cotidiano do xadrez continua observado por olhos de assombro em “O Anjo do Pavilhão Cinco”, que pré-estréia hoje para convidados e abre temporada amanhã no Espaço dos Satyros Dois, na região central de São Paulo.

A peça de Aimar Labaki tem como base o conto “Bárbara”, redigido pelo escritor, médico e colunista da Folha, Drauzio Varella, em paralelo ao romance “Estação Carandiru” (1999) -o conto, ainda não publicado, pode ser lido em drauziovarella.com.br/carandiru/inedito.asp.

Um ciclo de amor e amizade, dentro do que se concebe por amor e amizade sob as tensões de um pavilhão do extinto complexo do Carandiru, é rompido por causa de ciúme, honra, poder e outros instintos desses homens -geneticamente masculinos, mas ainda travesti ou transexual.

Todos, segundo o ator e produtor André Fusko, protagonistas de fortes emoções que dizem respeito ao gênero humano, independente de sexo. A saber.

A travesti Bárbara, que diz que ali até os anjos têm sexo, é apaixonada por Xalé, o encarregado-geral da faxina no pavilhão, cargo de responsa. Eles são casados, apesar das celas separadas.

Dado a proteger alguns desesperados do pedaço, Xalé se engraça com a transexual Galega, uma ruiva recém-chegada.

Traída, Bárbara revida com a mesma moeda e seduz Faustino, o protegido de Xalé e jurado de morte por ser estuprador.

“Cada um sabe das suas dor e dos seus gozo. Cada um cada um”, diz um quinto personagem, Jacinto, o mais jovem, atropelando a concordância da língua após o desfecho trágico do qual também é cúmplice, consciente das regras do jogo.

Para o diretor Emilio Di Biasi, 66, o desafio é dar conta desse universo tão explorado recentemente pela televisão e pelo cinema. “Será uma teatralização sem nenhum resquício de realismo”, afirma. Nos anos 90, ele dirigiu a pliniana “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, em que os atores chafurdavam na lama.

Foco no olhar
Na escrita de Labaki, os personagens não dialogam, narram. Lá pelas tantas, cada um dá seu “histórico”. Quando em grupo, o narrador da vez é ouvido pelos demais. Di Biasi deseja complementar essa escuta com outro sentido, o olhar.

“A primeira coisa que falei para os atores foi sobre a importância do olhar para estabelecer as relações”, afirma o também cenógrafo do espetáculo.

O elenco fica sempre em cena, transitando cubículos ou desníveis da sala subterrânea dos Satyros, vizinha à sede do grupo na Roosevelt. Os figurinos são de Fabiano Machado.

Os personagens são interpretados por Fusko (Faustino, o “anjo” que faz as vezes de enfermeiro no pavilhão), Darsom Ribeiro (Xalé), Fábio Penna (Jacinto), Ivam Cabral (Bárbara) e Maria Gândara (Galega).

Cabral é integrante dos Satyros (de “Transex”, “A Vida na Praça Roosevelt”). O grupo acolhe a montagem cujo projeto aprovado pela Lei Rouanet foi recusado por todas as empresas procuradas. “Tudo o que se passa com esses bandidos encarcerados, na periferia da sociedade, também ocorre aqui fora, com todas as contradições humanas”, diz Fusko, 33.

Além de ator, médico, foi ele quem idealizou o projeto “Bárbara ao Quadrado”, que se desdobra em duas peças baseadas no conto de Varella e escritas por distintos dramaturgos. No semestre que vem, será a vez de “Abre as Asas Sobre Nós”, de Sérgio Roveri, que não inclui todos os personagens e transpõe a ação para o lado de fora do Carandiru. 



O Anjo do Pavilhão Cinco
Quando:
pré-estréia hoje, para convidados, com temporada a partir de amanhã; de segunda a quarta, às 22h30; até 17/5 
Onde: Espaço dos Satyros Dois (pça. Roosevelt, 124, centro, tel. 0/xx/11/ 3258-6345)
Quanto: R$ 20 

Valmir Santos

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