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Folha de S.Paulo

“Chalaça” tenta limpar as lentes da história

17.6.2006  |  por Valmir Santos

São Paulo, sábado, 17 de junho de 2006

TEATRO
Diretor Marcio Aurélio, de “Agreste”, adapta romance de José Roberto Torero 

Peça, que estréia no Sesc Santana, lança olhar crítico ao passado brasileiro ao tratar da figura oculta do secretário de dom Pedro 1º

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

“Como assim não cabe?”, retruca um injuriado dom Pedro 1º diante de um escrivão com falta de espaço para deitar no papel aquele nome quilométrico do “defensor perpétuo do Brasil” martelado nos primeiros anos escolares: D. Pedro 1º é uma figura emblemática entre aquelas que não cabem em si em “Chalaça -°A Peça”, que estréia hoje no Sesc Santana, baseada no romance “O Chalaça” (1995), do colunista da Folha José Roberto Torero. 

“A grande questão da peça é mostrar como o individualismo inviabilizou, e ainda inviabiliza, o desenvolvimento em todos os sentidos”, diz o encenador Marcio Aurélio, 56. 

É seu segundo trabalho consecutivo junto à cia. Les Commediens Tropicales, de Campinas, que adaptou o texto finalizado por um dos intérpretes, Carlos Canhameiro. 

A opção por um certo revisionismo histórico também era flagrante em “Galvez – Imperador do Acre” (2005), transposição para o palco do romance do amazonense Márcio Souza. 

“A gente não foi treinado para olhar criticamente as coisas”, diz Aurélio. Seu diagnóstico é de “analfabetismo funcional” do país quando se trata de “ler” o passado e a incidência no presente. Trata-se de “organizar as lentes para as diferentes realidades”. 

“Pensadores como Darcy Ribeiro e Adorno já alertavam para a importância de chegar à raiz do mito, “matá-lo” para efetivar uma apropriação, uma renovação”, afirma o diretor, o mesmo do premiado “Agreste”. 

Secretário de dom Pedro 1º, Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, foi um personagem importante do Brasil Império, mas nutrido à sombra. É sujeito oculto, mas se fala dele o tempo todo.

“Esse tipo de pessoa sabe de tudo o que acontece e pode fazer com que um governo inteiro caia quando revela a verdadeira face de alguns poderosos”, diz Canhameiro, que arrematou a dramaturgia. 

A cia. Les Commediens Tropicales surgiu em 2002, junção de ex-alunos de artes cênicas da Unicamp. A consolidação veio no ano seguinte com “Terror e Miséria no 3º Reich”, um Brecht montado por Marcelo Lazzaratto. 

Além dos personagens da obra de Torero (imperatriz Leopoldina, marquesa de Santos etc.), a adaptação de “Chalaça” acresce referências da cientista social e política Isabel Lustosa, do Rio. Ela é autora de “D. Pedro 1º -°Um Herói sem Nenhum Caráter”, livro no qual disseca outras figuras históricas, como José Bonifácio, Líbero Badaró e o pintor francês Jean-Baptiste Debret. 

Nessa “teatralidade da história”, transcorre uma espécie de “CPI dos Nove”, diz Aurélio. São nove atores revezando os mesmos personagens, depoimentos plenos em tragicidade ou pura galhofa -um monitor de TV no palco reproduz imagens captadas em cena por uma câmara. 

“Eles promovem uma dança das cadeiras de salão, na qual as personalidades do poder mudam a bunda de lugar, mas continuam falando a mesma merda. É triste saber que isso acontece há séculos com o mesmo tacão [domínio tirânico].” 



Chalaça – A Peça
Quando:
estréia hoje, às 21h; sáb., às 21h, e dom., às 19h; até 9/7 
Onde: Sesc Santana – teatro (av. Luiz Dumont Villares, 579, tel. 6971-8700) 
Quanto: R$ 4 a R$ 10 

 

Valmir Santos

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