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Folha de S.Paulo

Avignon descarta o realismo cênico

25.7.2006  |  por Valmir Santos

São Paulo, terça-feira, 25 de julho de 2006

TEATRO 
Com montagens de “Mozart e Salieri” e “A Ilíada – Canto 23”, Anatoli Vassiliev reafirma busca por teatro espiritual 

Seguidor dos princípios de Stanislavski e Dantchenko, encenador russo mostra em festival francês peça cuja concepção levou sete anos

VALMIR SANTOS 
Enviado especial a Avignon 

Localizada na Europa Oriental, a Rússia é a nascente do teatro psicológico disseminado no lado ocidental daquele continente e no restante do planeta. Os responsáveis por isso foram os mestres do Teatro de Arte de Moscou (1898), Constantin Stanislavski e Vladimir Nemirovitch-Dantchenko -e depois Meyerhold. Eles legaram estudos fundamentais sobre a arte do ator. 

Na Moscou de hoje, mais afeita ao capitalismo, um dos artistas que mais dialogam com aquela tradição é Anatoli Vassiliev, cuja vitalidade está na dimensão espiritual (e ritual) com que trata a cena, em chave metafísica. 

Seus espetáculos são impregnados de conteúdos sobre religião (não o dogma, mas a liturgia) e filosofia (Platão), transmutáveis pela ação física e pelo canto, invariavelmente na forma de coros. Foi o que se viu nos dois trabalhos que apresentou no 60º Festival de Avignon, principal evento mundial das artes cênicas, que segue até quinta-feira, no sul da França. 

“Mozart e Salieri” (2004) e “A Ilíada – Canto 23” (2003) foram levadas ao ar livre, numa pedreira desativada a 20 minutos do centro da cidade, a Carrière de Boulbon, mítico espaço onde o inglês Peter Brook mostrou sua versão para o poema épico indiano “Mahabharata”. 

A peça “Mozart e Salieri” (1826), de Aleksander Pushkin, versa sobre o embate entre os dois gênios -na ficção, o último teria envenenado o primeiro. Na “Ilíada” (século 8 a.C.), épico de Homero considerado fundador da civilização e do “espírito” gregos, o recorte é pelo canto (ou capítulo) em que acontecem os funerais de Pátroclo e os jogos militares. 

Ambos os textos são em versos, sobre os quais Vassiliev trabalha ritmo e entonação. Notam-se ainda os fios da ortodoxia como dado cultural da Rússia -não rechaçado, mas relido. Também estão presentes os movimentos corais, com direito a técnicas de lutas marciais em “A Ilíada” -a diretora Maria Thaís, da cia. Teatro Balagan (SP), trabalhou com Vassiliev e co-assina a coreografia. 

No espaço cênico em que as paredes de pedra direcionam o olhar para o céu, sob o som noturno das cigarras, despontam os cerca de 40 intérpretes em cada um dos espetáculos, entre atores, cantores e músicos. “O trabalho não é fruto de experiências casuais, mas direcionado por teorias e práticas anteriores do teatro psicológico russo. Eu saí dessa base. O período de pesquisa da prática espiritual levou anos, até que uma metodologia exata foi formada”, afirma Vassiliev, 64. 

As primeiras experiências para uma prática espiritual no teatro datam dos anos 90, com o drama litúrgico “A Lamentação de Jeremias” (1995). Um ano antes, aconteciam os primeiros estudos para “A Ilíada”. 

A versão mostrada em Avignon foi finalizada em 2003: um processo de quase dez anos. “Eu simplesmente ocupei uma lacuna que foi deixada no teatro russo, que começou a partir do drama secular. O drama litúrgico existia somente junto aos monastérios, o chamado drama escolar. Restaurei esse período que foi deixado em branco, quase uma reconstrução. Havia resistência quanto ao drama metafísico, o realismo cênico era mais forte”, explica Vassiliev, em russo, traduzido pela atriz brasileira Marina Tenorio, integrante da Escola de Arte Dramática que ele coordena em Moscou desde 1987. 

Ao sintetizar passado e presente, Vassiliev abriu novas portas para o teatro contemporâneo nas últimas duas décadas. Herdou e recriou a figura do encenador-pedagogo da escola russa. “O diretor e o pedagogo são a mesma coisa, porque a encenação não é entendida sem a pedagogia. Diferente da escola européia, que se relaciona com o ator como um objeto. O encenador-pedagogo lida com o ser humano e é a partir desse ponto que é desenvolvida toda a terminologia.” Um teatro da utopia, como ele diz.



O repórter 
VALMIR SANTOS viajou a convite do Consulado-Geral da França em São Paulo

 

Valmir Santos

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