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Folha de S.Paulo

Aracy Balabanian vive escritora em conflito

4.8.2006  |  por Valmir Santos

São Paulo, sexta-feira, 04 de agosto de 2006

TEATRO 
Aos 66, a atriz protagoniza “Comendo entre as Refeições”, de Donald Margulies 

Texto dirigido por Walter Lima Jr., que estréia hoje no Teatro Folha, opõe veterana e sua aluna em apropriação de caso de amor do passado

VALMIR SANTOS
 Da Reportagem Local

Aracy Balabanian não teve filhos. Assim como a escritora consagrada e professora universitária que interpreta na peça “Comendo entre as Refeições”, cuja temporada começa hoje no Teatro Folha. 

Muito do instinto materno a atriz canalizou para sobrinhas que ajudou a criar e, mais recentemente, para uma afilhada. Isso para não dizer da variedade de personagens que há 43 anos acolhe no palco, na televisão e no cinema. “Todos eles, dos quais aparentemente nos apropriamos ao longo da carreira, nos ajudam a ser melhores como pessoa. Mesmo quando não tão virtuosos, a gente acaba aprendendo muito”, conta Aracy Balabanian, 66. “Sempre tive preocupação em escolher meus personagens: é isso que quero dizer neste momento? É isso que tenho vontade de trocar com alguém?” 

O conflito de gerações em “Comendo entre as Refeições”, drama realista do americano Donald Margulies, lhe interessa sobremaneira. Trata-se do vínculo entre Ruth Steiner (Balabanian), professora da Universidade Columbia e dona de obra prestigiada em Nova York, e a estudante de letras Lisa (Virginia Cavendish), sua aluna, estagiária e também aprendiz de escritora. Num dos seus primeiros livros de ficção, sempre sob a tutela de Ruth, Lisa retrata uma paixão secreta vivida pela professora nos anos 50, sem o consentimento desta -um affair com o poeta nova-iorquino pinçado por Margulies da vida real, Delmore Schwartz (1913-1966), que influenciou artistas como Lou Reed. 

A intimidade tornada pública, ainda que sob o viés ficcional, vira o pomo da discórdia. Ruth afirma que foi “roubada”, “violentada” em sua intimidade. Lisa contra-argumenta que escreveu a história em sua homenagem, inclusive sob seus preceitos de boa literatura. “É um espetáculo extremamente oportuno, porque fala de ética, aquela que o Mário Quintana dizia ser estética da alma, muito importante em tempos de individualismo absoluto”, diz Balabanian. Ela traça paralelo com sua geração, “de escrúpulos”, com as seguintes, que teriam regredido ao “se você não fez o que devia, faço eu e boto meu nome”. 

A produtora da peça e atriz com quem contracena, Virginia Cavendish, 35, diz que a montagem dirigida por Walter Lima Jr. (segunda incursão do cineasta pelo teatro), que estreou em fevereiro no Rio, cuida em não prejulgar. A começar pelo título original, “Collected Stories”, que a tradutora Sueli Cavendish, sua mãe, optou por “Comendo entre as Refeições” a “Estórias Roubadas”, da versão protagonizada por Beatriz Segall em 2000, porque já denotaria juízo de valor. 

Cavendish, a atriz, lembra que o autor traz em epígrafe o irlandês Oscar Wilde, para quem todo discípulo rouba um pouco do seu mestre. “No fundo, é quase uma história sobre a morte e o nascimento de um escritor, narrada pelas duas”, afirma a intérprete da pupila.



Comendo entre refeições
Quando:
estréia hoje, às 21h30; sex., às 21h30; sáb., às 21h; e dom., às 19h; até 1º/10 
Onde: Teatro Folha – shopping Pátio Higienópolis (av. Higienópolis, 618, piso 2, tel. 3823-2323) 
Quanto: R$ 35 e R$ 40 (sáb.) 

Valmir Santos

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