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Folha de S.Paulo

Capoeira é destaque em Curitiba

21.3.2007  |  por Valmir Santos

São Paulo, quarta-feira, 21 de março de 2007

TEATRO 
Festival de teatro, cuja 16ª edição começa amanhã, apresenta musical com 14 canções para berimbau

Espetáculo de Paulo Cesar Pinheiro conta a história de Manoel Henrique Pereira, o Besouro Mangangá, herói popular das ruas da Bahia

VALMIR SANTOS 
Enviado especial ao Rio de Janeiro 

A caminho da milésima gravação em 40 anos de carreira (em 2008), o compositor carioca Paulo Cesar Pinheiro prepara um disco dedicado à capoeira. A rigor, o trabalho começou aos 16 anos, quando da primeira parceria com Baden Powell em “Lapinha”, sucesso na voz de Elis Regina em 1968.

Mas o teatro chegou antes do disco: o musical “Besouro Cordão-de-Ouro” estreou em dezembro, no Rio, e é uma das atrações da mostra oficial do 16º Festival de Curitiba, que começa amanhã e vai até 1º/4.

O roteiro e as 14 canções são de Pinheiro -cada uma delas para determinado toque do berimbau: jogo de dentro, jogo de fora, são bento, angola, cavalaria, benguela, barravento etc. “Adeus Bahia, zum-zum-zum/ Cordão-de-Ouro/ Eu vou partir porque mataram meu Besouro”, continua “Lapinha”, numa citação a Manoel Henrique Pereira (1885-1924), o capoeirista Besouro Mangangá ou Besouro Cordão-de-Ouro.

Não é a primeira vez que Pinheiro, 58, se aventura pela criação teatral, parceiro recorrente de Edu Lobo em várias canções para o palco. “O mais difícil foi a parte literária”, reconhece o autor.

Defesa dos pobres
Um fiapo de dramaturgia pontua passagens da vida do personagem evocado na obra de Noel Rosa, Jorge Amado e outros. Diz a lenda que Besouro foi valente com policiais e poderosos, em defesa dos empobrecidos, brandindo as artes da capoeira, do violão, do samba-de-roda e da chula (dança e música populares de origem portuguesa). “Era um herói da rua na Bahia, e não um herói mitificado”, diz Pinheiro.

“O espetáculo fala de um homem brasileiro, em certo sentido em extinção: aquele que se impõe enquanto indivíduo, não com individualismo, em função de uma coletividade. Besouro enfrenta a polícia desarmado para proteger os injustiçados. Luta com o corpo, a ginga, a voz”, afirma o diretor João das Neves, 73. Além do recorte biográfico, de modo algum linear, a narrativa faz incursões históricas à resistência e revolta do povo negro. No elenco, os 13 artistas que jogam, cantam e dançam são negros.

Com exibições em Curitiba no sábado e no domingo, a peça é concebida como uma roda de capoeira -ao final, literalmente aberta à participação do espectador ou capoeirista. O público ocupa almofadas e cadeiras num cenário envolto por cerca de mil caixotes.

Pinheiro convidou Neves para dirigir (é a primeira vez que trabalham juntos) porque assistia a seus shows e espetáculos no Opinião (1964-1982), o grupo que fazia teatro de protesto durante a ditadura, impulsionado pelo Centro Popular de Cultura, o CPC da UNE.

“Nossas utopias ideológicas foram, de alguma maneira, solapadas. Convicções tiveram que ser revistas dos anos 60 para cá. Não estamos no país da ditadura, mas da esperança, apesar de o Brasil carregar muitas das mazelas do passado, algumas delas agravadas”, diz Neves, 50 anos de teatro.

Em tempo: o disco de Paulo Cesar Pinheiro deve sair até o final do ano. 
 

Valmir Santos

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