Menu

Assine nossa newsletter

Crítica

A maioridade do festival Porto Alegre em Cena

27.9.2014  |  por Michele Rolim

Foto de capa: Anselmo Cunha/Prefeitura de Porto Alegre

Durante 19 dias a capital dos gaúchos estava mais movimentada, uma vez que a 21ª edição do Festival Porto Alegre em Cena terminou nesta segunda (22). Com coordenação-geral e curadoria assinada por Luciano Alabarse, o festival apresentou 11 espetáculos internacionais (sendo oito deles da Argentina, além de Uruguai, Portugal e Estados Unidos), 16 atrações nacionais (da Bahia, de Pernambuco, do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Minas Gerais), além de 13 montagens locais.

Ao longo desses anos o Em Cena vem se tornando cada vez mais um festival de palco, já que a música vem ganhando suma importância entre as atrações na programação. Proposta que agrada ao curador que elegeu espetáculos musicais que foram destaques nesta edição, como: São 3, da fadista Mísia, de Portugal que interpretou Lupicínio, Caymmi e Cartola; Maldigo, da cantora popular argentina Liliana Herrero; Embalar, o mais recente álbum da paulista Ná Ozzeti; Tudo tanto, da divertida Tulipa Ruiz, de São Paulo e Pedro e o Lobo e Canções Partimpim, com Adriana Calcanhotto acompanhada de membros da Orquestra Sinfônica da Universidade de Caxias do Sul.

Todas essas atrações musicais estão carregadas de muita teatralidade, seja na presença de palco das cantoras, nas histórias contadas ao público, bem como nas letras das canções. Portanto, de alguma forma esses espetáculos seguem flertando com o gênero teatral.

Pode-se dizer também que nesta edição o teatro argentino marcou presença. Se, no ano passado, a participação de espetáculos dos países da América Latina foi enxuta (um uruguaio e um chileno), este ano é maior (oito da Argentina e um do Uruguai) devido a uma parceria com o Instituto Nacional do Teatro do governo da Argentina.

Nesta edição os espetáculos são provenientes de diferentes cidades da Argentina. Esse recorte curatorial proporcionou que o espectador visualizasse a diversidade da produção cênica daquele país. Destaco dois deles: o portenho La mujer puerca, pela atuação de Valeria Lois, que está sozinha no palco contando uma história que por vezes emociona e por outras impacta. A dramaturgia é assinada pelo Osqui Guzmán, que vem se sobressaindo dentro do panorama da nova dramaturgia nacional da Argentina. O segundo destaque é o trabalho sensível e com rigor técnico do marionetista Jorge Onofri, de Neuquén (Patagônia), que apresentou Podés silbar? [Podes assobiar?] e La niña invisible.

Marionetista Jorge Onofri em ‘Podés silbar?’

Quanto aos espetáculos nacionais, nesta edição também houve montagens que apostaram na dramaturgia e no trabalho de ator. Vale dizer que algumas de forma mais contundente que outras. Quarteto, da companhia Teatro Nu, foi uma delas. A peça, com direção do baiano Gil Vicente, despertou muita curiosidade, pois o texto de Heiner Müller já havia sido apresentado no festival com uma montagem de Bob Wilson com a diva francesa Isabelle Huppert. Os atores Marcelo Praddo e Bertrand Duarte surpreenderam a plateia. Através de personagens andróginos, eles conseguiram transpor o erotismo que o texto pede se revezando nos papéis.

Também aqui se enquadra os espetáculos Incêndios, com direção de Aderbal Freire-Filho e protagonizado por Marieta Severo e o Tríptico Samuel Beckett, com Nathalia Timberg e direção de Roberto Alvim. Incêndios é um espetáculo tradicional, conta uma história com início, meio e fim, porém emociona e desestabiliza pelo vigor da dramaturgia. Nathalia encara, aos 84 anos, seu primeiro Beckett, ao mesmo tempo em que se desafia com a direção de Alvim (que esteve ano passado no festival apresentando textos gregos). Ele é conhecido por propor um sistema cênico que consiste na utilização de pouca luz, minimalismo nos gestos, intensificação no trabalho de voz dos atores tendo como elemento fundamental o texto. Também fazem parte desse grupo A morte de Ivan Ilitch, solo de Cácia Goulart, sobre o clássico de um dos grandes mestres da literatura russa do século XIX: Liev Tolstói.; e O estranho cavaleiro, espetáculo gaúcho dirigido por Irion Nolasco, com texto do autor belga Michel de Ghelderode.

Vale também lembrar trabalhos que representaram muito bem o teatro contemporâneo, nestes há uma dissolução de fronteiras entre obra e processo; real e ficção; dramaturgia e roteiro; e ator e performer. São eles: Get out e Humor, ambos do grupo mineiro Quatroloscinco e a montagem gaúcha Miragem, da Cia Rústica.

Esta edição também homenageou duas personalidades pelo nascimento: o cantor e compositor Lupicínio Rodrigues pelo centenário e o dramaturgo inglês William Shakespeare pelos 450 anos. Lupi com o musical Vingança, de São Paulo e Shakespeare com Sonho de uma noite de verão (dos Estados Unidos), da companhia Actor’s Gang, dirigido por Tim Robbins.

Para finalizar, é importante registrar que o espetáculo gaúcho Pequenas violências silenciosas e cotidianas, da Cia. Stravaganza, foi o vencedor do Prêmio Braskem em Cena de melhor espetáculo pelo júri oficial. O prêmio tem como objetivo incentivar o crescimento do teatro local.

.:. Texto publicado originalmente no Jornal A Plateia, de Santana do Livramento (RS), p. 14, em 25/9/2014.

Michele Rolim

Quer receber mais artigos como este? Então deixe seu e-mail:

Relacionados