Escrito por Paulo Santoro e dirigido por Eric Lenate, O teste de Turing é um espetáculo de códigos duais. Matemática e linguagem, realidade e aparência, cérebro e máquina, inteligências artificial e emocional. Assim avançam as variáveis racionais e sensíveis, como se indagassem o quão compatíveis podem soar nos campos da arte, da ciência e da filosofia.

A peça permite divisar tanto o ato da manipulação como a doutrina do maniqueísmo – vocábulos de radicais semelhantes, mas distintos em sua essência. Ambos dão margem ao artifício do teatro e aos ardis de uma ficção científica. A dramaturgia consegue aproximá-los ao mimetizar um laboratório da sociedade humana onde as certezas são colocadas em xeque.

Sóbria, a encenação de ‘O teste de Turing’ equivale a um dispositivo que atende às necessidades do drama compondo espacialidades e atemporalidades sem malabarismos futuristas

Como paródia de fundo do mundo corporativo, o enredo envolve uma multinacional convicta da eficiência máxima de seu produto de ponta, uma máquina capaz de incorporar reações humanas vinculadas ao coração e à mente. Falta validar o novo aparato tecnológico para o mercado. Por isso recorre ao teste do matemático inglês Alan Turing (1912-1954), pioneiro da computação. O método consiste em submeter o autômato à bateria de perguntas por renomados professores em suas áreas, dois matemáticos e um linguista. Cabe à assistente do presidente da empresa fazer a interface dos intelectuais com a máquina.

O material dramatúrgico não teme atravessar a aridez matemática, terreno cada vez mais permeável à linguagem. A sedução pelo conhecimento é estruturante. Não demoniza o determinismo tecnológico ou ridiculariza os sentimentos demasiado humanos. Evita didatismo, mas não ignora a necessidade de contextualizar o público quanto às referências teóricas ou científicas. Santoro cria diálogos expositivos com rédea curta. É engenhoso na trama que diz respeito aos enigmas do futuro.

O autor de O canto de Gregório (2004) reafirma ainda a profusão metafísica em plena discussão sobre o papel dos robôs. Escolhe a ficção científica e articula bem a vertente que não costuma ser concretizada no palco com a mesma pertinência da literatura e do audiovisual.

Rodrigo Fregnan é um dos professores na peça de Paulo SantoroLeekyung Kim

Rodrigo Fregnan é um dos professores na peça de Paulo Santoro

Eric Lenate confia nas premissas da objetividade do texto. Sóbria, sua encenação equivale a um dispositivo que atende às necessidades do drama compondo espacialidades e atemporalidades sem malabarismos futuristas. Foi assim na introdução do trio de professores por meio de telas retransmissoras de imagens de câmaras de segurança em tempo real (ao que parece). E na manutenção do suspense quanto à realidade oculta numa misteriosa caixa de pandora à boca de cena. Resíduo de esperança em cenário de vida interpessoal cada vez mais asséptica.

O paradoxo é que essa mesma encenação não alcança no trabalho de parte dos atores a forma para o teatro falar dos malefícios da virtualidade sem esfriar sua cena. As atuações dos professores sugerem que não é levada em conta a plausibilidade dos lugares de fala desses profissionais da academia. Na montanha-russa de razões e emoções a que são submetidos, os personagens de Jorge Emil, Rodrigo Fregnan e Felipe Ramos permanecem na superfície do gesto e da voz (distanciamento reforçado pelo microfone de rosto). Abre-se um fosso nesses momentos, como se o público tivesse diante de uma conferência que não comunica, apesar do conteúdo.

É na figura da assistente da corporação, Gabriela, que O teste de Turing se realiza plenamente naquilo que a escrita e a direção suscitam. E a via aqui é a da sutileza. Seja na emissão vocal metálica ou na contenção gestual que lá pelas tantas dão uma guinada no roteiro, Maria Manoella compõe partitura ímpar nesse sistema imaginário de saturação da lógica. Quando se supõe o óbvio, a atriz surpreende com a equação menos é mais, ampliando a percepção do espectador.

Maria Manoella emana sutileza no sistema de saturação da lógicaLeekyung Kim

Maria Manoella emana sutileza no sistema de saturação da lógica

A analogia do criador dobrado pela criatura é um dos pontos subjacentes nesse fluxo de consciências. Afinal, num futuro não muito distante a máquina vai desancar o cérebro de quem a inventou. E autômatos vão filosofar sobre dar um fim em sua existência feito um Albert Camus diante do problema que considerou “verdadeiramente sério”.

Os artistas fantasiaram justamente para questionar essas fronteiras. Particularmente Santoro, Lenate e Fregnan, cuja disposição para o risco é alimentada desde, pelo menos, a convivência no Centro de Pesquisa Teatral, o CPT, coordenado por Antunes Filho. Já Turing, o texto, nasceu doze anos atrás, tendo cumprido sua primeira temporada no Centro Cultural São Paulo dentro da II Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos, de 15/7 a 7/8.

.:. Escrito no contexto do projeto Crítica Militante, iniciativa do site Teatrojornal – Leituras de Cena contemplada no edital ProAC de “Publicação de Conteúdo Cultural”, da Secretaria do Estado de São Paulo.

Ficha técnica:

Texto: Paulo Santoro
Direção: Eric Lenate
Com: Maria Manoella, Rodrigo Fregnan, Jorge Emil e Felipe Ramos
Participação especial: Fernando Gimenes, Martina Gallarza, Eric Lenate e Calu Baroncelli
Iluminação: Aline Santini
Figurinos: Rosangela Ribeiro
Ambientação cenográfica: Eric Lenate
Trilha sonora, sonoplastia e engenharia de som: Leonardo Pimentel Daniel (L. P. Daniel)
Videografia: Laerte Késsimos e Eric Lenate
Fotos e registro documentário: Leekyung Kim
Produção: Gelatina Cultural
Direção de produção: Ricardo Grasson
Assessoria de imprensa: Frederico Paula e Vanessa Pinheiro Fontes (Nossa Senhora da Pauta)
Idealização: Sociedade Líquida