O lar de Alvise Camozzi paira suspenso no espaço. Nele não há mesa, porta ou janela. No lugar do chão, há um abismo.

Autor e diretor que trocou Veneza pelos trópicos, ele abre sua casa para o público em Psicotrópico, experimento que encerra uma trilogia sobre deslocamento, pertencimento, fronteira e perda iniciada há três anos por seu Núcleo Artístico Società Anonima.

A morada ao mesmo tempo alegórica e literal é sugerida em cena através de uma casinha de fibra de vidro sustentada por um retângulo vazado de aparência precária. Hospeda estilhaços da trama De um dia para outro (Von heute auf morgen), ópera cômica dodecafônica em um ato, do compositor austríaco Arnold Schönberg. O tema central é a traição amorosa, metáfora para evocar a traição de arte e pátria empreendida pelo diretor uma vez que ele abandona suas raízes italianas e, no palco, rompe convenções.

As condições do estrangeiro e do artista se assemelham. Ambas também se confundem com a natureza desenraizada do homem contemporâneo

Psicotrópico subverte noções próprias a certa tradição teatral como lógica, linearidade e reações de causa e efeito, tendo como norte uma dramaturgia composta por uma rede de fragmentos organizados de maneira aparente aleatória.

É significativo o fato de tradição e traição possuírem a mesma raiz no latim: tragere, cujo significado é transmitir. Ao trair as tradições de sua arte e, desse modo, desviar-se da transmissão, Camozzi investiga novas possibilidades de comunicação em cena.

Neste solo inspirado em fatos autobiográficos, o protagonista volta ao Brasil após uma viagem à Itália para despedir-se da mãe, a qual se despedia da vida.

Camozzi sai de casa para regressar à casa. Este é o paradoxo de sua vida, transposto para seu personagem. “Você deixa a casa somente quando é a casa que te manda embora (…) Mesmo assim você continua cantarolando em voz baixa o hino nacional. Em voz baixa”, diz ele, que encontra eco de sua história no poema Hierarquia, em que o cineasta Pasolini identifica o estrangeiro como um “exilado da vida, um peregrino de uma fé que não compartilha, representante de uma mercadoria depreciada: a esperança”.

Alvize Camozzi no solo PsicotrópicoRachel Brumana

Alvize Camozzi no solo Psicotrópico

As condições do estrangeiro e do artista se assemelham. Ambas também se confundem com a natureza desenraizada do homem contemporâneo. Afinal, ruíram os valores e as tradições que costumavam servir de pilares para a sociedade. O migrante pode ser visto, desta forma, como representação do homem atual, condição universal do habitante do tempo presente.

Em sua incessante investigação de pátria, na busca por estender seus limites territoriais e se renovar, Camozzi encontra abrigo na arte de Schönberg. Amante de óperas, ancora-se em composições atonais e não-hierárquicas para criar e revisitar raízes europeias.

Psicotrópico é sua experiência particular de transposição teatral do sistema musical dodecafônico. A obra persegue a lógica da desarmonia e discordância. Se em Schönberg nenhum som prevalece sobre os outros, no espetáculo narrativa alguma sobressai.

O ator recebe seu público de maneira informal. Conversa com espectadores ainda fora da sala de teatro, pouco antes do início do espetáculo. Já no palco, inicia sua história de forma improvisada e pessoal, a partir de assuntos surgidos na fila.

A intimidade estabelecida não demora a se romper. O verdadeiro empenho de Camozzi é em desnortear o espectador. Quando a plateia ameaça familiarizar-se com a lasca de narrativa apresentada, o ator parte para outra trama. Deixa seu público à deriva e a história abandonada, voando no espaço, como sua casa. Nada se conclui. Cabe a cada espectador construir relações entre os fragmentos partidos desse solo.

Empenho de ator é desnortear espectadorRachel Brumana

Empenho de ator é desnortear espectador

Diversas personagens intituladas Laura são descritas em cena. Diferenciam-se sobretudo pelos universos que habitam, instaurados pela linguagem, fato que deixa a trama ainda mais insólita. São fragmentos poéticos, artísticos, pictóricos, televisivos e mercantis de Lauras.

Valendo-se de uma narrativa veloz composta por retratos instantâneos da metrópole e de uma fala cadenciada, ditada pelas batidas da música eletrônica, o ator apresenta a Laura mercadoria, inserindo-a no universo espetaculoso da sociedade de consumo, em alusão à escultura homônima do artista americano Duane Hanson.

Também toma emprestado o nome Laura para adicionar ao quebra-cabeça irresoluto do espetáculo a história de traição que envolveu o compositor Schönberg, sua mulher e o pintor austríaco Richard Gerstl.

Há ainda a Laura romântica, símbolo de beleza feminina e musa inspiradora do poeta medieval Francesco Petrarca; a Laura assassinada, revelada a partir de um diálogo no qual Camozzi se divide entre detetive, produtor e namorado da vítima, em referência ao filme Laura, de Otto Preminger; a Laura melodramática, estrela de novela; e a Laura virgem e pura do Retrato de uma jovem noiva, do pintor renascentista Giorgione, entre outras.

As Lauras expostas são desprovidas de subjetividade. O espectador termina o espetáculo alheio ao mundo interior das personagens, como se elas não passassem de produtos de suas épocas.

Como seres privados de consciência, ao mesmo tempo parte da sociedade e a própria sociedade, são evocações dos homens identificados pelo filósofo francês Guy Debord como representantes da “extinção dos limites do moi (eu)” da humanidade atual.

Mesmo quando evoca sua história pessoal, ao abordar a morte da mãe, o ator/personagem se abstém de interioridades. Desperta sensações no espectador a partir do jogo de manipulação da carpintaria dramatúrgica. Não através do que é dito, mas de como é dito. Ou seja, conteúdo é gerado através da forma.

A pesquisa de Camozzi se dedica à sensibilização do público para novos tipos de recepção. Em 2011, ele deu tratamento simbólico para O bosque, texto de linguagem realista de David Mamet. Nas suas montagens das peças/partituras da dramaturga italiana Letizia Russo, como no solo , protagonizado por João Miguel, também almeja a compreensão racional do espectador.

É ainda mais radical no espetáculo atual, cujo termo psicotrópico deriva das substâncias de efeitos alucinógenos ou estimulantes que agem no sistema nervoso central e modificam a percepção de mundo. Através do monólogo, faz o público habitar sua persona de migrante e vagar desnorteado em terras estrangeiras.

A frase derradeira do filme Decameron, de Pasolini, ressoa durante o trajeto. “Porque realizar uma obra, se é tão belo somente sonhá-la?” De fato, se a iminência da criação é sonho, como se explica o ato criativo?

Camozzi parece criar para transformar sonho em viagem. Caminha rumo ao inominável, buscando fazer do percurso seu devaneio.

.:. Escrito no contexto do projeto Crítica Militante, iniciativa do site Teatrojornal – Leituras de Cena contemplada no edital ProAC de “Publicação de Conteúdo Cultural”, da Secretaria do Estado de São Paulo.

Serviço:
Psicotrópico
Onde: Sesc Ipiranga – Auditório (Rua Bom Pastor, tel. 11 3340-2000)
Quando: sexta, às 21h30; sábado, às 19h30 e domingo, às 18h30 Até 11/9
Quanto: de R$ 6 a R$ 20
Duração: 60 min.
Classificação: 14 anos

Ficha Técnica:
Texto e direção: Alvise Camozzi
Com: Alvise Camozzi
Concepção: Núcleo Artístico Società Anonima
Cenografia e esculturas: William Zarella Jr.
Desenho de luz: Guilherme Bonfanti
Pesquisa sonora: Daniel Maia e Gustavo Arantes
DJ set ao vivo: Gustavo Arantes a.k.a DJ Goonie
Concepção de vídeos e mapping: Grissel Piguillem
Figurino: Marina Reis
Captação de imagens: Zarella Neto e Rachel Brumana
Operador e assistente de luz: Aldrey Hibbeln
Operação  de legendas e vídeo: Gabriel Godoy
Colaboração dramatúrgica e de direção: Daniela De Vecchi, Letizia Russo, Cássio Santiago, Rachel Brumana
Colaboração: Patricia Bruschini e Elisa Band
Direção de produção: Rachel Brumana
Produção: Substância Produções Artísticas
Agradecimentos: Estudio Kott, Teatro da Vertigem, Sesc Ipiranga
Apoio a pesquisa: Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo