Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.
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28.8.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, segunda-feira, 28 de agosto de 2006
TEATRO
Peça da companhia do diretor inglês mostra luta de imigrante por passaporte
Protagonista lembra que, além de africanos, famílias da Europa Oriental e do Oriente Médio também sofrem ao mudar de país
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Na arte, criar formas simples e destiná-las com significação ao outro é sempre um desafio.
Peter Brook submete-se a ele com mais profundidade desde os anos 1970, quando viajou à África com o seu Centro Internacional de Criação Teatral.
O espetáculo “Sizwe Banzi Está Morto” -que faz sessões de amanhã a quinta-feira, no Sesc Anchieta, em São Paulo, com ingressos esgotados- é exemplar de como a riqueza da cultura e a resistência popular daquele continente influenciam o trabalho do encenador inglês -que também já se arriscou na direção cinematográfica (em “Encontro com Homens Notáveis” e “O Mahabharata”), e na literatura (“Fios do Tempo”, “A Porta Aberta”). Desta vez, o londrino Brook, 81, não vem ao Brasil. Desde 2000, suas produções recentes são vistas no RS, MG, SP e RJ.
Nelas, as cenas são como que conformadas a uma arena, mesmo quando em platéia frontal, com pleno potencial para envolver a platéia. Era assim em “O Traje” (Le Costume), “A Tragédia de Hamlet” e “Tierno Bokar”. A ênfase numa voz narradora acentua ainda mais a noção de uma roda de contadores de história, símbolo da transmissão oral africana.
Em “Sizwe Banzi”, dá-se igual despojamento. Há poucos objetos em cena. São mínimas as variações de luz. Para ter idéia, no Festival de Avignon, no mês passado, o espetáculo foi encenado ao ar livre.
Dois africanos francófonos representam a história de um trabalhador imigrante às voltas com a segregação racial do Estado nos anos 70.
Não à toa, a peça foi escrita em 1976, ano do levante estudantil contra o regime. E a seis mãos -pelo trio sul-africano Athol Fugard, John Kani e Winston Ntshona. O entrecho político é a obrigatoriedade de passaporte para circular nos guetos. O drama de Banzi é que só obterá o documento e trabalhar para sustentar sua família se provar que está morto.
A perda de identidade é retratada na interpretação de Habib Dembélé, o “Guimba”, ator e dramaturgo nascido no Mali, e Pitcho Womba Konga, cujo congolês radicado na Bélgica.
Konga, que vive Banzi, é cantor de hip hop desde os anos 1980 e já lançou álbuns independentes. Nos últimos anos, segue em carreira paralela com a companhia de Brook.
“Naturalmente, a peça tocou-me profundamente, porque também faz parte da minha história”, diz Konga à Folha. “Os imigrantes viajam para encontrar um lugar melhor, mas, às vezes, enfrentam condições muito difíceis. Isso não diz respeito somente aos povos negros da África mas também à Europa Oriental, ao Oriente Médio.”
Segundo Pitcho, a peça ensina como lidar com a diferença. “O que você deve fazer para ser aceito, para ter boas condições de vida. Felizmente, o apartheid não acontece sempre, o que não significa que os problemas tenham desaparecido.”
26.8.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 26 de agosto de 2006
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O amor homossexual aflora em pleno campo de concentração nazista. “Bent”, peça que o norte-americano Martin Sherman escreveu em 1979 e já foi adaptada para o cinema (Sean Mathias, 1997), ganhou montagem carioca no ano passado. E o público de São Paulo pode assisti-la no Sesc Avenida Paulista, onde estreou ontem.
Uma das cenas mais citadas da obra é a de sexo entre os personagens Max (Augusto Zacchi), preso ao tentar fugir para Berlim, pela condição de judeu, e Horst (Gustavo Rodrigues), perseguido por assinar um manifesto em favor dos direitos dos homossexuais. Max, um “bon vivant” trapaceiro, tem sua identidade transformada (ou descoberta). Obrigado por policiais a espancar seu namorado até a morte, quando detido, ele reafirmará sua sexualidade em condições subumanas.
“A imagem que tenho da peça é a da flor de lótus que nasce num lugar cinza, em todos os sentidos. Beleza e dor”, diz Zacchi, 29. Para Rodrigues, 30, a peça transita ainda por outras quebras de preconceito. “A aceitação do outro, do diferente, passa também pela crença, pela ideologia, pela raça”, diz o ator. O que justifica a contemporaneidade do texto montado 25 anos atrás por Roberto Vignati, no Rio.
A nova versão brasileira é dirigida por Luiz Furlanetto, o mesmo de “Trainspotting” (2001), para quem “Bent” é “um grito de alerta”. Ele co-criou o espaço cenográfico formado por ferro e pedra, onde circulam ainda os atores Rodrigo Pandolfo, Miro Marques, Frederico Lessa e Allan Souza Lima, além do cantor Breno Pessurno.
24.8.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 24 de agosto de 2006
TEATRO
Na peça que estréia hoje em São Paulo, ator Renato Borghi encara seu primeiro Shakespeare, em caprichada produção
Texto é um dos menos conhecidos do bardo inglês e aborda a ascensão e queda de um mecenas no meio de uma realidade mesquinha
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Em dezembro de 1972, ao final da temporada de “As Três Irmãs”, do escritor russo Anton Tchecov (1860-1904), o ator e diretor Renato Borghi desligou-se do Oficina -grupo e depois teatro em que assentou tijolos nos seus primeiros 15 anos de história.
Discordava da linha então mais radical e antropofágica adotada pelo amigo também diretor José Celso Martinez Corrêa, nascido no mesmo dia, mês e ano em que ele (30/3/1937). Borghi mergulhou em outro autor clássico, Shakespeare. Chegou a cogitar “Ricardo 3º”, mas o texto que o mobilizou de chofre era dos menos conhecidos do bardo inglês, tanto sob a ditadura militar quanto o é agora: “Timão de Atenas”, peça que estréia hoje no Teatro Popular do Sesi. “Quando o li, a primeira coisa que me chamou a atenção era esquisita: soava como uma parceria de Shakespeare com Brecht”, diz Borghi. “Era uma sensação nítida de que continha a clareza que Brecht gostaria de transmitir a respeito do sistema capitalista, mas dentro de um Shakespeare de 400 anos antes. Parecia uma transmissão espiritual.” Recentemente, ele revolveu sua biblioteca e encontrou uma tradução da peça com anotações de 1973. Idas e vindas, Borghi, 67, atravessou mais de três décadas -numa carreira que já adquiriu espessura histórica- para finalmente aportar na dramaturgia com que a maioria dos intérpretes sonha. Na contracorrente dos estudiosos que torcem o nariz para o texto “menor” do autor de “Hamlet” (mas que Peter Brook dirigiu em 1974), Borghi e seu grupo, o Teatro Promíscuo, montam “Timão de Atenas” em produção profissional (16 atores, quatro músicos e pelo menos outros 30 nomes envolvidos no projeto) da qual o Brasil não teve notícias. Do final dos anos 80 para cá, sabe-se de montagens no Rio, com Aderbal Freire-Filho, com alunos da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), ou da junção do texto com “Troilus e Cressida”, também de Shakespeare, com o grupo Os Fodidos Privilegiados; e ainda uma adaptação da obra no circuito paulistano da Cultura Inglesa, com egressos da USP, por Marco Antônio Pâmio.
Lobby
“É uma peça praticamente inédita”, exagera Borghi. Versa sobre ascensão e queda de um mão-aberta, o mecenas Timão (ou Timon). No primeiro ato, a ação se passa na pólis, Atenas, não por acaso o berço da civilização ocidental. É lá que o primeiro personagem shakespeareano de Borghi distribui sua riqueza a todos que lhe procuram. O assédio vem de senadores, negociantes, artistas, amigos… “A peça é lobby puro”, diz o ator protagonista. “Fala muito desse aspecto com o qual a gente tem se defrontado demais ultimamente, essa coisa mesquinha, corrupta, individualista, cada um querendo dar o seu golpezinho e se sair bem.” No segundo ato, o perdulário vai a pique. Sai a cidade, surge a floresta em que um esfarrapado Timão sonda o quão a sociedade que idealizara está enraizada na ambição pelo dinheiro, pelo ouro, o lucro perpétuo. “O segundo ato, para mim, é um gozo. É tesão total. É delirante”, diz Borghi. “O Timão paga o casamento de um, resolve a vida do outro, dá presente caríssimos. Em troca da dádiva absoluta, ele cria uma dívida absoluta, porque acredita que a qualquer momento a fortuna dele garantirá aquela sociedade idealizada. E, na verdade, quebra a cara, saca que estava completamente enganado.”
Diretores
“Timão de Atenas” inclui dramaturgos e diretores na pele de atores. O diálogo de gerações passa por Mauricio Paroni de Castro (do Atelier Teatral de Manufactura Suspeita), que vive Apemanto, o único amigo que não bajula , ao contrário, solta-lhe impropérios a todo instante, alertando-o sobre os malefícios do “coração liberal”. Também está lá Marcelo Marcus Fonseca (Cia. Teatro do Incêndio), como Flavio, o fiel criado de escudeiro, que tampouco conseguiu que fechasse o cofre. Outros nomes, como Nilton Bicudo (como Poeta), Pedro Vicente (Pintor) e Alvise Camozzi (Joalheiro) também já dirigiram ou escreveram peças. “Ao contrário do que possa parecer, eles foram bastante solidários, não me aborreceram não”, diz Elcio Nogueira Seixas, 34, que co-assina a direção com Luciana Borghi, sobrinha do ator. O filho de Borghi, Ariel (como Alcebiades), também contracena com ele.
Perdas
Com 48 anos de carreira, Borghi conhece os reflexos de um duro processo de criação de um espetáculo em seu próprio corpo. Nos últimos meses, passou por uma cirurgia na coluna e amargou outros cinco dias num hospital com gastroenterite aguda -acompanhada do baque da perde dos amigos Raul Cortez e Gianfrancesco Guarnieri, no mês passado. Lembra que atuou com Cortez em “Pequenos Burgueses” (1963/64), que também protagonizou um texto de sua autoria, “Lobo de Ray-Ban” (1967).
Com Guarnieri, atuou em “Pegue e Não Pague”, de Dario Fo (1982). “Dedico o espetáculo aos meus dois amigos”, conclui o ator.
São Paulo, terça-feira, 22 de agosto de 2006
TEATRO
“Proprietários à Moda Antiga” faz parte de projeto sobre o teatro da Rússia
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Da nova geração de diretores de teatro em Moscou, Mindáugas Karbáuskis, 34, traz ao Brasil a adaptação de um conto de Nikolai Gógol (1809-1852) em que jovens interpretam personagens mais velhos.
Em “Proprietários à Moda Antiga” (2001), espetáculo que faz temporada de hoje a quinta-feira no Sesc Santana, um patrão idoso é humilhado pelos criados após a morte de sua mulher -eles se amavam muito e viviam tranqüilamente numa casa na aldeia. Certo dia, ela “retorna” para resgatá-lo.
Karbáuskis fala em tentativa de revisitar o passado. “Não sob a perspectiva da política, do socialismo, mas com um olhar atencioso sobre a vida humana, o drama íntimo das pessoas.”
Felicidade ilusória
Em sua leitura de Gógol, a intenção é tirar as camadas sentimentalistas da relação do casal e acentuar que toda felicidade é ilusória, dadas as agruras do viúvo diante da perversidade dos empregados.
O casal protagonista é vivido por Aleksandr Semtchev e Polina Medvêdeva. O espetáculo passou pelo Rio de Janeiro no final de semana.
Trata-se da terceira atração do projeto Estação de Teatro Russo – Brasil 2006. Em setembro, vêm “O Capote”, também baseado em conto de Gógol, com o Teatro Sovremênnik de Moscou, em cooperação com o Centro Teatral Vsévolod Meyerhold, sob direção de Valéri Fókin, e “K.I. Crime e Castigo”, inspirado em capítulo da obra de Dostoiévski, encenação de Kama Ginkas.
O projeto com as cinco peças é realizado por Funarte, ministérios da Cultura do Brasil e da Rússia, Festival Internacional de Teatro Tchecov e Sesc-SP.
15.8.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, terça-feira, 15 de agosto de 2006
TEATRO
Antônio Januzelli dirige a partir de hoje, em teatro em Pinheiros (SP), “Querido Pai”, livre adaptação de texto autobiográfico do escritor tcheco
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
“Eu não consegui me salvar da sua influência”, escreve Kafka a seu pai, frase que a maioria dos filhos endossaria sem pestanejar. Franz Kafka (1883-1924) não finge suas angústias e alegrias em “Carta ao Pai”, páginas autobiográficas que escreveu aos 36 anos e jamais foram lidas pelo comerciante tido como autoritário que o trouxe ao mundo.
Os altos e baixos da relação pai-filho são levados ao pé da letra no “pensamento corporal” desequilibrado (conforme a preparadora Patrícia Noronha) do quarteto de atores que encena “Querido Pai”, livre adaptação da obra do autor tcheco que entra em cartaz hoje no Viga Espaço Cênico.
“Carta ao Pai” chega com a assinatura de Antônio Januzelli à frente daquele que vai se alicerçando como grupo, o Arquipélago, união das “ilhas” pelas quais o professor da USP e diretor transita em sua pesquisa contínua sobre a expressão dramática do ator.
Não espere as convenções do olhar psicológico sobre culpas e ressentimentos. “Estamos falando de um filho que escreveu para o pai no início do século 19 [mas nunca lhe mostrou a carta]. Não dá para supor como era a relação, ficar analisando aos olhos de hoje; isso empobreceria o texto”, afirma o ator Henrique Schafer, 39, do elogiado solo “O Porco” (2004), dirigido por Januzelli.
“Trazemos “Carta ao Pai” pelo valor que ela tem em si, pela contundência dessa relação à flor da pele”, diz Schafer. A partir dessa condição humana, o desejo é abrir as portas para um pai mítico, um pai opressor, um pai dos pobres; por fim desfilam os arquétipos na galeria. Schafer, Frederico Foroni, Eduardo Ruiz e Patrícia Ermel constroem narrativa em que ora aludem a depoimentos pessoais nascidos de jogos de improviso ora dão voz a Kafka, ao pai e a outros membros da família judia (mãe e duas irmãs), sem consolidá-los como personagens, como diz Foroni, 29, idealizador do projeto.
À livre adaptação do livro traduzido por Modesto Carone, Ruiz imprimiu o processo de dramaturgização (em que o texto ganha corpo na ação dos atores). Inclusive, há citações a outras obras de Kafka.
15.8.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, terça-feira, 15 de agosto de 2006
TEATRO
Prestes a completar 84 anos, ator escolhe “O Avarento”, 90ª peça da carreira e quarta do comediógrafo que interpreta
Dirigido pela primeira vez por Felipe Hirsch, ele sobe ao palco do Cultura Artística; cenário recria ambiente teatral do século 17
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
“É uma peça para ressaltar as máscaras dos atores, a expressão facial”, adianta Daniela Thomas. No gigantesco palco do teatro Cultura Artística (1.156 lugares), em São Paulo, ela deslocou a cenografia praticamente para o proscênio, onde o público verá um Paulo Autran maquiado como as últimas gerações nunca viram.
Também o recurso da ribalta (fileira de refletores, antigamente velas, ao nível do palco, na dianteira), como nos tempos de Molière, no século 17, conforme releitura do diretor Felipe Hirsch, reforça ainda mais a dramaticidade de Harpagon, o protagonista de “O Avarento”.
“Ele é tão fanático por dinheiro que fica muito engraçado. Pessoalmente, ele sofre muito, o tempo inteiro, mas o sofrimento dele é cômico”, afirma Autran, 84 anos no próximo dia 7 de setembro.
Dos mais clássicos intérpretes brasileiros (estreou profissionalmente no Teatro Brasileiro de Comédia em 1949), ele andava com saudade dos autores clássicos. Pela quarta vez na carreira, recorre ao comediógrafo francês Jean-Baptiste Poquelin, o Molière (1622-1673), de quem já levou ao palco “O Burguês Fidalgo”, nos anos 60; “As Sabichonas”, nos anos 60; e “Tartufo”, nos anos 80.
Metido em ceroulas impagáveis, sem a peruca molièresca sugerida pelo material publicitário da peça, Autran desponta em cena numa tarde de ensaio com a altivez de quem está diante do fotógrafo alemão Fredi Kleemann (1927-1974), dos tempos de TBC. Foi com ele que, como muitos colegas, aprendeu a congelar a expressão do olhar e do gesto, como o fez diante do repórter-fotográfico da Folha.
Paulo Autran anuncia “O Avarento” como a 90ª peça em 57 anos de carreira, descontados os dois primeiros anos da fase amadora. Convidou Hirsch a dirigi-lo pela primeira vez. O diretor da Sutil Companhia de Teatro tem 34 anos, quase 50 a menos. Autran gosta de trabalhar com jovens criadores, a exemplo de Eduardo Tolentino de Araújo, do grupo Tapa, e Paulo de Moraes, da Armazém Cia. de Teatro.
Reconhece assim tangenciar o risco. “Às vezes, o diretor muito moço, fascinado pela sua própria autoridade, capacidade, inventa coisas que só prejudicam o andamento do espetáculo”, afirma o ator. Normalmente, é ele quem adapta os textos, mas delegou a atual tarefa ao próprio Hirsch. “A melhor comédia é aquela a que você assiste com uma lágrima no olho”, dizia o teatrólogo britânico Bernard Shaw.
Hirsch lança mão da frase para apontar as entrelinhas que deseja vislumbrar no texto sobre a triste figura de Harpagon.
O diretor e Daniela Thomas, falam em “poesia da exaustão”, conceito que nasceu na primeira onda de ataques do PCC em São Paulo, em maio.
“É exaustivo eternizar poesia num mundo, num país, numa cidade sitiados”, diz Hirsch. “É como se Autran e uma trupe de atores atraíssem o público para um bunker, o teatro.”
No cenário, ergue-se uma parede com caixas de papelão das quais os atores saem no início do espetáculo, como se encaixotados. Aos poucos, parte da estrutura vai-se desmontando e deixa vazar pelas frestas e “janelas” um fundo com telão de época a representar um céu azul entre nuvens.
Moedas
Além do “bunker”, a cenografia guarda relação com a caixa de moedas que o obsessivo Harpagon enterra em seu jardim, alvo de muitos qüiproquós. Idem para os imóveis envolvidos em plásticos, de modo que durem o máximo. No apego a bens materiais e ao dinheiro, o ordinário arranha a relação com os filhos, empregados e todos os que o rodeiam.
Elisa e Cleanto têm que driblá-lo o tempo todo para conquistar seus amores e não contrariar o pai, sempre de olho nos dotes dos interessados na prole. Acrescente-se uma alcoviteira, um agiota e um criado e, pronto, eis a comédia à la Molière. “Num certo sentido, Harpagon se parece muito com alguns políticos que a gente conhece”, diz Autran.
Ele atua ao lado da sua mulher na vida como ela é, Karin Rodrigues, no papel da alcoviteira Frosina (“As pessoas como eu têm apenas, como rendimento, a intriga e a astúcia”, diz a personagem); e do amigo Elias Andreato, que o dirigiu em “Visitando o Sr. Green” (2000) e “Adivinhe Quem Vem para Rezar” (2005), na pele do criado Flecha.
Também estão em cena Gustavo Machado e Cláudia Missura, nos papéis de filhos, e Luciano Schwab, Tadeu Di Pyetro e Arieta Corrêa, atriz que deixa o CPT de Antunes Filho após seis anos.
“Todo mundo começou pelo mesmo tipo de paixão, só que em épocas diferentes. Se a gente aciona essa paixão, todos os traumas, limites, dúvidas tendem a diminuir”, diz Hirsch. “É aí que a linguagem do Paulo se encontra com a do Felipe. Quero ficar próximo do amor que o Paulo tem pelo teatro.”
13.8.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, domingo, 13 de agosto de 2006
TEATRO
Peças são apresentadas em prédios do final do século 19 e começo do 20
Espectadores aprovam união de arquitetura e dramaturgia na região central e divulgam pequeno circuito com boca-a-boca
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Bairro de edifícios teatrais históricos (TBC, Oficina, Sérgio Cardoso), a Bela Vista tem alguns casarões transformados em palcos alternativos.
Só na rua Major Diogo, endereço do Teatro Brasileiro de Comédia (1948), há dois deles: a Casa da Dona Yayá, no número 353, e o Casarão da Escola Paulista de Restauro, no 91. A quarteirões dali, no 267 da r. Pedroso, fica o Casarão do Belvedere.
Dos anos 90 para cá, o espectador já se habituou às produções levadas a espaços não-convencionais, o que permite conciliar obras cênicas e arquitetônicas. A Bela Vista converte-se em capítulo à parte dado o perfil popular e a convergência de casarões tombados.
Diretor e atores do Redimunho de Investigação Teatral retornavam de ensaio, em janeiro, quando deram com o espaço perfeito para “A Casa”, inspirada em Guimarães Rosa. Descobriram que ali funcionava a Escola Paulista de Restauro, projeto de formação destinado a profissionais e à comunidade, parceria da Companhia de Restauro e do Museu a Céu Aberto.
O sobrado foi erguido em terreno de 750 m2 no final da década de 1910. Pertence à família do jurista José Luiz de Almeida Nogueira (1851-1914). Possui 13 janelas com varandas de ferro. A escola de restauro obteve da família concessão de uso por dez anos e decidiu abrir “janelas” para o teatro.
“A Casa”, assinada por Rudifran Pompeu, utiliza tanto os cômodos quanto o quintal pleno em árvores frutíferas. “No início, encontramos muitos sacos de lixo jogados por vizinhos. Agora que viram o movimento das pessoas, não jogam mais”, diz o diretor.
“O espetáculo faz a gente esquecer que está no centro”, diz a cineasta Vera Senise, 50, que assistiu à peça no último fim de semana. O artista Henry Vitor, 67, ficou impressionado na primeira cena. “Numa sala cheia de fotos e livros antigos, de repente entra o personagem vestido de cangaceiro, armado e à vontade, como se o seu mundo fosse ali.”
Segundo a atriz Fernanda Chicolet, 25, que ocupa o Casarão da Dona Yayá, o boca-a-boca “funciona bastante” nesse pequeno circuito dos casarões (de 20 a 40 pessoas por sessão), cujas fachadas não dão pinta de que se está diante de um teatro.
O imóvel foi construído no final do século 19 e serviu como morada de Sebastiana de Mello Freire, a dona Yayá (1887-1961), uma rica senhora da sociedade paulista confinada entre aquelas paredes como louca durante décadas. Tombado, o casarão é mantido pela USP, que o usa como espaço cultural. Seu primeiro inquilino teatral foi “5PSA o Filho” (2005).
Em “Quase de Verdade”, a itinerância se dá no plano imaginário. A saber: o público não se movimenta. Senta-se numa das grandes salas ao redor de uma mesa e ali acompanha a história. “As passagens de tempo e espaço são indicadas pelo texto”, diz Chicolet.
No Casarão do Belvedere, construído em 1927 e abrigo de teatro desde o ano passado, a cena da feira livre em “A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar” acontece entre escombros no quintal. “Boa parte do espetáculo se passa numa espécie de corredor entre a porta de entrada e a porta de fundos. Os personagens surgem e desaparecem entre os quartos”, diz o diretor Tin Urbinatti, 57.
9.8.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 09 de agosto de 2006
TEATRO
Encenação de “O Círculo de Giz Caucasiano” discute ocupação da terra; diretor crê que socialismo está “em reconstrução’
Cinqüentenário da morte do autor alemão é lembrado com outras montagens e debates que envolvem também a obra de Górki
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
A militância política pode estar em baixa, mas dá sinais de sobrevida no teatro. Apesar da crise das utopias, do esfacelamento do socialismo e da arte engajada, grupos do país seguem devotos ao pensamento e à obra de Bertolt Brecht (1898-1956) na tentativa de interpretar a realidade.
No próximo dia 14 se completam 50 anos da morte do autor alemão, referência mundial do teatro político no século 20 e, ao que se vê, ainda neste que corre. É reverenciado por grupos como Galpão (MG), que montou “Um Homem É um Homem” em 2005; Companhia Fábrica São Paulo, que anuncia um ciclo para relacioná-lo com a obra de Górki; e Grupo dos 7, que articula suas canções com sambas-de-roda no espetáculo “Teatrosamba do Caixote”, em cartaz em São Paulo.
A efeméride fez com que a Companhia do Latão, das mais brechtianas e marxistas equipes do país, interrompesse período de seis anos com dramaturgia própria e voltasse à fonte em que se autobatizou.
Convidado pelo CCBB a dirigir um Brecht, o diretor Sérgio de Carvalho atravessou a ponte aérea com “O Círculo de Giz Caucasiano” e estendeu a empreitada ao próprio grupo e a artistas ligados a outros coletivos, como o Folias d’Arte, a Cia. São Jorge de Variedades, o Núcleo Argonautas e o Teatro do Pequeno Gesto (RJ). A montagem é apresentada hoje para convidados e entra em cartaz amanhã no CCBB do Rio. O Latão já montou “Santa Joana dos Matadouros” (98) e “Ensaio sobre o Latão” (97).
Traduzida no anos 60 por outro poeta, o anticomunista Manuel Bandeira, “O Círculo de Giz Caucasiano” foi concluída por Brecht em 1945, final da Segunda Guerra, quando estava exilado nos EUA, também ali perseguido por causa dos ideais comunistas.
“O Bandeira aceitou porque sentia o texto como uma crítica fortíssima à desumanização”, afirma Carvalho, 39, que pôs em cena um espetáculo com dez atores e 21 canções originais (por Martin Eikmeier).
Atualidade
“O Círculo” abre e fecha falando de terra. Questiona em que medida sua ocupação é justa ou legal, prato cheio para uma companhia que busca pensar Brecht no contexto do capitalismo atual e do Brasil, sociedade da periferia do mundo, no dizer de Carvalho.
No prólogo original, dois grupos de camponeses soviéticos discutem quem vai ficar com a terra: se aqueles que nela trabalham ou os antigos donos que a abandonaram. O início da peça traz uma interação em vídeo com participação do grupo Filhos da Mãe Terra, formado por crianças e adolescentes do assentamento Carlos Lamarca, do MST, em Sarapuí (SP).
Em seguida, vem a fábula sobre Gruxa (Helena Albergaria), a criada que decide abdicar de tudo para cuidar de um menino cujo pai, um governador, é assassinado e cuja mãe o abandona após a revolta local. “A Gruxa age não por uma espécie de heroísmo, mas pela tentação da bondade”, diz Carvalho.
Anos depois, baixada a poeira política, a mãe retorna e quer reaver o filho. Surge o juiz Azdak (Ney Piacentini). Com fama de corrupto e beberrão, “um revolucionário frustrado”, decide quem vai ficar com a criança. Ele traça um círculo de giz no chão, coloca o menino no centro e pede às duas mulheres que o puxem cada uma delas por um braço. Aquela que o tirasse do círculo ficaria com a guarda. “Azdak encarna o desejo de uma era em que a justiça fosse verdadeira”, diz Carvalho.
A contradição, recurso tão afeito ao teatro épico, também espreita a ocupação do CCBB pela Cia. do Latão. O braço cultural de uma instituição bancária serve como plataforma para comemoração dos dez anos do grupo, em julho de 2007. Estão previstos lançamentos de sete DVDs, três livros e o volume dois do CD “Canções de Cena”.
“Quem produz arte dentro de um ambiente em que ela está sujeita a compra e venda, estabelece algum nível de diálogo com o mercado. O importante é mostrar a contradição dessa produção com esse mercado. Fingir que ela não existe é também sair do debate. Como artista de esquerda, não posso sair do centro radiador desse sistema. Não queremos abastecê-lo com produtos culturais, mas trazer reflexões artísticas na contramão”, diz Carvalho.
O diretor não considera que o socialismo tenha acabado. “É um momento de reconstrução e acúmulo de forças do projeto socialista.” Para Carvalho, Brecht não tinha a ilusão do Estado socialista, mas de um movimento humanístico. “Ele escreveu “O Círculo” nos EUA, em pleno olho do furacão do capitalismo e da indústria cultural em formação. É um sujeito perturbador por isso, propõe as coisas dinamicamente.”
8.8.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, terça-feira, 08 de agosto de 2006
TEATRO
Festival terá espetáculos de graça no Teatro Popular do Sesi e no Ibirapuera
Terceira edição do evento traz destaques de Rússia, França, Japão, Espanha e EUA e contempla cidades das regiões Sul e Sudeste
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O país vem afirmando seu espaço no circuito internacional de teatro de bonecos (ou teatro de animação). Cidades como Canela, Belo Horizonte e Curitiba fixaram seus festivais no calendário. E São Paulo chega ao terceiro ano do projeto Sesi Bonecos do Brasil e do Mundo.
De hoje a domingo, sempre com entrada franca, o teatro Popular do Sesi, na av. Paulista, e a praça da Paz, no parque Ibirapuera, recebem 17 companhias, cinco internacionais.
Quem abre a programação hoje -duas sessões por noite -é o grupo Teatro Tenj, fundado em Moscou em 1991. Em russo, seu nome significa sombra e já indica a técnica que maneja. No espetáculo “Metamorfoses”, é narrada a história de um pintor cujos quadros são transformados diante do espectador, sob música ao piano de cauda com composições de Chopin e Tchaikovski.
Amanhã, apresenta-se o grupo espanhol de fantoches La Fanfarra. Sem palavras, “Melodama” é uma adaptação livre de “A Vingança da Órfã Russa”, um melodrama escrito pelo pintor francês naïf Henri Rousseau em 1899. Em um retábulo duplo, um palco de bonecos desdobrado, desenvolve-se a história de Sofia, órfã, ingênua, que, ao pensar que conheceu o amor, termina presa em suas redes, o que passa pela tentativa de suicídio.
As demais atrações estrangeiras são: The Huber Marionettes (EUA), que domina a técnica com fios no espetáculo “Animação Suspensa”; a cia. Petits Miracles (França) traz “O Circo de Pulgas”, com técnicas não-convencionais; e o grupo Dondoro (Japão) encena “Kiyohime Mandara”, que combina bonecos de tamanho natural, máscaras e o teatro butô, nô e bunraku.
Atrações nacionais
O segmento nacional inclui grupos como Contadores de Estórias (RJ), com “Em Concerto”; Ventoforte (SP), com “Um Rio Que Vem de Longe”; Cia. da Tribo (SP), com “Homem-Palco”; Anima Sonho (SC), com “Bonecrônicas”; Sobrevento (SP/RJ), com “Cadê o meu Herói?”; e Valdeck de Garanhuns (PE/SP), com “Simão e o Boi Pintadinho”.
Na primeira edição, em 2004, o evento se estendeu a algumas capitais do Nordeste. No ano passado, foi ao Norte do país. Agora, contempla Sul e Sudeste (Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Joinville). Em paralelo, o Sesi Leopoldina abriga simpósio e oficinas para profissionais.
“Estamos tirando o teatro de boneco do casulo e interagindo com ateliês, exposições, vídeo e música”, diz a curadora pernambucana Lina Rosa, 35.
“É preciso quebrar o preconceito de que teatro de bonecos é para crianças, que não é teatro”, avalia Lina.
4.8.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, sexta-feira, 04 de agosto de 2006
TEATRO
Aos 66, a atriz protagoniza “Comendo entre as Refeições”, de Donald Margulies
Texto dirigido por Walter Lima Jr., que estréia hoje no Teatro Folha, opõe veterana e sua aluna em apropriação de caso de amor do passado
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Aracy Balabanian não teve filhos. Assim como a escritora consagrada e professora universitária que interpreta na peça “Comendo entre as Refeições”, cuja temporada começa hoje no Teatro Folha.
Muito do instinto materno a atriz canalizou para sobrinhas que ajudou a criar e, mais recentemente, para uma afilhada. Isso para não dizer da variedade de personagens que há 43 anos acolhe no palco, na televisão e no cinema. “Todos eles, dos quais aparentemente nos apropriamos ao longo da carreira, nos ajudam a ser melhores como pessoa. Mesmo quando não tão virtuosos, a gente acaba aprendendo muito”, conta Aracy Balabanian, 66. “Sempre tive preocupação em escolher meus personagens: é isso que quero dizer neste momento? É isso que tenho vontade de trocar com alguém?”
O conflito de gerações em “Comendo entre as Refeições”, drama realista do americano Donald Margulies, lhe interessa sobremaneira. Trata-se do vínculo entre Ruth Steiner (Balabanian), professora da Universidade Columbia e dona de obra prestigiada em Nova York, e a estudante de letras Lisa (Virginia Cavendish), sua aluna, estagiária e também aprendiz de escritora. Num dos seus primeiros livros de ficção, sempre sob a tutela de Ruth, Lisa retrata uma paixão secreta vivida pela professora nos anos 50, sem o consentimento desta -um affair com o poeta nova-iorquino pinçado por Margulies da vida real, Delmore Schwartz (1913-1966), que influenciou artistas como Lou Reed.
A intimidade tornada pública, ainda que sob o viés ficcional, vira o pomo da discórdia. Ruth afirma que foi “roubada”, “violentada” em sua intimidade. Lisa contra-argumenta que escreveu a história em sua homenagem, inclusive sob seus preceitos de boa literatura. “É um espetáculo extremamente oportuno, porque fala de ética, aquela que o Mário Quintana dizia ser estética da alma, muito importante em tempos de individualismo absoluto”, diz Balabanian. Ela traça paralelo com sua geração, “de escrúpulos”, com as seguintes, que teriam regredido ao “se você não fez o que devia, faço eu e boto meu nome”.
A produtora da peça e atriz com quem contracena, Virginia Cavendish, 35, diz que a montagem dirigida por Walter Lima Jr. (segunda incursão do cineasta pelo teatro), que estreou em fevereiro no Rio, cuida em não prejulgar. A começar pelo título original, “Collected Stories”, que a tradutora Sueli Cavendish, sua mãe, optou por “Comendo entre as Refeições” a “Estórias Roubadas”, da versão protagonizada por Beatriz Segall em 2000, porque já denotaria juízo de valor.
Cavendish, a atriz, lembra que o autor traz em epígrafe o irlandês Oscar Wilde, para quem todo discípulo rouba um pouco do seu mestre. “No fundo, é quase uma história sobre a morte e o nascimento de um escritor, narrada pelas duas”, afirma a intérprete da pupila.