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Crítica

La Ricotta faz hagiografia de poema beatnik

27.8.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Júnior Aragão/Cena 2013

Em celebração a Uivo (Howl), poema épico de Allen Ginsberg e precursor da geração beat, a companhia parisiense La Ricotta imprime em cena o espírito da contracultura desabrochada em meados da década de 1950 e culminante no decênio seguinte. A performance de Douglas Rand, praticamente um dueto no acompanhamento incisivo do músico e compositor Jean-Damien Ratel, pode ser lida como um manifesto. Ou, precisamente, uma hagiografia declamada da geração inconformista que ousou roer com unha, dente e arte algumas estruturas da sociedade, a americana à frente.

O espetáculo 66 Gallery – On the road of Howl decalca aquela época de transgressão desde o título, citação à Six Gallery, de São Francisco, o espaço em que Ginsberg leu o antológico texto pela primeira vez, em outubro de 1955. No galpão do Sesc Garagem, em Brasília, a grama in natura cobre o chão onde alguns espectadores sentam-se em almofadas, ficando à vontade como num parque – ou num sarau. A ambientação beatnik é caracterizada desde a chegada ao saguão, com frases projetadas ou xerocopiadas em papeis com grafismos esparsos.

O ator Rand, da Cie. La Ricotta, saúda Allen Ginsberg

Douglas Rand passa a primeira parte do poema – tal um primeiro ato – com o texto em mãos e circunscrevendo o microfone. Sua declamação subverte a retórica em justapostas línguas inglesa e francesa. A leitura torna-se eixo com a força da variação vocal. Cada verso é enunciado musicalmente segundo a cor das palavras veementes. Ao que a pontuação percussiva, sintética e minimalista de Ratel responde como contraponto narrativo.

Neste momento, o material cênico soa saturado para o público brasileiro distante do contexto histórico. O espectador é convidado a navegar por águas turvas em imagens documentais na tela ao fundo, pela dança das duas línguas (aqui legendadas) e pela rendição sacrossanta do ator ao texto em punho, expressando-se em tom indignado. Na era do espetáculo, o brandimento literal não impacta como quase 60 anos atrás, quando autor e editor da obra chegaram a ser processados por obscenidade.

O ritmo muda a partir da segunda e terceira partes, a outra metade da apresentação, quando Rand abandona o texto em si e adentra os territórios do simbólico e do sensorial. A avalanche metafórica do pesadelo com Moloch (o belzebu capitalista) e a saudação ao poeta e colega artaudiano Carl Solomon, a quem Ginsberg dedica Uivo e com uma ode a ele o encerra, indicam os mecanismos de opressão vigentes no pós-guerra e, a rigor, em franca travessia século 21 adentro.

A guinada do espetáculo esquenta a temperatura da cena por meio do desenho de luz e do registro doravante visceral na atuação de Rand. Finalmente, uma nesga do estado de incandescência do ator em seu poder performativo, trocando uma peça ou outra do figurino, evidenciando a movimentação corporal e dando contornos propriamente cênicos às ações. O ator tem lá seu carisma de veterano a incitar o imaginário da plateia e a instaurar fricção geracional – é redentora a saída final carregando uma placa-bandeira com aura de profeta.

Não falta personalidade também ao músico. Ratel catalisa a cena com seus arranjos e execuções de instrumentos convencionais ou não, mais inventivos e provocadores do que a concepção geral da diretora Bérangère Jannelle para o trabalho da La Ricotta. O embate criativo com o poema lhe é mais fértil na esfera das linguagens escrita e falada, porque inerentes à palavra (a bem sacada projeção compassada da palavra “jazz”, por exemplo, captura o improviso). Quanto ao poder da encenação, no entanto, as tentativas de hibridez ficam aquém do que poderia corresponder ao poema revolucionário.

>> O jornalista viaja a convite da organização do 14º Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília.

Encenação de Jannelle fixa-se na palavra literal

Ficha técnica

Atuação: Douglas Rand

Direção: Bérangère Jannelle

Composição e performance musical: Jean-Damien Ratel

Cenografia e direção de arte: Stéphane Pauvret

Figurino: Laurence Chalou

Produção: Compagnie La Ricotta

Valmir Santos

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