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Crítica

Até que se viva algo especial, não se poderá viver nada

16.3.2014  |  por admin

Foto de capa: Ligia Jardim

O que é, diante do real, esse trabalho intermediário da imaginação? – diz Robert Bresson. Para um cineasta inquieto com o seu tempo e com o seu fazer, suponho que seja o cotidiano o suporte de seus devaneios e a imaginação a engrenagem para a realidade. Mas encontra-se aí a potência e o revés da criação. Parto dessa suspeita para propor uma reflexão a partir de Cineastas, da Companhia Marea. Sendo a criação esse território da instabilidade e do desassossego, o criador busca ordenar as formas para delas subtrair instantes de arrebatamento. E cada instante desse capturado é enquadrado, o que retira dele uma possibilidade outra de existir, na medida em que se exclui do plano um universo para, quem sabe, libertar o plano dele mesmo; deslocado de sua realidade, do instante não permanece quase nada.

Reside também nessa instabilidade a ânsia por encontrar na vida o impulso criador, a inspiração poética, o acontecimento trágico ou qualquer outra intensidade a que atribuímos à banalidade. “Até que se viva algo especial, não se poderá viver nada”, diz um dos personagens. É uma espécie de apetite que destempera o olhar. Faminto pelo estímulo criativo, o criador olha ao redor esperando que dele possa se servir. Quando não obriga a realidade a ofertar alguma coisa sequer! E se nada satisfizer a gula, me juntarei ao criador para maldizer a vida e o cotidiano. E juntos permaneceremos distantes da experiência e da criação, enquanto desejarmos destemperadamente apoderar daquilo que queremos e tomar posse daquilo que deveríamos estar absortos. Se se cria por insatisfação ao que se tem, seria a criação ressonância do fracasso?

Em Cineastas, revela-se que a insatisfação reside tanto na imagem pré-fabricada – a película – quanto na imagem imediata – a realidade. Ambas querem servir-se uma da outra para, quem sabe, gerar uma dimensão terceira, intraduzível e arrebatadora. Não há a possibilidade de reconstruir a experiência sem deformá-la, por isso, a cena escapa do domínio do real ou da ficção. Não se trata do que aconteceu ou do que poderia acontecer, mas do que está acontecendo. Assim como na tela de cinema, o espetáculo é a sobreposição de dois frames justapostos, como se fossem duas vidas paralelas acontecendo simultaneamente, mas sem conseguirmos identificá-las. Cada instante de realidade são também 24 quadros por segundo? Percorro o desenrolar da cena com as instruções de Bresson no pensamento, “o importante não é o que eles me mostram, mas o que eles escondem de mim e, sobretudo, o que eles não suspeitam que está dentro deles” e me parece que a encenação aposta nisso e que a legenda é o suporte para tal operação. O espetáculo consegue, através da simultaneidade das cenas, esgarçar os contornos e propor novas relações. É que não há como ter o casamento da imagem pré-fabricada com a imagem imediata sem que haja a destruição das duas.

Farei uma nota. A legenda, e essa é uma sensação que tem me perseguido nessa Mostra, tem sido a grande força de imposição do discurso. Ela antecipa o pensamento e retira do espectador a ilusão de que as coisas estão acontecendo pela primeira vez ali, de que o próximo segundo é desconhecido por mim, espectadora, e por eles, atuadores. Nesse espetáculo, diferentemente, isso torna-se linguagem, na medida em que a legenda se personifica e é o suporte para que as duas imagens se colidam. Numa espécie de tela projetada, a cena se desenrola em duas projeções com a presença da legenda entre elas. E, assim, passa a não interessar de qual projeção a legenda pertence, mas sim o atrito que gera a legenda pertencer às duas simultaneamente. Chego até a duvidar se a peça existe sem ela.

.:. Texto escrito para o Coletivo de Críticos, uma das ações do segmento Olhares Críticos na MITsp.

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