Menu

Assine nossa newsletter

Reportagem

‘P-u-n-c-h’, uma ópera não convencional

28.3.2014  |  por Michele Rolim

Foto de capa: Roberto Gonçalves

Não é de hoje que a ópera está na agenda dos gaúchos. Desde 2012, ao que tudo indica, há uma retomada de montagens locais na capital. P-u-n-c-h – Uma ópera sobre liberdade, identidade e porcentagem vem ao encontro deste movimento com algumas particularidades. A encenação estreia nesta sexta, às 20h, no Teatro Renascença (Erico Verissimo, 307), e segue até domingo.

A direção geral, a música e a concep­ção são assinadas por um compositor porto-alegrense contemporâneo, Christian Benvenuti, 38 anos – reconhecido doutor em composição musical pela Universidade de Surrey, na Inglaterra, com pós-doutorado em andamento na Universidade Federal do Paraná onde também leciona.

Segundo ele, apesar da retomada de produções do gênero, a cidade não tem uma tradição de encenar trabalhos de com­positores locais. “A obra mais recente foi As setes caras da verdade (2002), de Nico Nicolaiewsky e, antes, houve apenas Car­mela (1902), do Araújo Vianna. Há um hiato neste tipo de espetáculo”, lembra Benvenu­ti. Além disso, ele acredita que existe uma demanda muito grande por óperas por sua característica multimídia. “Não é só teatro, nem dança, nem música. Ela tem várias camadas, e vivemos justamente em um período bastante plural”, reflete o músico.

O trabalho questiona a própria definição de ópera. Não é ao estilo tradicional. O libreto aborda a relação da IBM com o holocausto: a empresa americana colocou sua tecnologia de classificação de dados a serviço de Adolf Hitler, temática jamais apresentada em um espetáculo artístico. “A estreia de óperas é relativamente rara, não só em Porto Alegre como no mundo, por­que é uma forma de arte complexa, desde a logística até o financiamento. Trabalho com esta obra desde 2011”, explica.

Intépretes na ópera 'P-u-n-c-h', concebida por Christian BenvenutiSem créditos

Intérpretes em ‘P-u-n-c-h’, concepção de Benvenuti

Para compor a ópera, foram reuni­das canções, poesias e cartas escritas em guetos e campos de concentração, além de documentários e discursos de chefes de Estado realizados durante a Segunda Guerra Mundial. Também artistas e suas lembran­ças integram o trabalho. A ideia surgiu a partir do trabalho investigativo do jornalista e ativista de direitos humanos Edwin Black, que publicou o livro IBM and the Holocaust. Nele, revela que, quando Hitler e seus co­mandados precisavam identificar judeus por meio de nome, residência ou ascendência, a máquina fazia o serviço para os alemães.

O trabalho da IBM possibilitou ao Ter­ceiro Reich localizar, prender e transportar, para campos de extermínio, negros, judeus, homossexuais, portadores de deficiência física ou mental, ciganos e todos os que não se encaixavam no perfil ariano. Em 1936, Thomas Watson, o presidente da compa­nhia, foi agraciado com uma medalha por Hitler. “Não existe nenhuma questão étnica envolvida. A peça surge da minha preocu­pação com as consequências da irresponsa­bilidade corporativa e o meu interesse pela tecnologia. Desde pequeno, era fascinado pela IBM”, revela o compositor.

Para apresentar essa história, P-u-n-c-h está organizada em três atos: A corpora­ção; O gueto; e O campo, explorando três significados da palavra “punch” em inglês: “inserir informação ao pressionar um botão ou perfurar um cartão”, “conduzir gado, empurrando-o com uma vara” e “golpear com o punho”.

A produção tem 70 pessoas envolvidas direta e indiretamente, sendo 19 atores e bailarinos e 10 músicos regidos pelo compositor. Quem assina a direção cênica é Alexandre Vargas (ex-integrante do grupo teatral Falos & Stercus), e a coreográfica, Silvia Wolff. Para conseguir se viabilizar, a montagem – que gira em torno de R$ 80 mil – contou com financiamento independente no Catarse, aliado ao prêmio Funarte Petrobras Klauss Viana de Dança 2012. “As dificuldades de montar uma ópera são várias. É muito complexo, a começar pela questão burocrática, os editais não estão preparados para isso”, lamenta o artista. Até domingo, o trabalho poderá ser visto em sessões no Teatro Renascença, com ingressos a R$ 25,00.

.:. Publicado originalmente no Jornal do Comércio, caderno Viver, capa, em 28/3/2014.

Ficha técnica:
Direção geral, música e concepção: Christian Benvenuti
Direção coreográfica: Silvia Wolff
Direção cênica: Alexandre Vargas
Direção de vídeo: Eny Schuch
Cenografia: Élcio Rossini
Criação de luz: Maurício Aguiar de Moura
Criação dos figurinos: Carolina Di Laccio
Produção executiva: Débora Plocharski Borges/Tribolê Produtora
Assistência de produção: Karenina Benvenuti e Matina Banou
Intérpretes/criadores: Alessandra Souza, Alexander Kleine, Andrew Tassinari, Consuelo Vallandro, Cristiane Bocchi, Débora Jung Bonzanini, Gabriela Guaragna, Giuli Lacorte, Guilherme Conrad, Gustavo Duarte, Jaime Ratinecas, Jeferson Cabral, Julia Bueno Walther, Luana Camila, Luciano Souza, Manuela Miranda, Matina Banou, Renan Santos, Viviane Gawazee
Músicos: Adolfo Almeida Jr., Cláudia Schreiner, Diego Silveira, Elimar Blazina, Filipe Muller, Gabriela Vilanova, Humberto Meyer, Paulo Bergmann, Philip Meyer, Vinícius Nogueira
Regência: Christian Benvenuti

Michele Rolim

Quer receber mais artigos como este? Então deixe seu e-mail:

Relacionados