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Reportagem

Cena baiana no Festival do Teatro Brasileiro

7.9.2014  |  por Teatrojornal

Foto de capa: Tiago Lima

Um recorte da pesquisa em artes cênicas praticada (e pensada) hoje na Bahia pode ser acompanhado nas cidades de São Paulo e Bauru (região noroeste) até o dia 20 de setembro. Com nove espetáculos na programação, a etapa paulista do Festival do Teatro Brasileiro (FTB) entrecruza gerações como a do diretor Marcio Meirelles, com o Bando de Teatro Olodum; Fábio Vidal, com o Território Sirius Teatro; Meran Vargens, com o Grupo Toca de Teatro; além dos trabalhos recentes em dança ou teatro da Cia. Operakata, do Núcleo Afrobrasileiro de Teatro de Alagoinhas (NATA); da Companhia Tribo; e dos criadores João Sanches, Dejalmir Melo e Edu O.

Ótima oportunidade para notar o quanto os modos de criar e de se organizar, sobretudo em Salvador, avançaram desde o final da década de 1990, quando o público paulistano tinha como norte as criações da Companhia Baiana de Patifaria e do diretor convidado Fernando Guerreiro, além do incipiente núcleo artístico do Bando de Teatro Olodum.

O 15º ano do FTB já percorreu os estados do Acre, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo, fechando a atual edição em São Paulo nos espaços do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), Teatro Sérgio Cardoso e Teatro João Caetano, compreendendo 24 sessões ao longo de 17 dias.

Além das apresentações de obras majoritariamente inéditas para o público da capital, o festival incorpora ciclo de dramaturgos, três oficinas de qualificação profissional, uma oficina de construção de instrumentos musicais e projeto de formação de público na favela de Heliópolis, zona sul. A cidade de Bauru, por sua vez, recebe duas obras e duas oficinas.

O FTB tem como característica intrínseca o caminhar, o andar e o viajar. Seu formato itinerante se propõe a levar o panorama cênico de um estado brasileiro a outro. Em edições anteriores, promoveu a aproximação dos pernambucanos e sergipanos. Levou ao Distrito Federal a cena teatral dos gaúchos, mineiros, baianos e pernambucanos. Os gaúchos também foram ao encontro dos goianos, assim como cearenses ao de capixabas e mineiros. Os paranaenses receberam os mineiros e se encontraram com os gaúchos e paulistas. E os baianos, que já trocaram com os pernambucanos e maranhenses, dão a ver a sua produção desde abril de 2014, circulando junto aos públicos acreano, sul-mato-grossense, capixaba e agora paulista.

Igor Epifânio em ‘A arte de matar galinhas’

Na percepção de seu idealizador e coordenador, Sergio Bacelar, o Festival do Teatro Brasileiro ocupa um espaço na ação de complementação de política de estado. Considera o formato “renovador” para os festivais, “pois é construído por quem vai e quem recebe”. E também acredita na capacidade dessa circulação gerar legado.

A realização desse evento, em todas as suas etapas no país, tem patrocínio da Petrobras.

Programação em São Paulo:

.:. Dias 4 e 5/9, às 20h, CCBB-SP
Exu – A boca do universo, com Núcleo Afrobrasileiro de Teatro de Alagoinhas (NATA). Narra sem compromisso cronológico momentos em que Exu se mostra diferente daquilo que tanto se pregou na cultura ocidental sobre o orixá que rege a comunicação e a liberdade no candomblé. Optando por uma dramaturgia músico-poética, pela encenação em um espaço aberto e por atores que se personificam sobre as diversas concepções do orixá Exu, o humano e o divino se entrelaçam na celebração à condição de estar vivo. Exu, em suas várias facetas, se mostra como alguém que valoriza o movimento da vida, do ‘falar’ ao ‘agir’, do ‘pensar’ ao ‘sentir’. Direção: Fernanda Júlia. Texto: Daniel Arcades e Fernanda Júlia. Com: Antonio Marcelo, Daniel Arcades, Fabiola Julia, Fernando Santana e Thiago Romero.

.:. Dia 5 e 6/9, às 20h, Teatro Sergio Cardoso
O circo de Soleinildo, com Cia. Operakata de Teatro. Em algum lugar no interior do sertão brasileiro, Soleinildo e seus três companheiros de lona viajam à procura de público, cada vez mais escasso, para o seu circo de ilusões. Contrariando a tendência da contemporaneidade, O Circo de Soleinildo segue, até então, mantendo suas tradições com números simples e até mesmo ingênuos. Contudo, a dificuldade de atrair público traz à tona uma questão: prosseguir com os mesmos princípios dessa arte milenar deixada por seus antepassados ou aderir às novas tecnologias e às mudanças do mundo moderno? Diretor e ator: Gilsergio Botelho. Com Kécia Prado, Cristiano Martins e Ricardo Fraga.

.:. Dias 6/9, às 21h, e 7/9, às 19h, Teatro João Caetano
Cabaré da Rrrraça, com Bando de Teatro Olodum. A peça trata de um assunto básico para a sociedade brasileira, mas difícil: o que é ser negro neste país? Combatendo a política do branqueamento, chegando às ações afirmativas e às cotas raciais, o Bando discute tudo isso com inteligência, humor, música e dança. “Boa noite, resistência, e boa noite, brancos. Este é um espetáculo, didático, panfletário e interativo”, avisa o consciente personagem Wensley, criado e interpretado por Lázaro Ramos, sendo a deixa para o início de uma sucessão de cenas cotidianas que colocam em cheque a nossa suposta ‘cordialidade racial’. Texto: Márcio Meirelles, com a colaboração do Bando de Teatro Olodum. Direção: Márcio Meirelles. Codireção: Chica Carelli. Com Adriana Gabriela, Cássia Valle, Deyse Ramos, Edvana Carvalho, Fábio Santana, Gerimias Mendes, Jamile Alves, Jean Pedro, Jorge Washington, Leno Sacramento, Marcos Dias, Merry Batista, Sergio Laurentino e Valdineia Soriano.

Atriz do núcleo Olodum em ‘Cabaré da rrrrraça’

.:. Dias 6/9, às 20h, e 7/9, às 19h, CCBB-SP
Ícaro. É um espetáculo de dança que faz uma reflexão sobre o contínuo ciclo de vida, morte e renascimento, A montagem propõe o desenvolvimento metafórico do mito grego “Ícaro” a partir do seu fim. Sugere a ideia de que “após morrer” – tendo as suas asas de cera derretidas pelo calor do sol – sobrevive carregando em si a profunda experiência de conhecer de perto o inacessível e seu valor. Aproximando-o do homem comum, limitado ao voo da consciência em sua jornada vital pelas inquietações sobre as antíteses da infância/velhice, prazeres/desgostos, perdas/descobertas diárias comuns no cenário contemporâneo. Direção artística e interpretação: Dejalmir Melo.

.:. Dias 8 e 9/9, às 20h, Teatro Sergio Cardoso
A arte de matar galinhas, com Companhia Tribo. A livre inspiração no protagonista do romance O idiota, de Dostoievski, é uma cena-jantar que se passa dentro de uma cozinha, onde um cozinheiro misterioso é colocado em uma situação inusitada: Precisa dar uma aula sobre nossa herança alimentar, enquanto prepara uma refeição. Com ironia, humor, pães, vinhos, uma galinha viva e uma deliciosa canja, preparada em tempo real, o espetáculo faz o público pensar – e degustar – algumas das melhores possibilidades do ritual de encontro em que o paladar, a conversa, o tempo, o olhar e o pensamento próprio estão no menu do dia. Com Igor Epifânio: Diretor colaborador: Marcelo Souza Brito. Dramaturgia: Aldo Marcozzi e Daniel Dourado.

.:. Dias 12 e 13/9, às 20h, Teatro Sergio Cardoso
Entre nós – uma comédia sobre a diversidade. Vencedor em três categorias do Prêmio Braskem de Teatro 2012 (melhor espetáculo, melhor ator e melhor texto), o espetáculo põe em cena a história de dois jovens atores que se embaraçam em seus próprios conceitos sobre homossexualidade – e que, de acordo com o autor, só sairão dessa enrascada com a ajuda do público. Texto, direção, figurino e iluminação: João Sanches. Com Igor Epifânio e Anderson Dy Souza.

Dias 13/9, às 20h, e 14/9, às 19h, CCBB-SP
Joelma, com Território Sirius Teatro. Esta encenação traz ao publico a história de Joelma, uma das primeiras transexuais da Bahia e do Brasil. Ao longo dos seus 69 anos de vida, ela transitou por distintos lugares passando por diversos acontecimentos. Sua biografia resguarda elementos relativos a questões de gênero e de religiosidade. Uma narrativa de afirmação e reinvenção mesmo em frente a preconceitos e injustiças, instaurando ética, respeito e alteridade. O espetáculo valida vários assuntos e referências que não foram aprofundados pelo curta-metragem Joelma (obra matriz deste projeto cênico), que contou com a direção de Edson Bastos. A encenação teatral Joelma traz diálogos, histórias, personagens, questionamentos e informações que redimensionam o caráter mítico, religioso, filosófico e conceitual da obra cinematográfica, estabelecendo outra criação que engloba o cinema – vídeo (a projeção) como um dos elementos constituintes da cena teatral. Autoria, direção e atuação: Fábio Vidal. Coautoria e direção: Edson Bastos.

Fábio Vidal concebe e atua em ‘Joelma’

.:. Dias 17 e 18/9, às 20h, Teatro Sergio Cardoso
O corpo perturbador. Tem como principal temática o corpo com deficiência na perspectiva da sexualidade e a partir do devoteísmo (fetiche pela eficiência) promove reflexões acerca das relações de poder implicadas nos processos sociais, religiosos e artísticos que envolvem as pessoas com deficiência. Pretende-se também questionar e problematizar o desejo num mundo onde se vive sob a égide de um padrão estético rígido – que encontra na mídia seu grande construtor e mantenedor -, mas que, mesmo em pouca medida, ainda consegue ter seus dissidentes, que contrariam as regras e sentem-se atraídos por especificidades de alguns corpos considerados fora dos padrões. Concepção e direção: Edu O. Intérpretes: Edu O. e Meia Lua.

.:. Dias 19 e 20/9, às 20h, Teatro Sergio Cardoso
Amnésis – uma busca intencional pela lembrança, com Grupo Toca de Teatro. De maneira lúdica e metafórica, a montagem reúne inúmeras historias de vidas que ecoam nas ruas e praças da cidade. Os três atores mergulham numa saga de aventuras, celebrações e aprendizados, dando vida a diversos personagens construídos a partir da coleta de histórias na Praça da Piedade, Mercado Modelo e Igreja de São Lázaro em Salvador. A criação investe no questionamento de como as nossas lembranças (as nossas memórias, as histórias da nossa vida) e as lembranças das vidas de outras pessoas e espaços históricos das cidades, podem servir como fonte e material para construção de um espetáculo teatral. Concepção e direção: Meran Vargens. Com Daniel Calibam, Danilo Cairo e João Guisande. Dramaturgia cênica: Meran Vargens e Elaine Cardim. Direção de cena: Elaine Cardim.

Serviço:
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil, CCBB SP (Rua Álvares Penteado, 112, Centro, tel. 11 3113-3651); Teatro Sérgio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista, tel. 11 3251-5122); Teatro João Caetano (Rua Borges Lagoa, 650, Vila Clementino, tel. 11 5573-3774).
Quanto: entrada franca no CCBB SP (retirar ingresso com 1 hora de antecedência; e R$ 20 (ou meia entrada) nos teatros Sérgio Cardoso e João Caetano.

Programação em Bauru:

.:. Dias 19 e 20/9, às 21h, Teatro Municipal Celina Neves (Avenida Nações Unidas, 8-9, tel. 14 3235-1088)
Entre nós – Uma comédia sobre a diversidade. Entrada franca (retirar ingresso com 1 hora de antecedência)

.:. Dia 21/9, às 20h, Teatro Municipal Celina Neves
Amnésis – uma busca intencional pela lembrança, com Grupo Toca de Teatro. Entrada franca (retirar ingresso com 1 hora de antecedência)

.:. O site do Festival do Teatro Brasileiro com programação e todas as atividades formativas, aqui.

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