Vida e obra de Rainer Werner Fassbinder (1945-1982) se unem no palco na peça Fassbinder – o pior tirano é o amor, que estreia amanhã (13/11) na Sala Álvaro Moreyra, em Porto Alegre. Fassbinder, conhecido como um dos mais importantes representantes do Novo Cinema Alemão, tem peças e filmes, pode-se dizer, autobiográficos. “Para ele, era quase como se houvesse um borrão no que é arte e no que é vida, uma bebia muito da outra”, comenta o diretor e professor do Instituto de Artes da Ufrgs Clóvis Massa.

A ideia da montagem surgiu quando Massa tomou conhecimento de um texto inacabado do autor, Gotas d’água sobre pedras escaldantes. Ele se tornou mais conhecido quando o diretor de cinema François Ozon adaptou para o cinema, em 1999. Escrita aos 19 anos pelo diretor alemão e deixada de lado por ele, a peça mostra as relações amorosas como jogo de poder entre quatro personagens.

Esse é o texto, segundo o dramaturgo Diones Camargo, que costura os três atos da montagem, que também se vale das biografias O amor é mais frio do que a morte, de Robert Katz, e A vida sufocante de Fassbinder, de Harry Baer, além de diversas entrevistas compiladas na publicação A anarquia da fantasia. Também estão em evidência cenas e diálogos dos filmes As lágrimas amargas de Petra Von Kant e Precauções diante de uma prostituta santa. “Pode-se dizer que a montagem é sobre alguém que vai perdendo as ilusões românticas e se vale disso como arma de controle”, esclarece Camargo.

A peça mostra três momentos de Fassbinder interpretado por diferentes atores. Desde o adolescente ambicioso (interpretado por Luciano Pieper) que entra no grupo Teatro de Ação e depois cria o coletivo, o qual dirige, Anti-Teatro; ao jovem temperamental que começa a fazer cinema e recebe o reconhecimento nacional (vivido por Frederico Vittola) até culminar no adulto desencantado e com fama internacional (interpretado por Marcos Contreras).

Ainda que Fassbinder tenha vivido somente 37 anos, realizou 43 filmes ao longo de um período de 13 anos e participou como autor, adaptador ou diretor de pelo menos 10 montagens teatrais. Sonhava em ganhar os três mais importantes festivais de cinema do mundo – Berlim, Cannes e Veneza -, além do Oscar de melhor diretor, mas morreu antes. “Sempre foi muito ambicioso e, conforme este sentimento crescia, Fassbinder se tornou compulsivo pela fama a ponto de ligar para os amigos para saber se seria indicado ao Oscar. Aos poucos, tornou-se um ditador dentro do set e também nas relações”, conta Camargo, lembrando que, em apenas um ano, o cineasta lançou nove longas – período em que dormia somente quatro horas por dia.

Cena de ‘Fassbinder – o pior tirano é o amor’

Ainda estão na peça os amores de Fassbinder, como sua grande paixão Günther Kaufmann (interpretado por Rodrigo Shalako, que também assina a cenografia) e Armin (Frederico Vittola). Apesar de homossexual, ele teve relacionamentos com diversas mulheres; entre os personagens que marcaram suas relações, estão também as figuras de Irm (Martina Fröhlich), Juliane (Renata de Lélis) e Ingrid (Viviana Schames). “Era um tempo de liberdade sexual, havia muita ménage à trois, sexo grupal. As pessoas não eram possessivas, mas na hora do vamos ver se sentiam traídas”, conta Massa sobre a época em que vivia o cineasta na Alemanha pós-guerra.

O diretor explica que, desde o início, desejava um espetáculo em camadas, no qual coabitassem narrativas da biografia, da peça e de filmes. Por exemplo, há falas de As lágrimas amargas de Petra Von Kant em um diálogo entre Fassbinder e Günther. “A ideia nunca foi imitar o que ele fez, utilizamos o conceito de transcriação: não estamos transpondo apenas, por isso permitimos que situações sejam deslocadas do tempo, para o melhor desenvolvimento de uma narrativa, dentro da nossa visão”, conclui. A direção musical e a trilha sonora são assinadas por Cláudio Levitan e Carina Levitan.

Serviço:
Onde: Sala Álvaro Moreyra (Avenida Érico Veríssimo, 307, Menino Deus, Porto Alegre, tel. 51 3289-8066).
Quando: Sexta-feira a domingo, às 20h. Até 30/11.
Quanto: R$ 20,00.

Ficha técnica
Direção: Clovis Massa
Dramaturgia: Diones Camargo
Atuação: Frederico Vittola, Luciano Pieper, Martina Fröhlich, Marcos Contreras, Renata De Lélis, Rodrigo Shalako e Viviana Schames
Trilha sonora: Claudio Levitan e Carina Levitan
Apoio: Edital do Concurso Desenvolvimento da Economia da Cultura – Pró-cultura RS (Fundo de Apoio à Cultura).