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Crítica

Acasalamento da arte pública com o cidadão

12.12.2014  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Rafael Mendes/Captura.Me

Para aqueles que se dirigem ao ponto da Lagoa do Parque Sólon de Lucena, no centro da capital paraibana, previamente avisados, o acercamento territorial dos intérpretes-criadores da Cia. Domínio Público é um capítulo à parte. Lembra o ritual de acasalamento, como o das aves que dão sinais e posicionam-se elegantemente na hora de fazer a corte. O enamoramento espacial implica o espalhamento alhures do quarteto em si, ilhas flutuantes que circulam ou atravessam perpendicularmente o epicentro que avistam de longe, formado por bancos de praça, barracas de doces e salgados, ponto de ônibus, enfim, o fluxo mais intenso do pedaço. Aos poucos, o observador privilegiado já consegue enquadrar num mesmo campo de visão as duas moças e os dois rapazes de figurinos de cores terracota, azul, verde e amarelo. Eles harmonizam os passos dissonantes e agora já estão no vácuo da intervenção urbana, aquela que não manda bilhete e se insinua sem rede, pegando no pulo os companheiros anônimos de jornada, os pedestres de turno, em pleno meio de tarde em que o sol pega leve e os gestos e movimentos murmuram.

Posso dançar pra você? estabelece uma geografia afetiva entre planetas e satélites até então à deriva. O corpo baila solto, mimetiza um caminhar, deita sobre o banco, rola no chão de terra e de cimento e, quando o cidadão aprazível que está a rir do vaivém e, súbito, é alvo da pergunta assertiva, só lhe resta consentir e ser cúmplice dessa intimidade pública, essa dança de silêncios e sussurros, sem trilha musical, a não ser uma cantoria do repertório brega romântico.

Tanta singeleza transborda da precisão do programa aberto a múltiplas possibilidades relacionais que levam em conta as reações mais díspares, o mapeamento do local e a disponibilidade incondicional para jogar com o outro cuidando em não ser invasivo. A ação conjunta remete a uma coreografia aberta, errática, permeável a convergências e catalisadora do espírito de pertencimento plantado coletivamente numa ágora outrora dispersiva, com cada um ou cada nicho (exemplo do gargarejo em torno do vendedor de milho assado) pousado em seu ritmo de véspera de domingo.

Dirigidos por Holly Cavrell, bailarina, coreógrafa e professora cofundadora da companhia de Campinas, em 1995, Gustavo Valezi, Lineker, Sara Mazon e Talita Florêncio equalizam rigor técnico e expressividade contagiante em seus corpos e rostos, delegando ao olhar a missão seminal do aceno ao qual poucos ousam não retribuir. Vocabulários de quem não perde tempo com a condescendência em prejuízo da sofisticação. A precipitação para o sentimentalismo é tênue, mas as rédeas são curtas, eles sabem.

Naqueles minutos a praça é poeticamente contaminada pela amorosidade, pela corporeidade do contato, da improvisação, do acaso que estende os braços na multidão. Que a dança-teatro e o teatro-dança imantem a paisagem a céu aberto com suas auras performáticas, a ponto de congelar a atenção de uma provável família de pai, mãe e filhos a caminho de casa, com suas sacolas escoradas na bacia ou equilibradas na cabeça, isso não é pouco e isso é arte de peito aberto e muito treinamento para voar.

.:. Texto produzido para publicação a ser organizada pela Mostra Internacional de Teatro da Paraíba, a MIT PB, aqui. O jornalista viajou a convite da organização do festival.

Cena da obra da Cia. Domínio Publico em João Pessoa

Cena da obra da Cia. Domínio Publico em João Pessoa

Ficha técnica:
Criação: Cia. Domínio Público
Direção: Holly Cavrell
Intérpretes-criadores: Gustavo Valezi, Lineker, Sara Mazon e Talita Florêncio
Produção executiva: Margarida Sequeira Duarte e Iolanda Sinatra
Figurina: Caio Sanfelice
Design gráfico: Julio Giacomelli
Fotos e vídeos: Coronel Mostarda

Valmir Santos

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