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Reportagem

A desnudez de ‘Medeamaterial’

25.7.2015  |  por Michele Rolim

Foto de capa: Yamini Benintes

Neste ano, em dezembro, se completam duas décadas da morte de Heiner Müller (1929-1955). Considerado o dramaturgo alemão mais importante desde Bertolt Brecht, ele terá a data lembrada pela estreia da peça Medeamaterial, clássico moderno do autor. O espetáculo ocorre de quinta a domingo, 26, no Instituto Goethe, em Porto Alegre.

A adaptação do texto Margem abandonada Medeamaterial Paisagem com argonautas reúne duas companhias: GRUPOJOGO e vai!ciadeteatro. Ambas investigaram a obra de Müller com o experimento cênico Ilha de desordem, em 2011, inspirado em um poema dedicado à coreógrafa Pina Bausch. As companhias surgiram em datas próximas. O GRUPOJOGO comemora 8 anos e a vai!ciadeteatro, 7. Elas compartilham também proximidades estéticas de trabalho e de produção cênica, como o trabalho físico dos atores.

Neste espetáculo, a direção ficou com Alexandre Dill (de Noite árabe e Fauno), do GRUPOJOGO, e a direção de atores com João Pedro Madureira, da vai!ciadeteatro. Trata-se de uma proposta de encenação que conversa com o universo pós-dramático. A trama gira em torno do conflito trágico que permeia a relação entre Jasão e Medeia, conhecida por matar os filhos.

São trabalhados na encenação a fisicalidade dos atores com elementos performáticos, como no momento em que o ator Vinícius Meneguzzi destroça um peixe morto em cena. “O próprio texto de Müller sugere que encare o espetáculo com muito naturalismo”, comenta o diretor. A imagem, algumas vezes, substitui o texto escrito. “Quando ele violenta o peixe, é um momento em que, no texto, ele está narrando as atrocidades que a humanidade já sofreu. Se o homem é capaz de fazer isso com um ser que está morto, ele é capaz de muito mais”, diz Dill.

Há a figura do Anjo da História, inspirada no pensamento de Walter Benjamin, mostrando que a função do teatro é pensar sobre o passado para não repetirmos os mesmos erros

A fragilidade do animal vai ao encontro da Medeia construída em cena por Fernanda Petit – mais frágil do que se costuma ver no teatro. E denuncia, nas palavras do diretor, a condição feminina. “Quais são as condições que levam uma mulher a matar ou abandonar os filhos? É realmente por um ato de crueldade? Ou ela está sendo honesta com o que quer denunciar e não consegue? Como não poder fazer um aborto ou, ainda, exigir que o estuprador seja punido”, reflete Dill, traçando uma paralelo com a atualidade.

Fernanda lembra que a montagem era um desejo antigo. Ela e o diretor tiveram formação na escola da Terreira da Tribo em anos diferentes, mas ambos realizaram, ao final, um experimento cênico com esse texto. A atriz está em boa parte da peça completamente nua. “Trabalhamos a questão de poder ver esse corpo nu de outra forma. Quando ela entrega o vestido, ela está se despindo do elo com Jasão”, conta a atriz.

Para Meneguzzi, esse texto, escrito na década de 1980, ainda é muito atual, pois revela que a condição do homem ainda prevalece. “Persiste a dominação do homem, apesar da resistência. Então trouxemos para a cena elementos de resistências reais, como o peixe, a terra e a água, para criarmos a atmosfera que queríamos atingir”, explica ele, que participou, em 2013, do projeto Sincronário, uma mostra de performances promovida pela vai!ciadeteatro.

Vinícius Meneguzzi e Fernanda Petit são Medeia e Jasão

O texto está mantido quase na íntegra e foram preservadas referências históricas, os nomes dos lugares e elementos de intertextualidade presentes na obra do autor. “Dizem que os textos de Müller impõem uma desesperança ao final. Eles trazem uma visão de um futuro destroçado. Há a figura do Anjo da História, inspirada no pensamento de Walter Benjamin, mostrando que a função do teatro é pensar sobre o passado para não repetirmos os mesmos erros”, esclarece Dill.

Em abril deste ano, diversas atividades fizeram parte do Laboratório de Criação #HEINERMÜLLER, que serviu para a investigação e a criação de um espetáculo em rememoração da obra do dramaturgo. Foram realizados debates com encenadores que já haviam montado obras de Müller em Porto Alegre ao longo de 20 anos após sua morte.

A capital teve cerca de dez montagens de textos do dramaturgo nessas duas décadas. A peça aconteceu graças ao financiamento coletivo via plataforma Catarse e arrecadou 105% da meta.

.:. Publicado originalmente no Jornal do Comércio, caderno Panorama, p. 1, em 23/7/2015.

Serviço:
Onde: Instituto Goethe (Rua 24 de outubro, 112, Porto Alegre)
Quando: Quinta a domingo, às 21h. Até 26/7
Quanto: R$ 30

Ficha técnica:
Texto: Heiner Müller
Com: Fernanda Petit E Vinícius Meneguzzi
Direção Alexandre Dill
Participação especial (voz): Luiz Paulo Vasconcellos
Assistente de direção: Jéssica Lusia
Trilha sonora original: Bibiana Petek
Direção de atores: João Pedro Madureira
Preparação vocal: César Pereira
Conceito cenográfico: Bruno Salvaterra
Desenho de luz: Lucca Simas
Figurino: Daniel Lion
Concepção: Alexandre Dill e Igor Pretto
Cenotécnico: Nick Tyler
Fotos: Yamini Benites
Arte gráfica: Késsio Guerreiro
Direção de produção: Fernanda Petit
Realização: GRUPOJOGO & vai!ciadeteatro

Michele Rolim

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