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Crítica

Um clarão sobre a irracionalidade

3.7.2015  |  por Valmir Santos

Foto de capa: João Caldas

A arte propõe enigmas que excitam a percepção crítica, vide o sujeito que sai do teatro tocado pela experiência do espetáculo. Um chamado à consciência ativa do espectador, como pensava e agia o escritor alemão Bertolt Brecht, cujos 60 anos de morte se completam em 2016.

Um dos textos mais decantados do autor, em termos cronológico, temático e formal, A vida de Galileu foi talhado em três versões, de 1938 a 1956, encenadas na Dinamarca, nos EUA e na própria Alemanha. Ele não viveu para ver a estreia que dirigira junto ao seu núcleo, o Berliner Ensemble.

Uma nova montagem em São Paulo desponta em boa hora para clarear os sentidos do contraditório em tempos de culto à intolerância. E, melhor, prezando a genialidade do homem e do artista com o magnetismo da concepção popular sofisticada.

Sob a ótica da diretora Cibele Forjaz, Galileu Galilei, como rebatizada, consegue abrasileirar a multidão que acompanhou em Roma, no século XVII, os conflitos entre os avanços do conhecimento e o obscurantismo religioso. Em 1633, o tribunal da Santa Inquisição impôs ao matemático, físico e astrônomo recuar da comprovação de que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário, como na interpretação geocêntrica da Bíblia.

A peça em cartaz no Tuca valoriza a paisagem coral de mulheres e homens que vão ao espaço público protestar ou festejar em bloco. As instâncias da fé, da dúvida, da ética e da verdade incidem sobre o cidadão comum confrontado a todo tipo de fundamentalismo.

Nove atores e um músico dão corpo aos diálogos e apartes. A movimentação intensa, o maracatu, o carnaval ou panelaço (menção direta à realidade em nada redutiva) não sacrificam os silêncios filosóficos da obra.

O equilíbrio sob caos aparente lembra o caráter tropicalista de José Celso Martinez Corrêa, diretor influente na formação de Cibele Forjaz, do Galileu Galilei do Teatro Oficina, em 1968, quando a censura sequer permitia ao ator narrar olhando o espectador nos olhos, fundamento dialético brechtiano vital. No Tuca, a interação alcança os corredores da plateia.

O instinto da aplicação prática que rege o cérebro e o estômago do personagem é absorvido pelo sistema criativo da equipe teatral

A cenografia de Márcio Medina espicha a frente do palco por meio de uma arena avançada em direção ao público. O formato circular comunica também os fluxos biográficos e históricos que perpassam cidades como Veneza, Florença e, claro, a capital italiana onde fica o enclave murado do Vaticano, que só três séculos depois reabilitou Galileu daquele processo, em 1992.

O instinto da aplicação prática que rege o cérebro e o estômago do personagem é absorvido pelo sistema criativo da equipe teatral. O elenco faz as vezes de contrarregra, transparecendo as variações da narrativa desde o interior da própria cena aberta.

As atuações revezam instantes líricos e viscerais. Resultam das afinidades geracionais e estilísticas de intérpretes como Ary França, Jackie Obrigon, Luís Mármora e Rodrigo Pandolfo, entre outros. Asseguram 140 minutos de uma apresentação cadenciada, espirituosa, bem-humorada e profundamente oportuna na instigação das ideias.

Denise Fraga usufrui maturidade como GalileuJoão Caldas

Denise Fraga usufrui maturidade como Galileu

Denise Fraga mostra o papel mais elaborado da carreira. Comediante madura, ela empresta jovialidade às ruminações e desatinos do velho e sedutor Galileu, que inclusive diagnostica paradoxos da comunidade científica em projetos como a construção da bomba atômica. Trata-se, portanto, de um astrônomo digno de artimanhas “macunaímicas”, terrenas, despido de máscaras heroicas ou anti-heroicas.

Soa ainda sintomática a temporada no Tuca no ano de seu cinquentenário. O braço cênico da PUC-SP foi um dos marcos da resistência cultural durante a ditadura militar. No início deste ano, o Conselho Superior da Fundação São Paulo, mantenedora da instituição, recusou a implantação de uma cátedra do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984). Representantes da arquidiocese e da reitoria compõem o conselho. O pensamento crítico segue enfrentando o dogma.

.:. Publicado originalmente no jornal Valor Econômico, seção Eu & Cultura, p. D4, em 22/6/2015.

Serviço:
Onde: Tuca (Rua Monte Alegre, 1.024, Perdizes, tel. 11 3670-8455).
Quando: Sexta e sábado, às 21h; dom., às 19h. Até 30/8.
Quanto: R$ 50 (sexta) e R$ 70.

Ficha técnica
Direção artística: Cibele Forjaz
Adaptação/dramaturgia: Christine Röhrig, Cibele Forjaz, Maristela Chelala e Denise Fraga
Com: Denise Fraga, Ary França, Rodrigo Pandolfo, Lúcia Romano, Maristela Chelala, Vanderlei Bernardino, Jackie Obrigon, Luís Mármora, Silvio Restiffe e Théo Werneck
Cenografia: Márcio Medina
Trilha sonora: Lincoln Antônio e Théo Werneck
Iluminador: Wagner Antonio
Figurinista: Marina Reis
Visagista: Simone Batata
Preparação corporal e coreografia: Lu Favoretto
Preparação vocal: Andrea Drigo
Assistente de direção: Artur Abe e Ivan Andrade
Fotos: João Caldas
Programação visual: Philippe Marks
Vídeos: Chico Gomes, Paulo Mosca, Bossa Nova Films
Produção executiva: Lili Almeida
Direção de produção: José Maria
Assessoria de imprensa: Morente Forte
Realização: NIA Teatro. Projeto foi realizado através da Lei Federal de Incentivo à Cultura
Apoio: PUC – Teatro Tuca – 50 anos
Transportadora Oficial: Avianca
Patrocínio exclusivo: Bradesco
Realização: Ministério da Cultura e Governo Federal do Brasil – Pátria Educadora

Valmir Santos

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