O corpo transpassado pela experiência humana, posto como suporte político para o discurso sobre identidade de gênero, faz o ator Silvero Pereira se transmutar. No palco, o cearense, um dos fundadores do Coletivo As Travestidas, transita entre ele e seu alter ego, a travesti Gisele Almodóvar. Transita pelas duas identidades que, na verdade, se fundem em uma só, escritas em gestos e ditas em voz amplificadores de um teatro documental e militante.

Para se compreender essa relação, é preciso entender a origem dela. Gisele e Pereira “convivem” desde 2002, quando ela foi “parida” por ele na criação do monólogo Uma flor de dama, a partir de um conto do escritor Caio Fernando Abreu. A personagem, justifica o ator, é filha da modelo Gisele Bündchen com o cineasta Pedro Almodóvar – juntando em sua genética glamour e subversão. Com sua criatura, Pereira traduz as percepções que teve e tem do convívio com transexuais, travestis e transformistas sobretudo de Fortaleza, no Ceará.

Não raro o leitor vai se pegar à espera de um dado a mais, de uma linha a mais sobre as personagens. É a sensação de ser apresentado a alguém, mas logo depois precisar se despedir dele

Em Uma flor de dama, Gisele era uma espécie de máscara, usada por Silvero Pereira para sua interpretação, dentro de um campo fictício. Na montagem, a travesti falava da sua vida, dos seus desejos e das suas amarguras, tendo como interlocutor um “Boy” invisível e universal.

Com o tempo, de personagem Gisele Almodóvar passou a ser identidade. Dez anos depois, o alter ego feminino virou a chave para Pereira experimentar um novo processo de criação: o de vivência in loco do universo em que mergulhara na sua pesquisa junto ao coletivo As Travestidas.

Em 2012, contemplado por um edital federal, o ator começou a traçar novos caminhos para sua personagem, em um processo de observação e entrevistas no sul do Brasil. Foi conhecer as histórias de travestis e transexuais do Rio Grande do Sul e, a partir disso, construir uma dramaturgia que unisse os dois extremos geográficos do país. Ali surgia BR-Trans, o trabalho de maior visibilidade nacional experimentado, até agora, por Pereira.

Parte desse caminho artístico traçado por Silvero Pereira é possível de ser esmiuçado e compreendido através do livro BR-Trans, publicado pela editora Cobogó, que reúne textos introdutórios, observações, depoimentos e o roteiro do espetáculo citado. Estreada em 2013, a peça passou por inúmeros estados brasileiros, fazendo o espectador ouvir histórias e relatos que nos colocam próximos dessas mulheres marginalizadas pela exclusão social e pelo preconceito que marcam suas vidas:

“BR-Trans: Cartografia artística e social do universo trans no Brasil”, como o projeto era intitulado originalmente, surgiu no deslocamento da cidade de Fortaleza, no Ceará, para a cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, traçando uma pesquisa teórica e prática (…), identificando e comparando semelhança e contradições no universo trans dos dois lugares. (PEREIRA, Silvero, 2016, p. 11)

Em novo formato – agora o literário – BR-Trans ganha mais um significado. Sai do efêmero da cena para entrar num registro duradouro de anotações. Enquanto no teatro a peça nos leva a presenciar os relatos, em livro ela assume um papel de testemunho de uma construção de identidade. É a certidão de nascimento e a árvore genealógica de Gisele Almodóvar.

A dramaturgia não-linear compila vozes distintas, elenca informações sobre violência, pontua tristezas e melancolias. Memórias narradas entre o drama e o humor – buriladas por marcações, pontuadas pelas rubricas, que exploram uma espécie de show de transformistas.

Silvero Pereira convive desde 2002 com o alter ego feminino Gisele AlmodóvarLina Sumizono

Pereira convive desde 2002 com o alter ego feminino Gisele Almodóvar

Nas 14 cenas do espetáculo, Silvero Pereira empresta-se a várias personagens. Conta o que ouviu nas suas entrevistas e absorveu para sua criação. Lacuna na montagem, o aprofundamento dessas vozes também fica perceptível na leitura da obra. Não raro o leitor vai se pegar à espera de um dado a mais, de uma linha a mais sobre as personagens. É a sensação de ser apresentado a alguém, mas logo depois precisar se despedir dele.

É o olhar de Pereira que nos conduz, evidentemente, nesse passeio. No jogo épico, o próprio ator irrompe a narrativa para, sempre que possível, deixar o seu lugar de observador de todas aquelas histórias. Para isso, inicia um novo relato explicando quando e como conheceu aquela personagem que gostaria de apresentar ao seu público.

Quando lemos BR-Trans, ao conhecer essas “meninas”, construímos o mundo e o contexto de Gisele. É como se, através das outras, Silvero Pereira nos mostre de onde vem e para onde vai o seu feminino. “Interessava-me lidar com a dubiedade – o que é de Silvero e o que é de Gisele, Babi, Bruna, Tyna, Dani, Milena, Marcelly e de outras tantas vozes presentes no espetáculo?”, confirma a diretora gaúcha Jezebel di Carli, no posfácio.

BR-Trans sobressai o tempo. É tão atual quanto necessário, quando coloca em evidência um discurso político sobre gênero e sexualidade. A relevância da obra para os debates contemporâneos sobre esses temas fez o livro ganhar textos de dois significativos militantes dos diretos de pessoas LGBT no Brasil: o escritor e pesquisador João Silverio Trevisan e o deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ).

O primeiro, autor de bibliografias seminais no estudo da homossexualidade no país, assina a orelha do livro. Trevisan destaca a presença do travestismo no teatro, que “agrega à vida brasileira elementos muito particulares que revelam uma maneira peculiar de ser”.

Outrossim, Jean Wyllys dá conta de ampliar as reflexões sobre a leitura da peça para além do campo artístico. No texto de introdução, cujo título é “Todos nós em transe”, o deputado e militante aponta para o sentido transitório e “em movimento” subentendido e sugerido pelo espetáculo de Silvero Pereira. Um dos pontos, segundo Wyllys, em que consiste “a força maior de BR-Trans e o que a impede de se tornar datada”:

A peça é também sobre a liberdade e o prazer de se deslocar até onde se é mais feliz e autêntico; sobre o ato fundante de nossa humanidade de desafiar as imposições da natureza e produzir a cultura a partir de nossos corpos; sobre a coragem exercida por poucos de demolir a si mesmos e se reconstruir em seguida com as características que lhes permitem uma identificação maior diante do espelho; enfim, é também uma peça sobre a delícia de poder ser ‘fora’ aquilo que sempre se foi ‘dentro’. (p. 10)

Silvero Pereira, desse modo, empresta seu corpo a uma micropolítica que reflete o outro em si. Com a leitura da sua dramaturgia – e, para quem for possível, o testemunho da encenação desta peça – BR-Trans exemplifica a definição de uma micropolítica, defendida por Leonel Azevedo Aguiar (2008), que afirma: “entrar em ruptura com as estratificações dominantes é produzir processos de subjetivação como uma problemática da multiplicidade e da pluralidade”. Pereira e Gisele Almodóvar são um retrato cênico dos tempos de efervescência de debates tão necessários.

.:. Escrito no contexto do projeto Crítica Militante, iniciativa do site Teatrojornal – Leituras de Cena contemplada no edital ProAC de “Publicação de Conteúdo Cultural”, da Secretaria do Estado de São Paulo.

Serviço:
BR-Trans (72 páginas, R$ 30)
Autor: Silvero Pereira
Editora: Cobogó (2016)