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Crítica

Minutos acesos no tempo

12.5.2018  |  por Kil Abreu

Foto de capa: Christiane Forcinito

Existem ao menos duas frentes amplas e da maior importância no trabalho artístico audacioso da Trupe Sinhá Zózima, que há 11 anos concebe e apresenta seus espetáculos nos ônibus em trânsito pelas ruas de São Paulo, por vezes estacionados também. A primeira talvez seja mais evidente: a escolha política, o fazer do teatro um acontecimento não só rente ao cotidiano como, deliberadamente, próximo à vida de quem não o procura justo porque em geral precisa daquele tempo para ganhá-la. A decisão dos criadores, de permanecerem atuando nos seus lugares de classe de origem, se vista neste panorama de mais de uma década de militância já seria por si algo digno de admiração. A cidade de São Paulo tem 15 mil ônibus urbanos em circulação, usados majoritariamente pelas pessoas que estão nos extratos sociais mais baixos. São cerca de 6,5 milhões de cidadãos e cidadãs embarcando e desembarcando de coletivos diariamente. Por vezes em viagens longas, das periferias mais distantes às regiões centrais ou mesmo em direção a outras periferias mais distantes. O lugar-ônibus é o não-lugar por excelência e ao mesmo tempo um dos espaços mais permanentes do encontro social. A escolha da companhia tem, então, simbolicamente, fundas consequências. Mas não é só.

A segunda frente, que complementa e potencializa aquela, é que essa ocupação do lugar ordinário da vida – ali onde ela tende a não assentar, em que  é puro fluxo – essa ocupação é feita através de uma operação de linguagem que não pretende apenas reforçar as molduras do cotidiano e sim ampliar as suas bordas duras, criar nelas zonas de desconcerto. Pelas circunstâncias o grupo poderia pegar um atalho mais fácil e desenvolver, quem sabe, os mesmos projetos nas bases de uma forma qualquer de naturalismo, com apelo mais direto. É o que erradamente muitos acham recomendável como estratégia de aproximação a plateias “não habituadas” ao teatro. Entretanto, o caminho escolhido foi o mais difícil e também o mais aventuroso, aquele que dá nas trilhas do poético.

Em ‘Os minutos que se vão com o tempo’ a Trupe Sinhá Zózima visita o espaço de aprisionamento não para reafirmar a ‘des-potência’. A cena está lá para repotencializar o momento, acender os minutos, abrir janelas simbólicas, nas linhas de fuga oferecidas por aquelas histórias mesmo quando elas nos parecem uma rua sem saída

É então o gosto pelo lirismo o que marca a criação da trupe desde o início da sua fase madura, com Cordel do amor sem fim (2007), espetáculo a partir da  bela dramaturgia de Cláudia Barral. A pesquisa do grupo, a contar daquele imaginário – quando a vida vem e vai e, sobretudo, espera às margens – pretende formalizar-se e erguer os efeitos da teatralidade no fio de lâmina da poesia. Seja quando a história, a fábula aparece bem desenhada e com personagens envolvidas em situações dramáticas mais visíveis quanto ao encadeamento da ação (como no mesmo Cordel), seja quando as personas ganham o lugar central nas dramaturgias, mais que as situações – em narrativas íntimas, em fios de memória, em devaneios e estados de prospecção do sentimento diante do mundo. É o que acontece em Dentro é lugar longe (2013), um segundo movimento de tonalidade ainda mais lírica, baseada em depoimentos emprestados das histórias pessoais dos próprios artistas. É quando lugares de partida e chegada, malas que se abrem e fecham, pessoas que nascem e morrem, perfazem a simbologia de um percurso lírico-dramático da transitoriedade. Um estar no mundo que, no entanto, não é genérico, tem ponto de vista colado aos lugares sociais que são a pauta do grupo desde o início.

O mesmo dispositivo-deslocamento, tomado como princípio, é revisitado sob novo olhar agora, em Os minutos que se vão com o tempo (2016). E ganha novos territórios. Além da imagem primeira, a do ônibus em movimento, e a dos seus passageiros e suas condições de existência, há um dado novo na relação: os dois primeiros espetáculos ainda eram em certa medida palcos móveis, preparados para receber a encenação. O que supõe não só o aparato cenográfico próprio para ambientar a montagem, os acordos bem medidos quanto ao ritmo do trajeto, como também o fato de a plateia ir na direção do espetáculo, fazer da fruição uma escolha. Agora não. Os minutos que se vão com o tempo acontece em ônibus de linha, no meio do fluxo comum da entrada e saída de passageiros.

Christiane Forcinito

Público a bordo do ônibus de linha e do espetáculo ‘Os minutos que se vão com o tempo’

A esta altura felizmente a trupe já tem a musculatura desenvolvida não só para suportar e executar esse teatro-trânsito como para fazer com que ele renda momentos de alta potência poética. A dramaturgia em colaboração de Cláudia Barral tem razão e sentimento. O dado racional e vigilante está na estrutura narrativa. A autora constrói os fios de trama com linha fina, mas deixando os nós propositalmente soltos, de uma maneira que (quem sabe) aqueles que vão passar pouco tempo dentro do ônibus também possam fruir. Ao mesmo tempo não é uma coleção de quadros. São fragmentos poéticos que podem ser vistos como breves células dramáticas que quase se completam em si, mas também como passagens que, se vistas no conjunto, compõem percursos e totalizam a seu modo o contorno de situações e personagens.

Um homem que abandona e vagueia pelo mundo, ele e sua alegria e sua dor segredada; uma criança que busca (a mãe), uma mulher cega no entremeio da vida são algumas das figuras que transitam sobre o chão de alumínio, sob um ou outro solavanco, com o mundo a passar na janela. O dentro e o fora de todos os dias. Passageiros e personagens encontram-se entre barras de apoio e catracas enquanto a viagem segue. Encontros inesperados. Não só pelas histórias narradas e costuradas habilmente no cancioneiro arranjado por Luiz Gayotto (um dos elementos centrais da teatralidade) como também pela forma de contar. Aqui entra a habilidade já adquirida pelo encenador Anderson Maurício, em arquitetar percursos internos para a ação física no espaço inusual (para eles tornado usual)  com a gentileza de quem pede licença para sentar ao lado. Mas sem ignorar que a cena também quer ser, que o teatro está ali para cumprir um delicado, ambicioso desarranjo: o de reverter a percepção de que o tempo se perde, de que a existência encolhe diante dele. O espetáculo visita o espaço de aprisionamento não para reafirmar a “des-potência”. A cena está lá para repotencializar o momento, acender os minutos, abrir janelas simbólicas, nas linhas de fuga oferecidas por aquelas histórias mesmo quando elas nos parecem uma rua sem saída. Porque as histórias são mais que elas mesmas, são despertares, provocações feitas sobre estados, quem sabe, adormecidos em nós. Vigílias.

Esses despertares e centelhas acesas devem muito ao elenco, que  encontra quase sempre a posição de empatia, como se fôssemos vizinhos de longa data, estimulando um estado de informalidade que cativa a comunicação com a plateia sem que seja necessário abandonar a dicção poética do texto. Não é pouco. É uma negociação rigorosa entre formas e sentidos correndo atrás de manter a situação viva – a situação cênica bem como a situação do acontecimento presente, que reúne a todos e todas, entes ficcionais e não ficcionais, o real e o imaginado, em uma mesma experiência, no sentido amplo da palavra.

Talvez o achado criativo mais importante nesses anos de trabalho e criação da Trupe Sinhá Zózima, que eles cuidam muito bem, é a clareza que têm quanto à pesquisa de imagens potentes. Que não quer necessariamente dizer texto, palavras ou pensamento bonitos, expressivos, importantes. Eles intuem que a imagem é coisa de outra ordem, ainda mais exigente no teatro porque pede um tipo de significante mais difícil de alcançar e sempre fugidio, um significante testado no próprio ato do seu enunciado. É uma exigência do oficio próxima do que Peter Brook chamou “centelha de vida” na representação. Um algo que precisa permanecer aceso, sob o risco de falência do interesse de quem assiste. Neste espetáculo a poesia alcança o estado de imagem potente porque essa corporeidade o grupo domina de uma maneira muito bonita diante das suas exigentes escolhas de linguagem.

Christiane Forcinito

Detalhes de um dos figurinos no espetáculo da Trupe Sinhá Zózima que percorreu terminais

Para ir ainda mais perto do tipo de teatro que a trupe tem criado e que ganha alta sofisticação em Os minutos que se vão com o tempo, pode-se dizer que ali a  imagem abraça não só a instância da representação como também todo o seu contexto extra-estético. Os homens e mulheres que fazem e assistem ao espetáculo são, no fundo, partes da mesma grande imagem, temas de um mesmo quadro que se projeta para além da cena.

Quando Marx dizia que a poesia é a infância da humanidade, em alguma medida era a isso que se referia: é na poesia que a desobediência ao padrão, às operações ideológicas, às naturalizações do capital, ocorrem. A poesia é coisa para não caber e para despertar o sentimento do não caber. Se forem vistas assim as escolhas da Trupe Sinhá Zózima, por motivos agora óbvios, também fazem todo o sentido. Que elas tenham resultado até aqui em obra potente também é ótima notícia.

Equipe de criação:

Os minutos que se vão com o tempo

Dramaturgia (em processo colaborativo): Cláudia Barral

Encenação: Anderson Maurício

Com: Anderson Maurício, Cleide Amorim, Junior Docini, Maria de Alencar, Priscila Reis, Tatiana Nunes Muniz e Tatiane Lustoza

Direção musical: Luiz Gayotto

Trilha original: Trupe Sinhá Zózima

Direção de arte e ilustrações: Lucas Lopes

Confecções de objetos cênicos: Thamata Barbosa

Preparação corporal: Lídia Zózima

Produção geral: Tatiane Lustoza

Produção executiva: Thais Polimeni

Assistência de produção: Érica Santos

Fotografia: Christiane Forcinito e Danilo Dantas

Documentarista: Luciana Ramin

Assessoria de imprensa: Paula Venâncio

Designer gráfica: Deborah Erê

Webmaster: Danilo Peres

Captação e edição do vídeo: Cinefoto Colapso

Canção: Útero gigante

Captação e mixagem: Carlos Nunez

Teaser gravado no estúdio da Fábrica de Cultura Parque Belém

 

 

 

Kil Abreu

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